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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A propósito da Isna

13.01.22 | asal

Olá, António, bom dia!

Na sequência do que parecias sugerir no final dos parabéns endereçados ao nosso Zé Maria, sobre escassez de novidades, e espicaçado pelo aniversário do Assis, que eu considero quase conterrâneo, por crer que há toda uma cultura ribeirinha ligada à ribeira da Isna, resolvi enviar-te um texto de homenagem a um sancarlense (natural da Isna de S. Carlos), que une ainda mais as duas povoações, já que o seu pai, Luís Farinha Henriques, era da Isna de Oleiros, povoação que eu referencio no texto como "mais subida", não só por estar a montante, mas também por ser de mais monta.
Enfim, trata-se também de uma pequena incursão pela história da minha terra, o que pode não interessar a muitos dos nossos seguidores, até por me faltarem capacidades para voos mais altos, como os dos nossos alcainenses, mas haverá também referências a temáticas e pessoas do nosso meio sociológico. Tu avaliarás se vale a pena publicar ou não.
Um abraço!                                                                                              Foto da Wikipédia

Isna_de_São_Carlos_-_Foto_0001.jpg

Gil
 

FREI VÍTOR--ISNA

Os nossos antepassados, na Isna de S. Carlos, eram cognominados, acintosamente, pelos vizinhos, de “fecha-portas”. Uma das interpretações para tão pouco amigável epíteto estaria relacionado com a pouca familiaridade com os visitantes, o não saber receber e acomodar os estranhos, ou até por serem um tanto “bichos-do-mato”. Ora, em nosso entender, tal designação deve estar relacionada com a velha questão da passagem da velha estrada nacional 241, que os da Isna empurraram para “as ladeiras”, para se livrarem dos viandantes indesejáveis a invadirem-lhe a tranquilidade e ameaçarem-lhe os haveres: consta até que deram presuntos aos decisores para os levar a alterar o projeto da referida estrada, muito mais acessível pelas várzeas da povoação.

Se tudo se passou assim, ou não, pouco importa. Naquele tempo, a estrada foi para a Maljoga um fator de progresso e de proximidade de transportes, que eles não se coibiam de nos ostentar e que nos levava a depender deles, até em termos comerciais. Nos tempos que correm, não vemos grande vantagem para os nossos vizinhos por lá terem a velha estrada, tão despovoados e envelhecidos como nós, embora, agora, nós um tanto mais ufanos e turísticos.

Contudo, não foram só desvantagens no atirar com a estrada para as ladeiras, pois assim também ela serviu de miradoiro para a bela paisagem isnense, a ponto de muitos forasteiros apelidarem a Isna de S. Carlos de presépio natural, verdadeiro naco de beleza paisagística do percurso entre Tomar e Castelo Branco. Ouçamos o que alguém escreveu a este propósito em 1995: “Quem, de Proença-a-Nova, se desloca, pelo IC8, para a Sertã, num abrir e fechar de olhos, transpõe o Carvalhal e, se os não levar bem abertos, arrisca-se mesmo a voar para os enfestos, sem ter o privilégio de poder contemplar, a meio da descida, a encosta povoada da Isna e, mais abaixo, a extensa várzea, à direita da nova ponte. Apesar da alta velocidade a que se rola, mesmo que num relance, vale a pena vislumbrar tão bem enquadrado presépio natural.”

 Mas voltemos aos “fecha-portas”: efetivamente a Isna de S. Carlos, que está indelevelmente ligada ao seu padroeiro (já que a ribeira herdou o nome de uma outra povoação, mais subida) era fácil de fechar, apenas a capela ficava altaneira, fora da circunscrição da única rua que albergava os nossos antepassados: Os Pedro Alves, os Lopes Alves, os Farinha, os Lourenço, os da Joaquina, também Lopes, os Matias, e mais Lopes, os morgados, a fechar a rua, de norte para sul.

 Mas como apelidar a Isna de “fecha-portas” se, desde há muito, se abriu e recebeu gente de perto e de longe: do Casal, os Cardoso, do Moinho Branco, os Fernandes, do Pereiro, do Vale da Junça, do Sobral, das Fontainhas, os raposos, do Beirão, do Mosteiro, do Sipote, os Barretos, das Cimadas, os Porta-da-Vinha, do Vergão, os Nunes, os Duques e os Pascoais, do Pergulho, os Catarino, de Cardigos, os Maranhos, e até da Isna de Oleiros, os Henriques. Saiu da rua e espalhou-se pelas 5 colinas: o Santo, o Barreiro, o Serro Boieiro, o Cabeço do Sapateiro, e o Casalinho. É verdade, se Lisboa tem as suas sete colinas, a Isna, nas devidas proporções, tem cinco, que os viandantes da antiga estrada puderam contemplar, lá “das ladeiras”, nem todas povoadas naquele tempo, é verdade.

Que nos perdoe o nosso homenageado, de quem hoje celebramos os transcorridos vinte e cinco anos de sacerdócio, se nos perdemos com preâmbulos, aparentemente desviados do essencial que nos traz aqui. Lá chegaremos, se não for abusar muito da vossa paciência, mas como os que aqui estão hoje estão, seguramente, desejosos de conhecer com alguma profundidade, as origens deste nosso homenageado, tomámos a liberdade de deixar registo etnossociológico, mesmo se um tanto lisonjeiro, como mandam as circunstâncias, até porque as fontes históricas escritas escasseiam, devo alertar, e as orais, como se compreende, vão-se adulterando, tornando-se menos fiáveis. Não pretendemos fazer história, apenas discorrer sobre o passado, para que nem tudo se perca, agora que somos cada vez menos, os autóctones da Isna. 

