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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A propósito de Alfragide

05.02.19 | asal

Muito curioso: o Jorge Calhas acaba de participar pela primeira vez nos nossos encontros (o que saudamos efusivamente, sabendo nós as difíceis condições de saúde que suporta!), e logo se debruça sobre a realidade da Igreja nos tempos atuais. Aqui deixamos o seu texto, eivado de uma terminologia científica a que nós não estamos habituados, o que mais diversifica a visão cultural deste blogue. Obrigado, Jorge! Gostei muito de o ver em Alfragide... AH 

 

ALIMENTO PARA O CORPO E PARA A ALMA

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Um grupo de gente interessante que tem por elo unificador o facto de todos terem querido, numa idade de diferenciação da respectiva personalidade, servir os desígnios de Deus conforme a definição da Igreja Católica. Foi unificador de interesses numa adolescência em que fervilham realidades múltiplas recebidas pelos jovens com ar bem vincado de quem está pronto a receber tudo o que vier, para tudo está preparado desde que não conheça o sabor da desilusão por incompatibilidade entre o sonho e a realidade. Ao contato com as primeiras contrariedades que mostram mundos diversos, alguns revestindo alguma hostilidade, mesmo que façam parte da rotina de servir a Deus... que fazem os jovens adolescentes? Questionam-se e as questões que colocam não têm a filtragem bem treinada do adulto que com facilidade consegue reverter a seu favor e da comunidade em geral, as contrariedades que levam o adolescente a fugir.

E estas palavras porquê? Porque no Sábado, no almoço do Seminário de Nª Senhora de Fátima em Alfragide, foi notório que dos seminaristas que iniciaram o período de formação em 1961 no Seminário de Gavião, apenas estava um Revº Padre que já o era na minha entrada no Seminário e mantém a convicta vocação que o empurrou vida fora no exercício de funções que exigem uma vocação sólida e empenho, que ele descrevia na mesa de refeição onde se desfaziam algumas costeletas para abrilhantar um reencontro, que, mais não fosse, era o rastreio do que em 1961 aconteceu no Seminário de Gavião. De todos os envolvidos no 1º ano de Seminário em 1961 ( professores, perfeitos e alunos candidatos ao exercício da atividade religiosa como Ministros da palavra de Deus), restava um (todos os outros debandaram), que já o era em 1961 e mantinha a sua dura vocação, empenhando-se ainda em atividades de apoio a colegas dele que por motivos de saúde ou por necessidade de férias teriam de ser substituídos na ausência.

E havia, nas palavras do Revº, algumas paróquias cheias de atividade que desgastavam a resistência física de alguns que solicitaram a cobertura da justificada ausência (por férias ou motivos inadiáveis não agendados) do pároco titular. O Revº falava num tom de voz que não revelava amargura ou revolta sindical, mas que deixava adivinhar que a atividade a desenvolver era dura e que, na comparação com as regalias do foro sindicalista, a realidade de educar as almas da paróquia nos bons costumes com as normas, delimitando o permitido e o interdito para manter um grupo coeso e unificado com as regras desenhadas pela autoridade maior, a de Deus, para o "Povo de Deus". E lá confidenciava que o Seu Bispo queria tudo bem feito com as atividades catequísticas e outras bem ensinadas nos preceitos orientadores. Aparentava o Revº alguma amargura nos seus 88 anos de idade, por serem tão poucos os escalonáveis para esta nobre missão que, embora do foro religioso, é tão importante na sociedade atual desagregada por pulverização de interesses e ameaçada com os "nativos digitais", que desconhecem o bom relacionamento interpessoal direto com os diálogos a todo o tempo adaptados ao sentir de um grupo que sente, se emociona e reage em função do interesse geral.

Hoje, ameaçados pela guerra dos nativos digitais, aguardamos a destruição do que resta de um espírito unificador de mentes. Numa idade da evolução marcada pela velocidade, com os sobressaltos do desencanto que emergem fluindo pelas vias e becos não censurados de uma comunicação livre através de meios disponibilizados pelas redes sociais que fragmentam a opinião, pulverizando-a e ameaçando o espírito unificador de princípios, normas e regras aglutinadoras do bom conviver que preserva o respeito mútuo, é mesmo importante não esquecer algumas palavras desta Sociologia de Jesus Cristo, enformada por diversa alegoria objetivamente difusora dos seus princípios, o maior dos quais "amai-vos uns aos outros como eu vos amei".

Jorge Calhas

 

Aditamento pedido pelo António Henriques:

«O uso de "nativos digitais" é prática corrente em neurociência e designa os nascidos pós 1990 que por qualquer motivo se tornaram viciados no uso de internet e todas as ferramentas digitais a ela associadas com o sobredimensionamento da visão e audição e com empobrecimento do relacionamento interpessoal direto. Situação esta que peocupa deveras os serviços de saúde de todo o mundo sobre as consequências que daí possam advir. Onde li pela primeira vez essa designação foi num livrinho de Susan Greenfield titulado "Um dia na vida do Cérebro". Susan Greenfield é uma investigadora de gabarito, inglesa da esola de Oxford. Tem a tutela por ter sido a principal autora da teoria sobre as redes neuronais muito credibilizada atualmente. Um abraço António.»