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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Aniversários

21.06.22 | asal

São dois os aniversariantes de hoje.

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Está de festa o meu colega Carlos Diogo, um Sr. professor a viver em Mação e que não falta aos nossos Encontros. Aqui está ele com a esposa a saborear o rico almoço do encontro de Castelo Branco.

Fazes agora 82 anos, sempre a alcançar-me na meta, mas dentro de pouco tempo eu volto a ultrapassar-te.

Acho que posso dizer que tens sido um sortudo, com saúde e muita felicidade. E cá estamos nós a dar-te os PARABÉNS pela vida e a desejar-te ainda muita saúde e alegria por longos anos. Sê feliz...

 

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Também hoje faz anos o Tiago Xavier, um jovem de 37 anos, de Castelo Branco e a viver em Ponta Delgada, Açores. A foto é que não é de Castelo Branco...

Engenheiro mecânico de profissão, aqui está esta cara linda, a quem damos PARABÉNS no seu aniversário. Deixamos um abraço e votos de muita felicidade e saúde. Um dia temos de te encontrar...

Em busca de ar

20.06.22 | asal

Ontem, deu-nos para sair de casa em busca de ar... Arejar não é bem isso, mas expor ao ar e expor-se ao ar, ventilar, ou mesmo espairecer ou ainda tomar ar são sinónimos que a língua usa para deixar asombrados os amigos ingleses, eles mais pobres em sinónimos...

Pronto, saimos para mudar de hábitos, já cansados de tanta monotonia, insipidez, fastio, tédio ou ainda "invariedade" - para inventar uma nova palavra... Pelo meio, meteu-se ainda em casa um ar vírico, que nos obrigou a ficar retidos durante sete dias!

Derivámos para sul, como fazem as crianças quando se perdem na praia. Parece que o sol (voltado a sul) tem um especial poder de atração sobre os corpos. No nosso caso, o "leitmotiv" (vá lá, escreve português e diz antes "razão", "motivo"!) foi talvez uma foto antiga de que me lembrei - estava sentado no alto de um morro, com um cigarro na mão, a olhar à distância e muito bem acompanhado! Pudera, passaram 45 anos e nunca mais este par de namorados tinha voltado àquele morro, sobranceiro a Setúbal, de que se desfrutam vistas sem fim...  

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Sim, é a Fortaleza de S. Filipe, que procurámos ao entrar na cidade pela estrada antiga e com os letreiros a encaminhar-nos até quase ao final da Avenida Luísa Todi, iniciando aí uma subida fácil até lá em cima, onde fomos encontrar um bom parque de estacionamento (sem vigilante, por isso não deixe valores à vista!...). Nesse parque vi um cedro (pode ser que o Alcino fique satisfeito com este!), mas o importante começava agora. Como namorados, subimos aquela longa escadaria, caminhada feita sem esforço e com tempo para foto. E logo aí, a primeira grande surpresa - uma capela toda emoldurada de azulejos do séc. XVIII. Chegámos então ao topo, construções militares que só vimos de relance, pois o mais importante era regalar os olhos com as lonjuras que se estendem em todos os sentidos. Realmente, isto é mesmo para parar... O encanto da tarde, o sol com nuvens a criar um quadro de pintor naturalista, até o casario de Setúbal ganha cor. Mas são as distâncias que mais me prendem, aquele espraiar do rio Sado sem fim ou os verdes perturbantes da península de Tróia, desde o início (antes era a Torralta!) até à Comporta e ainda depois aquela língua de areia curva a bordejar o mar sereno.

Ó Zé, não consegui lobrigar a tua casa, escondida pelo arvoredo. E, na cidade, também não vi as casas do João ou do Antunes Dias, que cada vez sinto mais longe, pois a idade não perdoa. Mas as zonas de pesca, os contentores sem fim ou, lá longe, a Setenave sugerem uma atividade dinâmica muito voltada para o mar.

