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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A idade das Selfies

03.09.19 | asal

Mais uma conversa oportuna do Mário, sempre em busca da explicação do universo, da sociedade ou de nós! AH

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É impressionante a omnipresença das selfies. Isto prova que Portugal tem um presidente que cavalga a crista da onda. Todos já ouviram falar de pessoas que tiveram acidentes graves ou morreram ao arriscar fazer selfies.

O que me incomoda quando viajo e visito museus, catedrais, castelos ou outros lugares de interesse não são a azáfama, as paragens, os encontrões por causa das selfies. Incomoda-me o que não se vê – a desvalorização do que é valioso e justifica a visita. A impressão que me fica é que as pessoas pensam que a os objectos valiosos só existem porque «eu mostro que estive lá».

Não é importante apreciar as paisagens, as obras de arte, mas os outros verem que eu estive lá. Eu é que sou o centro. Antigamente dizia-se de certos comportamentos: passou por lá como cão por vinha dizimada. ninguém pára para apreciar ou colher uvas depois de a vinha estar dizimada. Não é aqui o caso, pois, as pessoas passam a correr para fazer as suas selfies, mas sem tempo para observar, pensar, apreciar. O prazer de estar perante o original -- momentos únicos -- de uma peça ou quadro mundialmente reconhecidos não tem qualquer valor. É doloroso deparar com mais pessoas de costas viradas para as obras de arte a fazer selfies do que a olhar para ela.

Às vezes chego a pensar, ao observar o comportamento dos orientais que vaijam pela Europa e filmam tudo, se eles não dormirão com a máquina na boca para não perder a oportunidade de filmar o tecto.

Como chegamos aqui?

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• Será necessário procurar os rastos no Renascimento e a inauguração da Filosofia Moderna com Descartes. O fundamento de tudo é o «Cogito», isto é, a única certeza indubitável que resiste a toda a dúvida: a autoconsciência do eu pensante.
• Seguir o caminho das Filosofias da consciência ou egóides.
• Verificar as consequências da proclamação de Nietzsche: não há factos, só interpretações. A substituição da verdade pelas perspectivas e interpretações individuais conduz à desvalorização da racionalidade e da objectividade.
• A pós-modernidade ao proclamar a morte das meta-narrativas acelerou o processo.
• A adopção do subjectivismo permite o salto para o narcisismo e este a necessidade de mostrar e publicitar o eu e as suas viagens e aventuras.
Mário Pissarra