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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A religiosidade popular do Natal

27.12.19 | asal
Caríssimo Henriques
Ainda não te tinha enviado esta peça.
Creio que é hoje muito oportuno e importante valorizarmos as numerosas e ricas tradições do povo que viveu e vive no interior do nosso país. São tão ricas que foram capazes de  perdurar vivas, ao longo de tantos séculos. Seria um pecado de omissão não as mantermos sempre revigoradas porque elas nos revelam como estas gentes trabalhadoras, pobres e humildes, encontraram nas suas tradições, formas de manter e aprofundar os seus laços de pertença, as suas identidades. Esta nossa Beira, certamente, merece que olhemos para ela e para a riqueza das suas belas tradições.
O Madeiro - Fogueira de Natal é uma delas. Quem já fez a experiência do seu calor fraterno, jamais a esquece.
Continuação de uma Boas Festas natalícias, para ti e para todos aqueles que são aquecidos pelo nosso ANIMUS SEMPER.
Florentino Beirão

Florentino2.jpg

 

A tradição do madeiro de Natal nas Beiras

 

Com a aproximação da Festa do Natal, uma grande parte das populações das aldeias e vilas da raia, de Trás os Montes às Beiras, envolvem-se numa milenar festa comunitária, tendo como centro, uma fogueira, mais ou menos volumosa, colocada às portas das igrejas, para ser incendiada antes da “Missa do Galo”, à meia-noite, no dia 24 de dezembro. Quando falamos de “fogueira” ou de “madeiro” de Natal estamos a referir-nos à mesma realidade.

Ainda hoje, muitos se interrogam acerca da origem desta milenar tradição que remonta a ancestrais cultos pagãos, ligados aos solstícios.

Tanto quanto hoje sabemos, acerca da origem das fogueiras-madeiros de Natal nestas regiões do país, elas não se encontram, estritamente ligadas ao dia do Nascimento de Jesus, o qual se desconhece, mas a uma festa pagã romana, dedicada ao “Natale Solis invictus”, introduzida no império pelo imperador Aureliano, no ano de 274. Estas festas solares, espalhadas pelo império, teriam como principal finalidade, prestar culto a um deus pagão, ligado ao solstício do inverno, numa altura em que a luz do sol renascia, vencendo a escuridão das noites frias e escuras. Com esta cerimónia religiosa, o imperador procuraria atingir, pelo menos, dois objetivos. Por um lado, centralizar os vários cultos politeístas, no culto ao deus-sol sírio. Por outro lado, conseguir a união do império, já com sinais de crise, à beira da sua estrangulação, devido às contínuas e devastadoras investidas dos povos germânicos-bárbaros.

 Para tentar imunizar os cristãos da força atrativa desta festa pagã, como não se sabia ao certo quando Cristo tinha nascido, a igreja de Roma, no dia da referida festa, celebrada em 25 de dezembro, decidiu então colocar neste mesmo dia, o nascimento do Salvador “, como “luz do mundo” (Jo.8,12) dado que, para os primeiros cristãos, o “Sol invencível” não era o deus pagão, mas Jesus que veio ao mundo, segundo São João, como “a luz verdadeira que ilumina todo o homem”.

Deste modo, tentava batizar esta festa pagã, à semelhança de muitas outras tradições romanas e de outros povos pagãos, que, ao longo dos séculos, se foram integrando, pacificamente, na tradição cristã. Como sabemos, a partir de festas pagãs pré-existentes ao cristianismo, ao longo dos séculos, foram surgindo novas interpretações das mesmas, embora permanecendo, em alguns casos, o essencial. À medida que se alteram as conjunturas económicas, socio-políticas e religiosas, a tendência natural, como sabemos, é para se ir alterando o modo de vida dos povos.

Mesmo hoje em dia, devido a diversos fenómenos mundiais, tanto culturais como religiosos, a Festa do Natal, tem sofrido, nas últimas décadas, profundas mudanças, oriundas de diversas origens. Por um lado, a globalização com a tendência de querer nivelar as culturas das nações, impõe-lhes alternativos modos de vida e de consumo. Por outro, ao vivermos mergulhados numa civilização consumista-capitalista, somos abafados por inúmeras propostas consumistas que são promovidas até à exaustão, pelas aguerridas lutas entre as gulosas multinacionais.

Quanto à secular tradição do Madeiro nesta zona do interior, tudo leva a crer que se integra no longo e profundo processo da romanização que atingiu todo o império, onde se incluía o nosso país, o qual ainda guarda hoje numerosos vestígios desta grandiosa civilização.

Relativamente ao futuro, como tem vindo a acontecer com outras seculares tradições, em vez da atual festa comunitária do Madeiro de Natal, do povo e para o povo, poderá vir a tornar-se numa singularidade folclórica ou exótica, só para turista ver e fotografar. Deste modo, só lhe resta tornar-se mais um cartaz de promoção do turismo religioso local. Sendo muito pouco, não seria de desprezar, dado que estas terras beirãs se encontram já numa fase galopante de desertificação humana.

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Como vão deixando de existir, nesta faixa pobre do interior, jovens e pessoas com capacidades para colaborarem no transporte da lenha para o Madeiro de Natal, restará muito provavelmente aos poderes autárquicos virem a ter de assumir, como já vem acontecendo, a continuidade das seculares tradições locais, em perigo.

Como nota final, gostaríamos de deixar uma pergunta – desafio, aos políticos desta região do país. Não seria de se vir a elaborar um projeto intermunicipal, para se colocar à consideração da UNESCO, a fim desta secular tradição ser classificada, como “Património Imaterial da Humanidade”?

 florentinobeirao@hotmail.com