O bar serviu às maravilhas para, sentados, degustarmos o lanche. Que mais eu quero para sentir que esta tarde foi mesmo especial?!  O resto que o digam as fotos...

António Henriques

Aniversário

18.06.22 | asal

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É hoje o aniversário do Eurico P. Grilo, nascido em 18-06-60. Trabalha como jurista na Câmara Municipal de Lisboa na gestão de recursos humanos. Já o vimos nos jantares de Natal em Castelo Branco e contamos com ele também nos almoços da capital. Porque não?

PARABÉNS, caro amigo, por mais uma primavera, com votos de longa e feliz existência.

Palavra do Sr. Bispo

17.06.22 | asal
AMIGOS QUE VALE A PENA TER E COM ELES CONVIVER

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Toda a gente gosta de ter amigos, muito mais os adolescentes e os jovens. No entanto, se se diz que quem tem um amigo tem um tesouro, é porque eles não andam por aí aos molhos, são raros. Há muita gente conhecida, é verdade, mas amigos amigos....
No dia 21 deste mês de junho, muita gente recorda uma dessas pessoas que muitos jovens e estudantes têm em grande apreço pela ajuda que ela lhes dá pelos caminhos da vida. É uma presença que anima, protege, conforta, estimula, tranquiliza. Quer o leitor saber de quem se trata?... A quem está a patinhar em certos debates, o moderador, impaciente, manifesta-lhe pressa em saber o que realmente interessa para passar à frente. O patinhador, continuando com o seu paleio inútil e sem esclarecer o que é perguntado, costuma afirmar: “lá chegaremos, já lá chegaremos!”... Constata-se, porém, que nunca ou raramente lá chega. Mas eu vou chegar, não estou a patinhar!
Como sabemos, a amizade ajuda à construção da identidade e à definição de valores, ideias e opiniões sobre si próprio, sobre os outros e o mundo, é capaz de rasgar autoestradas para as viagens da vida. Além disso, se em momentos mais complicados se pode contar com a lealdade, a ajuda e a confiança dos amigos, também se conta com eles para conversar, conviver, divertir e partilhar momentos felizes. Embora a traição dos amigos possa doer muito, há amigos que são extremamente leais, nunca falham. Antes de mais, porém, chamo a atenção para o Amigo por excelência. Ele é amigo de todos como se cada um fosse o único, não faz acessão de pessoas, não considera ninguém como número, a todos trata como amigos e a todos chama pelo nome, conhece muito melhor cada um deles do que cada um deles a si próprio, sempre estende a sua mão amiga e não falha, até deu a vida por cada um: é Jesus. Como amigo sincero em busca da nossa amizade, segredou-nos tudo quanto era possível acerca do seu Pai para que a sua alegria estivesse em nós e a nossa alegria fosse completa. E se Ele permanece firmemente fiel, também nos deu um critério para que possamos avaliar a nossa lealdade para com Ele. Disse-nos que seríamos seus amigos se nos amássemos uns aos outros como Ele nos amou.
Frequentemente acontece que os amigos dos nossos amigos se tornam amigos comuns. Ora, os melhores amigos de Jesus são aqueles que aceitaram a sua amizade, a partilharam com Ele e os outros e hoje se encontram no gozo da felicidade eterna. A esses lhes vamos fazendo o cerco para que também sejam nossos amigos. Assim, referimo-nos aos santos como se de pessoas de família se tratasse, contamos com a sua amizade, oração e proteção junto de Deus. É certo que a primeira pessoa que reza por nós é o próprio Jesus que pediu ao Pai que todos fossemos um como Ele e o Pai são um. O que sustenta cada um de nós na vida "é a oração de Jesus por cada um de nós, diante do Pai, mostrando-lhe as feridas que são o preço da nossa salvação", afirmou o Papa Francisco. Mas também o Espírito Santo nos ajuda na nossa fraqueza, Ele próprio intercede por nós (cf. Rom 8, 26-27).
