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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A globalização do medo (2)

16.04.20 | asal
Meu Caro Henriques
Embora confinados, cá vamos teclando, para aproveitar o tempo abundante que nos é dado viver, envolvidos nesta maléfica pandemia.
Aí te envio um artigo que procurar reflectir sobre esta situação pandémica. Vamos tentando vencer estes momentos, algo dolosos, para a humanidade que geme a dor do parto, na esperança de melhores dias, radiantes de um mundo outro.
Com um forte abraço solidário para ti e para os que nos acompanham...ANIMUS SEMPER a todos que estão connosco. Cuidemo-nos, cuidando.
Florentino Beirão

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Visões sobre epidemias

Na semana em que aqui escrevemos, sobre o covid.19, tentámos dar uma breve visão histórica de epidemias que assolaram a humanidade, ao longo dos séculos. Face aos dados recolhidos, concluímos que os múltiplos fenómenos epidemiológicos dizimaram milhões de vidas humanas. Mais ou menos derrotado, o ser humano lá foi sobrevivendo às múltiplas calamidades. Desta vez, face a esta nova e violenta pandemia, também confiamos que em breve nos iremos libertar desta situação que nos tem mantido confinados em casa, há quatro longas semanas.

Hoje, vamos apresentar algumas das reações dos nossos antepassados, face às epidemias com que se tiveram de confrontar, em situações semelhantes à nossa.

O grupo dos mais fanáticos estava convencido de que se tratava de um merecido castigo de Deus, devido aos pecados da humanidade. É o que se poderá concluir de uma passagem do Antigo Testamento, onde se narra a destruição de Sodoma e Gomorra, devido aos pecados dos seus imorais habitantes. Semelhante interpretação foi pregada após o terramoto de Lisboa em 1755. Uma visão que já então foi severamente condenada por Voltaire, como sendo uma interpretação supersticiosa deste acontecimento. Embora, ainda possa haver alguns adeptos a pensar o mesmo, julgamos que, para a maioria das pessoas, esta já não será aceite.

Seja como for, tentemos analisar desta vez como têm sido compreendidos os fenómenos naturais das epidemias, que desde o séc. XIV ao XVIII, foram atingindo os nossos antepassados.

Uma das mais documentadas foi a “Peste Negra”, ocorrida entre 1347 - 1352. Estima-se que ao longo dos anos, tenha dizimado entre um terço e metade da população da Europa. As consequências demográficas, económicas e sociais desta “pestenença” acabaram por ter profundas repercussões durante os dois séculos seguintes, ficando uma grande parte da Europa paralisada, a partir de 1348.

Tempos depois, outros surtos se seguiram. Assim em 1481com D. João II, e em 1521 com D. Manuel, regressariam novas epidemias, atingindo sobretudo Lisboa. Nesta altura, já os reis se queixavam dos atrasos que havia no combate às epidemias. Para que não se propagassem rapidamente, quando morria alguém, a habitação e os móveis do falecido eram lavados, com vinagre e perfumados, com o cheiro de alecrim. Como medida profilática, D. Manuel chegou mesmo a mandar encerrar as escolas do reino, “onde os moços aprendiam a ler e a escrever.

Outra das medidas tomadas foi proibir ajuntamentos, excetuando procissões e missas em honra de São Sebastião, protetor contra as doenças e as epidemias. Segundo a historiadora Rita Sampaio, as cerimónias dedicadas a este Santo eram essenciais “para garantir a intervenção divina na dissipação da doença e para expiar os pecados que tinham sido a causa original da epidemia”. O rei D. Manuel em 1506 chegou mesmo a ordenar a evacuação de Lisboa e a mandar construir “casas de pestíferos”, cemitérios e valas comuns fora do castelo de Lisboa, para receber os doentes e os mortos desta peste. Aos escravos falecidos eram-lhes destinados poços profundos, cobertos de cal.

Como se desconhecia a origem das pestes, tentava-se encontrar um responsável. Deste modo, em 1506, foram os cristãos - novos (judeus convertidos) que carregaram com as culpas. Por tal acusação, as suas habitações foram saqueadas e os seus haveres roubados.

Na tradição da igreja do nosso país, para os fiéis lidarem com as epidemias, encontramos santos a quem se recorria. No período que abordámos, encontramos São Sebastião e São Roque, como os maiores protetores. Não é por acaso, que o dia de S. Sebastião, em 20 de janeiro, era celebrado como Dia Santo e, na maioria das povoações da Beira Baixa, encontramos muitas capelas dedicadas a este santo. Como sabemos, ainda hoje nesta região se fazem festas em honra de S. Sebastião, com os seculares bodos, oferecidos à população. As suas raízes mergulham nos tempos em que as epidemias desta região resultavam das fomes e das pestes, de pragas de gafanhotos, oriundos de Espanha.

Quanto à devoção a S. Roque, foi muito acarinhada pelos jesuítas a partir de Lisboa, onde se encontra a sua artística Igreja, junto à Misericórdia.

Aqui deixamos uma oração popular desses tempos: “Bem-aventurados S. Sebastião e S. Roque intercedei por nós a Nosso Senhor Jesus Cristo, para que sejamos livres de toda a epidemia e doenças contagiosas e de toda a moléstia do corpo e da alma”.

florentinobeirao@hotmail.com

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