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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

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A rir, a rir...

VOU TIRAR O CURSO DE CORRUPTO

Pires da Costa.jpeg

 

    Parece que a corrupção tomou conta do país. E eu, como membro efectivo desta sociedade, confesso-me altamente preocupado. Não pela corrupção em si mesma, mas com toda a componente que a envolve. Meditei muito sobre o assunto e cheguei à conclusão de a dita corrupção está uma bandalheira. Não há lealdade, não há honradez, não há sinceridade, não há justiça, não há discrição, não há saber. E, nesta  situação, nem se prestigia nem se dignifica. Interrogo-me: Com uma corrupção destas, onde vai parar este  nosso país?

    Enquanto o governo anda numa fona a tentar dizer aos portugueses quanto está a governar bem e que se melhor não faz é porque a oposição não deixa,  esta passa o tempo a gritar que o governo não presta e não sabe governar e que se eles, os da oposição, governassem, isto era um mar de rosas, eu vivo nesta angústia de tentar solucionar o problema da corrupção do meu país. O leitor fará a justiça de  concordar que  a minha tarefa é bem mais ingrata do que a deles, governo e oposição. Contudo, vou tentar.

     Entremos, pois, de vez na Corrupção, a minha futura actividade, na qual espero ser um exemplo para todos os meus futuros colegas espalhados pelo país. Após muitas noites passadas em claro e dias às escuras, cheguei a algumas conclusões, na minha perspectiva todas brilhantes, e que passo a narrar.

      Começarei por procurar uma universidade que aceite o curso que pretendo tirar: « Engenharia da Nova Corrupção » Para tal, procurarei uma daquelas que trabalhe em serviço contínuo durante todo o ano e que pode conceder diplomas de manhã, à tarde ou à noite e disposta a criar o curso atrás mencionado, onde serei o primeiro aluno a matricular-me Perguntar-se-á: - Para acabar com a corrupção?  Respondo, nada disso! O que pretendo não é acabar com ela, já que isso acarretaria lançar muita gente na miséria e no desemprego e disso eu seria incapaz.

       Para quê então o curso? Fundamentalmente, para dignificar a função do corruptor, conceder-lhe o estatuto a que tem direito, consciencializá-lo dos seus deveres para que, cumprindo-os, possa obter o respeito dos seus concidadãos, integrando-se assim, naturalmente, na sociedade que somos.   

       Tirado o meu curso, passarei a ser um verdadeiro corrupto, capaz de moralizar a corrupção, tornando-a numa actividade normal e bem aceite por todos.  É que, mais do que a minha própria vida, tudo farei para melhorar a dos meus concidadãos mais necessitados.  Resumindo: serei um corrupto honrado, digno, justo, humano, altruísta sempre preocupado com o bem comum.

      Assim, como qualquer corrupto que se preze, procurarei corromper o mais possível, mas sempre com a maior dignidade e discrição, coisa que a maioria dos nossos actuais corruptos não faz. Como mandarão  as novas regras da Corrupção, procurarei que nunca se suspeite de que sou corrupto e farei os maiores esforços para que tal nunca se descubra, já que só assim o meu projecto poderá ter êxito.      Sei que vou lançar-me numa causa que muitos olharão com desconfiança. Assim, haverá que estabelecer regras sozinho, já que não me vou sujeitar à colaboração de algum corrupto cuja mentalidade se resume à ideia de que a corrupção consiste apenas em enganar e roubar os outros.  Considerando que irei integrar-me numa actividade profissional que  é das mais antiga do mundo,  onde o homem é pioneiro e  único a praticá-la, não me resta outro caminho.  A responsabilidade é uma coisa muito bonita.

    Assim, e apenas como um pequeno levantar do véu, por razões óbvias, tratarei de  criar uma Ordem Profissional dos Corruptos que funcionará de acordo com os Estatutos que eu próprio elaborarei e da qual, com toda a lógica, serei o Bastonário.  Por minha honra declararei, assim como terão de fazer todos os meus futuros colegas   no acto da inscrição,  que se alguém descobrir que pratico actos ilícitos, puxarei de toda a minha honradez, de toda a minha dignidade, da integridade do meu carácter e declararei  que de facto sou corrupto e quais os actos que cometi nessa função. Para mim isto nada terá de especial, já que é o comportamento que, de modo consuetudinário, se encontra estabelecido para o desempenho de qualquer actividade humana. Dentro da Ordem, assim procederão todos os corruptos em situação idêntica, isto é, corruptos legalizados como eu. Ou há moralidade ou comem todos.  Com tal comportamento, será aliviado o trabalho da polícia, dos  advogados, do Ministério Público, dos tribunais e respectivos juízes e eu aliviarei a minha consciência, ainda que se diga que esta não existe na mente dos corruptos, no que não acredito. Até aqui, todos têm sido uns envergonhados e uns cobardolas e, por isso, têm feito as tristes figuras que a toda a hora presenciamos. Tudo isto vai mudar, porque a corrupção ordinária e suja será definitivamente irradiada do país. Quiçá, até noutros que estejam dispostos a reconhecer  o nosso novo grau académico. Pagando, claro, os respectivos direitos, como será da lei instituída.