E os santos? Como se traduz a sua amizade para connosco? Os santos “não cessam de interceder em nosso favor, diante do Pai, fazendo com que a nossa fraqueza seja assim grandemente ajudada pela sua solicitude fraterna” (LG49). Esta nossa união com aqueles que adormeceram na paz de Cristo, não se interrompe, antes pelo contrário, é reforçada pela comunicação dos bens espirituais. E embora saibamos que todos os bens espirituais nos veem de Deus por meio de Cristo, todos gostamos de ter estes santos amigos a quem tantas vezes pedimos que se associem a nós, fazendo valer as nossas orações junto de Deus. E eles não regateiam isso. São Domingos, por exemplo, já moribundo, dizia aos seus confrades: “Não choreis, que eu vos serei mais útil depois da morte e vos ajudarei mais eficazmente que durante a vida”. E Santa Teresa do Menino Jesus afirmava: “Quero passar o meu céu a fazer o bem sobre a terra” (CIgC956).
Estes nossos amigos, porém, os santos, não usam a lógica que muita gente usa neste mundo. Eles não servem para meter uma ‘cunha’ a Deus para que Deus nos deixe entrar pela porta do lado, a porta dos interesses e do egoísmo. A lógica deles é outra, eles intercedem por nós e ajudam-nos quando nós queremos ser ajudados a aceitar os critérios da verdadeira amizade para com Jesus, a amizade que Ele nos tem e nos apontou. Assim, quando, por exemplo, falamos em Padroeiro ou Padroeira falamos de um Anjo, de Nossa Senhora ou de um santo ou santa, alguém que está junto de Deus e, por vários motivos e nossa devoção, é declarado ou considerado como nosso protetor e defensor junto de Deus. Ao longo da história, houve muita gente que marcou a diferença e hoje é apresentada como estímulo para todos.
Luís Gonzaga é um deles. Foi o primeiro de sete irmãos de uma família nobre e influente do norte de Itália. Seu pai traçara para ele um projeto de vida militar no qual o iniciou em tenra idade. Dada a sua condição social, Luís frequentava os ambientes ricos e aristocráticos da nobreza italiana. Nas pisadas que dava e nos serviços que ia prestando, inclusive como pajem do filho de Filipe II de Espanha, surpreendia sempre. O seu pensamento e maneira de estar e agir prendiam-se sempre com o saber se isso lhe serviria de alguma coisa para ser verdadeiramente feliz, neste mundo e no outro. Depois de algumas teimas consigo mesmo sobre qual o caminho a seguir, depois de séria reflexão, oração e ajuda de outros ao seu discernimento, foi determinado. Sendo, como filho mais velho, o príncipe herdeiro dos títulos e funções importantes de seu pai, a tudo renunciou e decidiu ingressar na Ordem dos Jesuítas. A sua determinação causou surpresa geral. O pai sentiu que todos os planos que tinha traçado para ele fracassaram, ficou de mau humor, tentou dissuadi-lo, mas foi impossível, ele queria ser padre: “É nisso que penso noite e dia”, disse ele ao pai. A doença, porém, deu vida curta a Luís Gonzaga, foi contagiado na sua constante dedicação aos doentes do tifo, vindo a falecer no dia 21 de junho de 1591. Os seus restos mortais encontram-se na Igreja de Santo Inácio, fundador da ordem Jesuíta, em Roma. Foi beatificado catorze anos após a morte. Mais tarde foi canonizado por Bento XIII e declarado padroeiro dos jovens e estudantes. No século passado, Pio XI declarou-o padroeiro de toda a juventude cristã.
Felizes os jovens que encontram na vida uns amigos de carne e osso, uns ‘santos de ao pé da porta’ que os ajudem a crescer e a discernir o caminho certo nas encruzilhadas existenciais. Mas felizes também aqueles que gostam de ter na roda dos seus amigos os santos que já viveram as turbulências deste mundo e continuamente intercedem por nós, sendo luz e incentivo nos caminhos da vida. Conhecer o currículo de cada um é um desafio sempre enriquecedor e estimulante.
Antonino Dias
Portalegre-Castelo Branco, 17-06-2022.

