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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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 À volta de um quadro

IMAGINAR, IMAGINAR... É o artista, é o escritor, é o leitor... Um convite a apreciar este texto de um amigo que gosta de dar relevo à palavra. AH

 

UMA NOITE NA ÓPERAIMG_20180519_160001-COLLAGE3.jpg

 

O  quadro seduz-me, não pela minha capacidade de o observar como perito em pintura, tão pouco pela capacidade crítica de o analisar, que não tenho.  

Atrai-me porque vejo nele mão de mestre: pela harmonia, pelas cores, pelo desenho das figuras, pela reprodução da proporcionalidade, pela força das ideias que pretende imprimir e transmitir, pelo equilíbrio, pelo talento que se adivinha sair do pincel.

     Interpretá-lo, numa perspectiva crítica e análise de pormenor? Não se me peça o impossível. Mas dando de bom grado que a este não devemos ceder facilmente, libertar-me-ei de preconceitos  para dizer o que penso, o que vejo e o que julgo entender. Até para gáudio do autor que estará muito cioso da criatividade que é dele e que a não pretende partilhar, senão na  exposição visual que cede em gesto de contemporização e de gozo íntimo.

     Perscruto, visualizo de ângulos variados e reduzo-me ao intérprete da vulgaridade, sem conseguir ir além do que parece evidente para o observador comum.

    E que vejo eu? Apenas o que é frequente e habitual para além do espectáculo em si mesmo: o exibicionismo interpretado nas mais diversas formas.

     O vestuário requintado para uns carnavalesco para outros, as posturas hirtas e desengonçadas em trejeitos de esforço dorido, os olhares oblíquos e ancilosados, o artifício estudado, a peça exibida fora do palco. Nota-se uma  espectacularidade onde o individual procura sobrepor-se ao colectivo, onde se denuncia sem sofismas que se foi ali mais para ser visto do que para ver. E até nos contactos pessoais, sempre revestidos duma afectação recheada de postura ridícula, os personagens não falam, antes dizem o que não pretendem  exprimir, porque o  despeito  indisfarçável a isso os obriga a coberto da força do hábito.

    O quadro, numa espécie de anfiteatro de valores sociais, cuida de salientar a princesa ou rainha  no seu camarote central, onde assume uma postura digna e consciente de quem sabe que ser súbdito é bem mais difícil do que ter poder entronizado, seja por Deus seja pelos homens.

      A postura serena de quem conhece os fracos do servilismo humano, confere-lhe a serenidade natural ou estudada que convém  ao conjunto do espectáculo para prestígio da sua dignidade real.

      O artista imaginou e pintou, em pinceladas vigorosas e harmónicas, um quadro que ficou uma obra de arte. Por seu intermédio, limitei-me a imaginar. Se consegui tocar ao de leve na criatividade do artista, ficarei consolado e até vaidoso. Só que jamais o saberei. Deixá-lo, ficam dois quadros: o verdadeiro e o falso. Mas no meio Opera.jpgde tanta falsidade, o que sempre há-de prevalecer será o talento do artista, bem como a obra que a sua genialidade nos ofereceu.

       Apaguem-se as luzes. O espectáculo vai começar. Para descanso de muitos e deleite de alguns. Corpos hirtos nas poltronas, o intervalo virá a seguir. E o quadro repetir-se-á indelevelmente.

       O Artista criou, o escrevinhador rabiscou, a Ópera  acabou.

 

A. Pires da Costa

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