Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A Revolução Liberal- 200 anos (1)

29.10.20 | asal
Meu caro Henriques
Tentando fugir à tão badalada e omnipresente Pandemia, virei a direção para um período da nossa história tão mal conhecido. O Liberalismo, defendido pelos maiores intelectuais do nosso conturbado séc. XIX.
Creio que revisitar esse período tão fascinante, após 200 anos da nossa longa História Pátria, pode-nos ajudar a compreendermos alguns aspetos da nossa sociedade.. Nomeadamente a nossa eterna dependência dos outros para nos sabermos governar. Se então foram os ingleses que nos "colonizaram e governaram", hoje é a União Europeia que nos protege, em horas de grande carência. Mas há mais lições a reter, como veremos.
Do Amigo, farto de estar confinado, um forte abraço, alargado a todos os nossos companheiros de jornada. Valha-nos o ANIMUS...SEMPER...

Florentino4.jpg

Florentino Beirão
 
 

Fuga da corte para o Brasil

Ao longo deste ano, estão a decorrer as comemorações do bicentenário da Revolução Liberal de 1820. Como vem sendo anunciado, têm como finalidade assinalar a importância deste acontecimento histórico para o nosso país, bem como dar a conhecer o contexto em que este evento ocorreu. Os seus múltiplos efeitos, como veremos, chegaram aos nossos dias, misturados com vitórias e derrotas.

Iniciemos por tentar compreender a conjuntura desta Revolução, partindo da forçada saída da Corte Real portuguesa para o Brasil, em 1807.

A França, como se sabe, alguns anos após a sua Revolução de 1789, com a chegada de Napoleão Bonaparte ao poder em 1804, lançou-se na aventura de pretender dominar toda a Europa, a fim de lhe impor os grandes princípios iluministas da Revolução Francesa: Liberdade, Igualdade e Fraternidade.

Portugal, como alguns países europeus, acabou por se encontrar também envolvido nesta ambiciosa deriva, uma vez que se recusou a aderir ao “Bloqueio Continental”, imposto pela França à Inglaterra, nossa velha Aliada. Bem tentou o Governo do príncipe Regente D. João adiar esta medida através da diplomacia portuguesa. Porém, os resultados revelaram-se infrutíferos.

Esta jogada francesa, em relação a Portugal, revelou-se muito exigente e arriscada. Caso não aderíssemos ao seu Ultimato, as consequências podiam ser dramáticas. Ficar sujeitos a perder o nosso lugar no comércio europeu e intercontinental e mesmo o do Brasil poderia vir a passar para a influência britânica. Tenha-se em conta que esta nossa colónia, de tão valiosa importância económica, devido aos seus recursos, contrabalançava a nossa diminuta influência, face à política europeia. Por tal motivo, fomos forçados a ter de nos colocar ao lado da Inglaterra, para fazer face à imposição francesa.

Esta opção irritou de tal modo o ambicioso general Napoleão que decidiu, em novembro de 1807, invadir o nosso país. A esta, mais duas violentas invasões se seguiriam, em 1809 e 1810.

A razia dos bens e a violência geradas nas populações acabou por deixar o nosso país de rastos, entregue aos militares ingleses, ficando eles, praticamente, a tomar conta do governo de Portugal.

Regressemos então à primeira incursão dos soldados franceses, chefiada por Junot. O seu grande objetivo consistia em chegar o mais rápido possível a Lisboa, onde se encontrava a Corte Real, dominar o seu porto marítimo, de máximo valor intercontinental e, deste modo, servir os interesses comerciais da poderosa França.

Face a esta primeira investida pelas Beiras, o Rei ordenou aos seus habitantes que não colocassem forte resistência, para se tentar evitar piorar a situação das populações, à passagem das tropas invasoras. Em Castelo Branco, por exemplo, até o Bispo teve de oferecer comida e aposentos aos chefes militares napoleónicos. Quanto aos habitantes da cidade, foram gravemente espoliados dos seus bens. A pilhagem e os distúrbios morais foram de tal monta que algumas mães tiveram que fugir com as filhas para os campos.

Enquanto as tropas não chegaram a Lisboa, com os soldados a pé e famintos, ao Rei de Portugal sobrou tempo para preparar os seus valiosos haveres e fugir para o Brasil, sob proteção dos ingleses, um pouco antes de chegarem as tropas invasoras à capital.

Nesta altura, valeu ao nosso país o apoio britânico que acabou por chegar no primeiro de agosto de 1808, para ajudar a derrotar as tropas invasoras, nas batalhas de Vimieiro e de Roliça. Finalmente, Lisboa pode ter novos governadores, após terem sido embarcados para Espanha as derrotadas as tropas francesas.

A partir desta altura, a governança do Reino passou a ser controlada pelos ingleses, ficando o país, com a ausência da Corte no Brasil, muito abandonado, entregue a mãos alheias. Esta situação provocou consequências económicas negativas, devido sobretudo à falta de mão-de–obra. E, a nível financeiro, foram de tal modo também graves, que não foi possível aplicar qualquer verba na recuperação do país. Entretanto, no Brasil, em 1807, com 40 anos e regente há 15, por demência de sua mãe D. Maria, D. João, homem tímido e indeciso, foi aclamado Rei de Portugal em 1815, formalizando assim a criação do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarve. Entretanto, foi crescendo o mal- estar entre a população, dominada pelos ingleses, a viver em más condições. Deste modo, se foram criando condições favoráveis para a Revolução de 1820, à qual aderiu a população portuguesa.

florentinobeirao@hotmail.com

1 comentário

Comentar post