      Para mal dos nossos pecados, até aqui, apenas temos tido corruptos ordinários, que negam tudo, negam sempre, fazem caras de anjinhos imaculados e dizem sempre a mesma coisa: perseguição maldosa, tramóia orquestrada, cabala infame, vingança invejosa, mentiras descaradas. Ora, tudo isto é uma vergonha e também um desprestígio para a classe dos corruptos e também do país que somos. Há que pôr cobro a tudo isto, e só por essa razão me disponho a tirar um novo curso e a desempenhar uma actividade com a qual não simpatizo muito, ainda que a respeite, já que toda a gente tem o direito de ganhar a vida.

    Levantando um pouco mais o «veuzinho», os Estatutos da referida Ordem dirão, no seu artigo nº 855, expressamente, que todo o produto angariado corruptamente será entregue na Tesouraria da Ordem. Para que possam viver com dignidade mas sem ostentação e de acordo com as suas necessidades familiares, os depositantes corruptos receberão uma percentagem calculada sobre a importância entregue. No final do ano, - e aqui está a já apregoada força moral e altruísta da Ordem -  será feita uma distribuição de verbas, que naturalmente serão elevadas dada a natureza da actividade, pelas numerosas instituições de carácter social por todas as regiões do país, para que os mais necessitados possam viver melhor. E, para que tudo seja mais limpinho e legal, cada corrupto deverá pagar ao Estado o respectivo IVA  23/ºº dos seus legais rendimentos, e não 6/ºº , que a corrupção não é nenhuma tourada. Quando muito, usará também farpas, mas de fabrico diferente. Mais requintadas, mais subtis. Haja bom senso!

                                                                                                                 Senhores corruptos  do meu país, aceitai as regras do jogo, já que ainda não  podeis pagar impostos como os outros contribuintes como seria vosso dever – porque se os pagassem seriam logo alvos de suspeita - mas, quando chegar a vossa hora da denúncia , colaborai com a polícia, com os tribunais, com a imprensa e assumam toda a verdade. Verão o alívio que invadirá o vosso espírito e a admiração que recuperareis da sociedade.  Se nunca forem apanhados, os meus parabéns. Mas permitam-me um apelo final: visto tratar-se de um trabalho bem remunerado, quando tiverem  o suficiente, retirem-se gozem a vida e dêem lugar a outros.

     Assim, vamos todos, corruptos legalizados, dar o nosso contributo para dignificar a nossa nobre profissão, dir-se-ia mesmo missão, e contribuir para sermos a alavanca do desenvolvimento do país, coisa que os sucessivos governos não têm conseguido fazer.

     Sim, é deveras triste e lamentável a frequência com que os zelosos defensores dos cidadãos acusam membros dos órgãos governativos, desde juntas de freguesia, câmaras municipais, governos, parlamento, poder judicial, forças de segurança, forças armadas etc. que a lista já vai longa e o papel custa dinheiro, e, que me lembre, até hoje nenhum dos visados tenha assumido quaisquer responsabilidades nas acusações que lhes são dirigidas. Negam como qualquer cidadão ordinário, negam sempre, mesmo depois de condenados judicialmente pelos crimes que lhes são imputados. Ora isto é uma vergonha, uma trafulhice, uma desonestidade. E, se não fosse o receio de desagradar a pessoas sérias, educadas e dignas, que ainda há muitas e me merecem o maior respeito, ousaria até dizer: - uma estrumeira onde chafurdam consciências podres. Escapou, peço desculpa, mas agora já está!        E agora, com a crónica a chegar ao fim, sinto-me a pensar que terei adjectivado em demasia a triste  e ordinária corrupção que nos circunda, como que a pedir meças à simpática  e de boa sonoridade endorreia alentejana, com o devido respeito que esta nos merece.  E esta escribomania que não me larga! Será que eu, sem o saber, já sou um corrupto sem curso nem nada e a quem ninguém dá importância? Se assim for, mais se justifica a minha corajosa decisão. Vou concretizar o meu plano, prestarei um grande serviço ao meu país, bem como ao governo que ora toma conta de nós, bem como aos que vierem a seguir. E, enquanto não concretizar o meu projecto, o que pode levar muitos e muitos anos – todos conhecemos a corrupta burocracia do país e eu só vou corromper quando tiver o dito curso - deixo este desabafo final: para esses corruptos ilegais e gananciosos, que só abocanham e não dão nada aos para se obter um equilíbrio social mais justo, remato desta maneira:

 

           Para os corruptos, com muita lealdade,

           Ouso propor com profunda amizade:

           Construam-se muitas e fortes prisões

           E metam lá essa cambada de ladrões!

 A. Pires da Costa

 (Dentro de uma tradição ora muito em voga, invoco o direito de poder escrever segundo ortografia que me dita a consciência.)

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