Se considerarmos que o padre Manuel Martins, que aqui completou, até 1959, ano da sua morte, os últimos anos da sua vida, não era da Isna, apenas protegido, criado e formado padre no Colégio de Sernache pelas primas da Joaquina, de que foi herdeiro, tendo partido como missionário para a Índia em 1910 e regressando como pároco substituto na Sertã, e paroquiando muitos anos no Troviscal, então,  este nosso homenageado de hoje é um exemplar único e precioso neste cotejo com os nossos vizinhos, neste particular bem mais ricos que nós, ora vejamos: as Maljogas, berços de meia dúzia de padres (padres Cardoso e Tarcísio…); O Pereiro e as Fontainhas com dois ( padres António e Elias); o Sipote, com pelo menos dois de que me lembro ( padres Libânio e Serrano); a Folga, onde chegou até a residir um bispo, o Cabeço do Moinho e a Aldeia Ruiva, ambas com pelo dois cada uma. E isto para só referir povoações vizinhas que, com maior ou menor assiduidade, frequentaram a nossa capela de S. Carlos.

Pois, o reverendo Frei Vítor é o paladino precioso que veio contrariar um velho desabafo do António “Porta-da-Vinha”, que, desanimado com a falta de jeito dos filhos para mecânicos, repetia: “padres e serralheiros na Isna!…” Bom! Não completamos o dito que todos já conhecem, por respeito pelo espaço e as dignidades.

Frei Vítor, antes de ser Henriques é Alves e, bem vistas as coisas, deveria ser Pedro, um nome que é toda uma herança, que ele continua, como presbítero, na linha de um seu antepassado, o Padre Pedro, tanto quanto se sabe, o primeiro capelão desta capelania da Isna de S. Carlos, conhecida desde 1598, e outro Pedro, seu administrador, como testemunho do padre António Lourenço Farinha em “A Sertã e o seu Concelho”, que passo a citar: “A capela da Isna é relativamente bastante antiga, não se conhecendo porém a data da sua fundação. Suponho que existe desde 1598, porque o Visitador do Grão-Priorado do Crato concedeu licença para edificar, na freguesia da Várzea, uma ermida, sem indicar o seu nome nem o local, parecendo tratar-se da de S. Carlos, na Isna. É certo que já existia em 1647, conforme consta do testamento do Padre Pedro Alves, que morava na localidade no referido ano, e nela se fizeram reparações em 1668. Depois, deixaram-na chegar a tal abandono que o Provisor do Grão-Priorado a interditou, sendo reaberta em 1775, depois de novamente reparada. Era esta capela, em 1730, cabeça de morgado, que então possuía José de Melo de Figueiredo de Bulhões, de Arganil, e tinha a sua administração, em 1758, Manuel Alves, morador na Isna. Por alvará do Prior do Crato, de 23 de Julho de 1800, foi estabelecido o ordenado de 90 alqueires de trigo ao seu capelão, que ficou com o dever de coadjuvar o pároco no serviço religioso dos lugares de Isna, Maljoga, Moinho Branco, Fontaínhas e Casal.”

Consta da armação em ferro, no topo da escadaria de acesso ao campanário e ao coro, a data de 1937, pressupondo-se tratar-se de mais uma reparação, com a construção do referido coro, que se eliminou em 1995, na última reparação, que incluiu o interior e o acrescento de uma casa de banho para o recanto do emblemático canteiro dos “rapazitos”, que os da minha geração tão bem conhecíamos.  

Se, como me ensinou o meu falecido pai, Celestino Dias, “A melhor parte do carrego é o atar da carrada: o mais está feito, o resto é quase nada!”, resta-nos encerrar esta incursão pelo nosso passado comum, no desejo expresso de não ter abusado da vossa paciência, como me parece vislumbrar na atenção como me ouviram os nossos convidados de Braga.

Ant. Gil Martins.JPG

Ora, como vimos na transcrição de "A Sertã e o seu Concelho", fica documentado, sem grande margem para erro, que o nosso homenageado de hoje é o legítimo herdeiro deste legado dos seus antepassados, apesar de não ostentar o nome Pedro, corre-lhe nas veias o seu sangue e fica evidente a razão desta incursão que fiz pelos nossos antepassados.

Pois bem, que Deus cubra de bênçãos este nosso Frei Vítor, e lhe conceda força para não vacilar na sua fé e no seu ministério, e dê saúde e vida a sua mãe, que, como me foi confidenciado, prometeu, em Fátima, quando celebrou o seu casamento, encaminhar à vida religiosa um filho que Deus lhe concedesse.

                                                                                               Gil  06/11/2021

 
NOTA: O teu texto é como pão para a boca, até porque a sequia que por aqui vai (pessoal e comunitária) está a agravar-se, não por falta de água, mas por medo do maligno, que nos prende ainda mais a casa.
Brevemente verás também um texto meu. Ir à infância é sempre como entrar em mina de boa água e fartas recordações. Olha, a minha ascendência também se liga à serra, onde pontifica a Isna de Oleiros, do Assis, do Armindo, do Alvarino, do Bernardino e não sei quem mais. AH

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