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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A luta contra o racismo

08.07.20 | asal
Meu caro Henriques
Em pleno estio , envolvidos na pestífera pandemia, cá vamos tentando sobreviver por estas bandas. Felizmente, ainda sem fogos. Um ambiente pouco propício, para trabalhos muito energéticos. Contudo, o livro sobre o seminário de S. José, embora muito lentamente, não pode parar. Das fraquezas temos de encontrar forças, para sairmos vencedores.
Como nos últimos dias me têm consolado a chegada de mais alguns testemunhos para o nosso Livro, o meu ânimo, assim mais fortalecido, fica sempre mais robusto.  Atrás destes, outros certamente irão chegando, ao longo do verão. Mãos à obra que conta com a participação generosa de todos os antigos alunos desta casa, onde vivemos a nossa juventude.
Aproveito ainda para te saudar, meu caro Henriques, pelos Quatro Anos que tens servido, tão generosamente e com tanta competência e afabilidade, o ponto de encontro das nossa Vidas - o ANIMUS SEMPER: Ad multos...Parabéns !!!
Num forte abraço, as minhas saudações.

Florentino2.jpgFlorentino Beirão

 

A revolta uniu os povos

O assassinato do negro George Floyd nos Estados Unidos da América em 25 de maio, sufocado por um polícia branco, é um daqueles dramas insuportáveis que fez reagir e vir para a rua, em muitos países, negros e brancos, irmanados e revoltados contra tão vil ação. De nada valeu a este jovem protestante negro, sentindo-se sufocado e com a morte a chegar, implorar ao seu algoz que o deixasse respirar. Não lhe concedendo o alívio solicitada, lentamente, acabou por morrer, por uma questão de lã caprina - uma nota falsa de 20 dólares.

Em plena pandemia global, este trágico acontecimento levantou mais uma vez a importante questão sobre a qual desde há muito se discute, relativa à problemática estrutural do racismo na América e no mundo, incluindo o nosso país. Nesta reflexão, não acompanhamos em absoluto a afirmação de Rui Rio, líder do PSD, quando afirmou a este propósito, que o povo português não é racista. Certamente esqueceu-se da morte de um estudante de Cabo Verde em Bragança, assassinado, recentemente por um grupo de jovens brancos e de 27 homens que acabam de ser acusados pelo Ministério Público por crimes de discriminação racial.

Se ainda tem dúvidas do racismo lusitano, lembramos-lhe que não só somos um povo racista, mas que a nossa história, desde o início dos descobrimentos, tem sido um povo com um passado marcado pelo racismo.

Lembramos que na Crónica da Guiné, escrita pelo cronista Gomes Eanes de Zurara (1410-1474), os escravos vinham embarcados de África para Lagos, e aqui, eram separados dos familiares, entre clamorosos gritos e choros, quando eram vendidos aos comerciantes de escravos e engrossavam os opulentos cofres do afortunado Infante D. Henrique. Não esquecendo o interminável comércio de escravos que era feito entre África, o Brasil, América do Norte e Europa, incluindo o nosso país, quando o comércio triangular funcionou em pleno, desde o séc. XV ao XIX. Durante este longo período negro da história esclavagista, próspero para a Europa, foram cerca de 12 milhões de negros que foram levados à força de África, embarcados em condições terrivelmente desumanas, para trabalharem noutros continentes, onde eram maltratados pelos seus donos. Negócio que fez muitos milionários capitalistas que, por estes feitos, até foram merecendo estátuas públicas, nas praças das grandes cidades. É destes negociantes-capitalistas que, nas últimas semanas, muito se tem falado. Radicais anti-racistas, em ações violentas, têm vandalizado e lançado às águas as suas estátuas. Até a do jesuíta P. António Vieira, o maior mestre em prosa da nossa língua, sofreu em Lisboa um ato de vandalismo, fruto da forma estúpida e ignorante de não se conhecer o passado da nossa história. Recordemos ainda, mais recentemente, as populações negras trazidas à força do sul de Angola no séc. XX, para as plantações das grandes quintas dos fazendeiros do norte.

Como se sabe hoje, as revoltas destas populações, contra o governo português e donos dessas fazendas, encontram-se ligadas ao início das guerras coloniais, onde ocorreram indiscritíveis crimes de uma parte e de outra.

Lembramos ainda casos recentes, ocorridos nos bairros pobres e degradados de Lisboa, onde os confrontos entre as forças policiais e os negros se sucedem com alguma frequência.

Mas afinal, o que vem a ser o racismo? Segundo a Enciclopédia Universal, “é a valorização generalizada e definitiva, de diferenças reais ou imaginárias, para proveito do abusador e para detrimento da sua vítima, a fim de justificar os seus privilégios e a sua agressão”, “Público” 11.06.2020). Segundo esta definição podemos concluir que existe racismo desde que povos foram colonizados e dominados por outros. Sobretudo, pelas potências europeias que têm as mãos manchadas de sangue inocente, derramado pelas sevícias flageladoras, que durante muitos séculos foram impostas às populações africanas

Quanto a nós, há diversas razões para sermos um povo racista. Entre elas, o desconhecimento do contexto histórico em que a escravatura ocorreu. Uma outra, a falta de debate, desapaixonado e racional, sobre esta problemática.

Tendo todos nós algo de racista, devemos assumir que podemos manifestar estas atitudes que se foram entranhando em nós, pela socialização e pela cultura.

Não basta pintar ou derrubar estátuas de colonialistas ou esclavagistas para acabarmos com racismo. Dentro de nós, ele existe, à espera que o derrubemos, pelo nosso conhecimento e pela forma humanista de conviver com o outro.

florentinobeirao@hotmail.com

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