Mais uma história

17.06.22 | asal

Olá António! Já que estamos em maré de histórias, aqui vai um relato de uma das minhas vivências recentes. Não sei se tem algum interesse para publicar no nosso blogue. Um abraço do Alcino Alves

Dendrofobia 

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Medrava no quintal da minha vizinha um imponente e lindíssimo cedro. Fora plantado em 1982, por ocasião de uma campanha de reflorestação de terrenos de pinhais ardidos, cujas novas árvores, doadas pelo Governo, ficaram conhecidas por “pinheiros do Balsemão”, alusão à iniciativa do primeiro-ministro de então.

Por várias vezes a vizinha – a D. Deolinda – exprimiu vontade de abater aquela árvore com receio de que ela viesse a cair, causando estragos na vizinhança, eventualidade pouco provável já que o pinheiro, como ela lhe chamava, tinha um aspeto bastante saudável e estava bem enraizado, considerando o tipo de solo em que se encontrava implantado. Sempre que ela aludia à sua intenção e eu lhe pedia que não cortasse a bonita árvore, ficava muito admirada porque, na opinião dela, os vizinhos nunca gostam de árvores nos quintais ao lado, por lhes fazerem sombra ou lhes sugarem os nutrientes. Não era o caso e nunca acreditei que o abate se viesse a concretizar.

Um dia destes, manhã bem cedo, ouvi o roncar de motosserras no quintal da D. Deolinda. Fiquei alarmado e fui de imediato ver o que se passava. Lá estavam dois carrascos empoleirados no magnífico cedro, num frenesim diabólico, a derrubar pernadas e ramos e a preparar o corte do eixo central.

Interroguei o Gabriel, filho da vizinha, que assistia imperturbável ao medonho espetáculo. Insensível, respondeu, laconicamente, que era esse o desejo da mãe.

Impotente, depois de manifestar o meu grande desgosto por tal ação, regressei a casa.

Ao fim da tarde, no amplo relvado do jardim, que mais parecia um teatro de operações de uma terrível batalha campal, jaziam os restos do que tinha sido um maravilhoso ser vivo. Como se isto não bastasse, fui dar com os obreiros e vizinhos a piquenicar em alegre contubérnio, como que a festejar o acontecimento.

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No dia seguinte, fui abordado pela D. Deolinda, que me perguntou com ar sorridente: “Então, vizinho, não acha que o quintal agora está mais alegre?” Era o cúmulo da insensibilidade pelas coisas belas da Natureza! Limitei-me a responder: “Acho que agora está mais triste. É pena que a paisagem tenha sido mutilada desta forma infame”.

Alcino Alves

NOTA: Alcino, mas este, o da foto, ainda cresce na minha rua!!!

Uma carta - uma sugestão

17.06.22 | asal

António, bom dia. 

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No dia 14 de junho, encontrei num restaurante em Castelo Branco quatro antigos alunos dos Seminários da Guarda. Estavam em conjunto a redigir um texto para pedirem a reserva e garantirem um espaço no Seminário do Fundão, como sede da sua Associação.  
Segundo percebi, a Diocese da Guarda cedeu à Câmara Municipal do Fundão por 25 anos o uso daquele Seminário. Antes que isso se consuma, fazem este pedido. Achei interessante a iniciativa e a sua motivação. Fizemos uma foto de circunstância, que aqui envio. Se achares bem, podes publicar.
Manuel Mendonça 

Memórias da Jamaica

17.06.22 | asal

As memórias do Mário Pissarra provocaram-me. Aqui vão estas letras... Prometi ao Florentino escrever sobre os ciganos, na sequência do seu texto de Maio e cumpri agora a promessa. AH 

A minha Jamaica

Cada um tem a sua visão do bairro da Jamaica, no Fogueteiro, que andou a circular nos jornais e televisões pelas razões mais enviesadas, ao gosto dos interesses políticos.

