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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A globalização do medo (3)

02.05.20 | asal
Meu caro António
Aí te envio mais uma discreta colaboração para o nosso querido Animus, nosso fiel Amigo nestes dias de retiro forçado nas nossas cabanas de viajantes peregrinos do Além, onde já não haverá pandemias.
Regresso ao tema para tentar revelar outros aspectos interessantes de como os nossos antepassados ainda terão sofrido muito mais do que nós. Com revolta ou confortados com a sua Fé. Seja como tenha sido, temos que viver o melhor que nos for possível, nos tempos que nos são dados viver. Cuidemo-nos porque o Bem será para todos.
Com um forte e alongado abraço neste dia de profundo significado. Até sempre.

Florentino2.jpgFlorentino Beirão

Nota: Obrigado, Florentino, pela tua ativa colaboração. Quem mais ajuda? AH
 

Cuidar dos enfermos

A nível mundial, continuamos a viver num contexto em que o medo e a ansiedade envolvem todo o planeta, sem ainda se vislumbrar, como será o dia de amanhã. Países pobres e ricos vivem mergulhados na mesma perplexidade, a verem crescer os infetados e os milhares de mortos, devido ao coronavírus. Os habituais cemitérios, em vários países, já rebentaram pelas costuras, dando lugar à abertura de valas comuns. Quando alguém morre, nem sequer as famílias conseguem fazer a cerimónia do tradicional luto, ficando retidos às portas dos cemitérios. Nos lares e nos hospitais, como as visitas são interditas aos familiares e amigos, muitos utentes e doentes chegam a considerar-se esquecidos ou desprezados.  

Como sabemos, ao longo da história, sempre existiram pandemias e doenças, mais ou menos mortíferas. Umas mais virulentas e prolongadas do que outras.

Desta vez, o causador da desconstrução do complexo mundo em que vivemos foi o novo e polémico coronavírus (SARS-CoV -2). Como consta, terá surgido em dezembro de 2019 na cidade chinesa de Wuhan. E em três meses, foi-se espalhando pelo globo, levando a Organização Mundial de Saíde (OMS) a classificar a covid-19, como uma pandemia, em 11 de março de 2020. As respostas a este violento vírus têm sido muito diversas. Países houve que tomaram medidas mais rápidas e certeiras do que outros. Entre os mais lentos e desastrados, encontra-se a América do Norte e o Brasil, com efeitos bem desastrosos.

Quanto ao nosso país, foi dos que mais rápido travou este combate, decretando e renovando o estado de emergência, com o confinamento. Uma acertada medida dado que os nossos hospitais não se encontravam preparados para poderem dar uma resposta rápida e adequada a tantos doentes infetados. Por esta razão, teve de se recorrer a hospitais de campanha e suspender consultas e cirurgias no Serviço Nacional de Saúde (SNS).

Ontem como hoje, a sociedade sempre se organizou para dar resposta aos casos de doenças e epidemias que surgiram, nomeadamente na Idade-Média, tendo também ocorrido várias no nosso país.  

Vejamos então quais as respostas encontradas neste período da nossa história, para se fazer face a algumas doenças ou epidemias.

Neste período da nossa história, como se vivia em contexto de cristandade, era natural que a Igreja, presente em toda a parte, protagonizasse a resposta mais adequada e possível, à comunidade enferma. Como se exigiam avultados bens, para se cuidar dos pobres e dos enfermos, o clero incidia a sua pregação em despertar nos ricos a virtude da caridade, oferecendo bens celestes em troca. Deste modo, se procurava garantir a salvação eterna aos benfeitores.

Foi neste contexto religioso que surgiram as Misericórdias em Portugal em 1498, por iniciativa da rainha D. Leonor, no reinado de D. João II. Estas tinham como finalidade, cumprir as 14 Obras de Misericórdia: sete espirituais e sete corporais. Recordemos estas últimas: cuidar dos enfermos, remir os cativos, visitar os presos, vestir os nus, dar de comer a quem tem fome e de beber a quem tem sede, dar abrigo aos peregrinos e enterrar os mortos.

Os fiéis eram assim chamados a cuidar dos mais necessitados, os mais frágeis da sociedade. Esta preocupação já se vinha desenvolvendo na Europa, desde os séculos XI e XII, com o aumento do número de pobres que vinham do campo para a cidade, a crescer para fora dos seus muros.

O dar esmola aos pobres, e fazer-se testamento a favor das instituições de caridade da Igreja, fazia parte do conjunto das boas obras recomendadas. Neste período da história, os ricos cuidavam dos seus pobres, a quem ofereciam refeições de pão, água, vinho, carne ou peixe.

Sabe-se ainda que aos doentes, no séc. XIV, na Peste Negra , era -lhes dado uma sopa de canja ou carne de frango, de mais fácil digestão.

Segundo a medievalista Ana Rita, houve até um casal rico de Coimbra que, no período da desta peste, fez doação de sete marcos de prata para um cálice, exclusivo para dar a comunhão aos enfermos. Os doentes desta peste já puderam contar com as instituições de assistência da Igreja que se foram expandindo, desde o séc. XII, proporcionando-lhes alguns cuidados médicos, abrigo, agasalho e alimentação. Felizmente, já muito se evoluiu no cuidar dos enfermos, um imperativo humano de todos os tempos. Cuidemo-nos.

florentinobeirao@hotmail.com