Na minha história, também este bairro consta, embora fosse mais conhecido como o Vale de Chícharos. Por lá passei muitas vezes, por lá me quedei em conversa com as suas gentes, muitos imigrantes de São Tomé e Príncipe, gente boa, e ainda algumas famílias ciganas. Estávamos nos últimos anos do milénio anterior e uma associação de nome CEFEM - Centro Europeu de Formação e Estudo das Migrações – porfiava em olhar para aqueles fenómenos sociais, ao gosto da Congregação Scalabriniana, que tinha tomado conta da paróquia de Amora.

A verdade é que a mesma associação ia mudando de foco e de abordagem, de acordo com os seus responsáveis. De objeto de estudo e reflexão, de âmbito universitário, passou a centro de ação social quando o P. António Bortolomai (na foto) tomou conta dele. E foi nesse tempo que eu também fui arrastado para a direção da associação, sem saber das tensões internas entre os clérigos que viviam no Seminário. Nestas circunstâncias, manda quem pode e o CEFEM foi atirado para fora dos belos espaços de que dispunha, tendo de procurar casa, que a Fundação Estrada nos outorgou durante algum tempo em Belverde.

E o que é que nós fazíamos? Os voluntários da associação tinham em vista a integração social e o desenvolvimento cultural daquelas gentes, que viviam em prédios abandonados de paredes nuas, sem portas nem janelas, que cada família ia ajeitando ao seu gosto e saber, à falta de uma habitação digna.

Faziam-se cursos práticos de trabalhos domésticos para as africanas poderem servir como empregadas, elas que não conheciam os aparelhos, os produtos e os costumes das nossas casas. Ou concorríamos a cursos oficiais, pagos pela Segurança Social, para que alunos africanos e ciganos ganhassem competências profissionais – cozinheiros, empregados de mesa, pintores, eu sei lá… Horas e horas seguidas de contacto e convivência entre nós e eles e entre eles próprios, uns com os outros, com pensar e modos de viver bem diferentes, talvez tenham ajudado na evolução de muitos.

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Acrescente-se a envolvência religiosa, sobretudo para os africanos, que os ciganos tinham a sua “Igreja de Filadélfia” e alguns até chegaram a «pastores» (sentia-se mudança de comportamentos, sim senhor!). Eu próprio dava catequese num contentor colocado no Vale de Chícharos pela Câmara do Seixal. E havia missa mensal naqueles espaços maltratados, com o apoio de um cafezinho do bairro. Até o Sr. Bispo lá foi celebrar um dia e provar a cachupa que os habitantes prepararam para a festa.

Durante anos, fomos assistindo à alteração das condições de vida de muitos, construíram-se prédios de habitação social ali bem perto da Jamaica, onde ainda hoje vivem os nossos antigos “alunos”, já em casas aceitáveis, sempre assistidos pelo Banco Alimentar contra a Fome, outro serviço que o CEFEM propiciava a dezenas de famílias.

Mas o curso que mais marcou esta etapa do CEFEM foi o de “Mediadores socioculturais” (1999?), que para alguns ciganos foi a base de crescimento social, tornando-se eles intermediários entre a população e os serviços públicos, facilitando as relações, promovendo a proximidade e a compreensão dos próprios serviços, a começar pela escola. Estes mediadores foram assumidos por algumas câmaras, aproximando e explicando diferenças culturais e dando a conhecer as riquezas de cada um. Lembro que podem consultar no Google "Olga Mariano", uma nossa aluna que conseguiu tirar uma licenciatura, ela uma das criadoras da AMUCIP e das LETRAS NÓMADAS.

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Para terminar, lembro ainda uma realização festiva no Pavilhão da Quinta da Princesa (outro bairro habitado sobretudo pelas etnias africana e cigana), na presença da ministra da Saúde de então, a Dr.ª Maria de Belém Roseira, em que se conseguiu apresentar uma dança com africanas vestidas de ciganas e vice-versa, sinal de aproximação e não sinal de fusão ou confusão entre mentalidades. As fotos são dessa festa.

As mentalidades demoram a evoluir. E eu desse tempo lembro o baixo nível cultural de alguns “alunos” (pais de família que não sabiam ver as horas no relógio ou enumerar por ordem os meses do ano!) ou a sua fraca perceção das regras sociais…

Eu sei lá, fiquei desses anos com alguma simpatia por esta gente…

António Henriques

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Aniversário

17.06.22 | asal

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Faz hoje 66 anos o José do Carmo. Segundo a sua página do Facebook, é natural de Mação e vive no Sardoal.  Profissionalmente, está ligado ao Ministério da Educação como professor, se é que não se encontra já em pleno gozo da sua jubilação.Aqui ficam os PARABÉNS sinceros dos teus antigos colegas de Seminário, com votos de muita saúde e felicidade. Quando nos encontramos?

Memórias soltas

16.06.22 | asal
A memória é realmente um baú de riquezas. Obrigado, Mário, e que outros imitem! AH
 
O Zé do caldo

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Ontem, ao folhear um velho livro, deparei com um bilhete dos transportes públicos a servir de marcador. Um velho hábito de estudante no Porto, na década de 60/70 do século passado. Olhei melhor para o bilhete e verifiquei que havia algo manuscrito: «sopa = caldo; Zé do caldo.»
Nada de novo, pois sempre tive o hábito de tomar notas no que tinha à mão. O mais comum era a carteira de fósforos quando fumava. Muitas ideias e esquemas de aulas foram alinhavadas nesse papel sempre disponível. Algumas mereceram, depois, registo mais digno, mas a maioria obedeceu à então nascente lei: use e deite fora!
Encontrar bilhetes destes não é, pois, surpreendente quando folheio livros antigos. Como neste caso, são, frequentemente, motivo de risos. Foi o caso. A história do Zé do Caldo é curta e simples.
Um belo dia chegou ao Liceu de Abrantes um novo professor de Filosofia, poeta e homem de teatro, natural das Sentieiras. Ao longo da conversa disse-lhe que era da Idanha. Falou-me das suas visitas à vila e das suas impressões, bem como da ligação recente através de uma afilhada.
Depois contou-me a história do Zé do caldo. Este meu grande amigo estudou nos seminários dos Dominicanos. O Zé do Caldo foi seu condiscípulo. Nomeou-o pelo nome e eu reconheci-o de imediato. Era mais velho do que eu, os pais viviam para o Sol Posto, como a minha avó sempre lhe chamou, mas naquela época passaram a chamar-lhe Vale Verde. Cousa estranha. Nem vale nem verde. Só barrocos e penedos.
Foi assim. O Zé, ao chegar ao seminário, no refeitório, quando queria pedir a terrina da sopa, dizia: «passa-me aí o caldo!». A cena repetiu-se e ele, que até se chama Zé, ficou conhecido pelo «Zé do caldo». Achei piada à história e pensei com os meus botões: isto também podia ter acontecido comigo. Agora, quando os meus antigos colegas se referissem a mim, em vez de ser Mário Pissarra seria o Mário do caldo. Efetivamente, nos meios rurais e nas famílias pobres não se comia sopa, mas caldo. Era caldo de feijão, de couves, de vagens, de grão, etc. Esse caldo era enriquecido com muitos ingredientes, normalmente os disponíveis, e coziam-se ainda os enchidos e o toucinho. Davam cheiro e sabor, além de poupar no azeite. Estes ingredientes,  com o queijo, as azeitonas, o presunto e as sardinhas, faziam parte do conduto para a merenda do dia seguinte, pois as pessoas comiam a seco, isto é, sem colher, faca e garfo. Nos trabalhos rurais, pão, faca e a merenda e estava a refeição pronta. O caldo substancial seguia a ritmo das produções hortícolas. O Inverso era o ciclo das leguminosas: feijão e grão. A primavera era a mais rica em variedade de hortaliças. No verão, predominava a batata e, no outono, a couve. O caldo, além de ser a base da alimentação, ajudava a «encher», a esconder a fome e a enganar o estômago.
Um belo dia em França, aquando da primeira viagem do Orfeão de Abrantes a Noyon, conversando com um professor primário com muita tarimba nos meios rurais, ele me deu umas dicas que confirmavam as minhas suspeitas. A ocasião para o sucedido era a ementa num Collège – estabelecimento de ensino secundário. Da ementa constava "potage de". O nome escorregou pelos buracos, cada vez mais largos da memória. E nessa conversa explicou-me o que eu já sabia: potage era a sopa dos meios rurais, cujo nome deriva da panela (pote) que se tinha ao lume e em que se cozinhava. A sopa era um termo mais urbano. Um hábito de quem não gosta de dar trabalho aos dentes, começando por esmagar, até chegar o triturador. O próximo salto foi a liquidificação. Uma sopa mais bebível que comível.
Não só o caldo é desqualificado socialmente como motivo para ironias. Essa sopa que parece «argamassa», «entulho», «substancial», «grossa»... Sim, porque os finórios não comem caldo, mas sopa. O caldo é alimento para trolhas, labregos e campónios, indigno de estômagos citadinos e dentes mais preparados para coar que mastigar.
Houve no entanto uma exceção. Esta exceção deveu-se, por um lado, à ingenuidade de uma alegre moçoila, à retórica de um ardiloso frade e às suas artimanhas. O frade anunciou à rapariga que conseguia fazer uma boa sopa só com uma pedra e água. A rapariga incrédula trouxe a panela, e a água e colocou-a ao lume. O astuto frade, mestre na arte de encantar donzelas, foi pedindo vários ingredientes para juntar à água e à pedra. Fascinada pela conversa do frade ou talvez por qualquer outra razão adicional, a rapariga distraidamente foi respondendo às solicitações do poder mágico das palavras do conventual. Assim nasceu a sopa da pedra. Uma sopa que afinal é um caldo. Artimanha e sabedoria do frade, pois só o nome de sopa lhe garantiu a sobrevivência.
Os outros caldos tiveram de esperar pelos festivais das sopas, pela gastronomia e pela valorização dos saberes tradicionais.

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P.S.: não consegui confirmar se este sábio frade era da Ordem dos Pregadores ou dominicanos e do seminário que o meu amigo «Zé do caldo» frequentou antes de se tornar advogado.
Mário Pissarra

Aniversário

16.06.22 | asal

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Faz anos o José Custódio, nascido em 16 de Junho de 1952.

Pelo telefonema que lhe fiz, sabemos que esteve ligado ao Ministério da Educação, tendo trabalhado em escolas de Queluz e de Castelo Branco, onde hoje reside. Agora goza a sua aposentação com as mãos na agricultura, a criar vida a partir da terra. Queremos dar-lhe os PARABÉNS e desejar-lhe muitas felicidades. 

Aniversário

14.06.22 | asal

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Neste dia 14 de Junho, celebra o seu 72.º aniversário o Francisco Pedrógão Pousadas, natural de Alter do Chão e a viver em Lisboa, segundo diz o seu Facebook.

Queremos dar-lhe Parabéns, desejar-lhe um dia de anos muito feliz, na companhia de familiares e amigos. E votos de longa vida com saúde. Quando aparece, Francisco? 

Coisas da língua

13.06.22 | asal
 

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Caro António Henriques, aqui vai para o blogue mais um pequeno e modesto trabalho inserido na minha série  "COISAS DA LÍNGUA".
Como sabes, as minhas referências já aí publicadas foram: TROCADILHO, TAUTOLOGIA. ADÁGIOS, TRAVA-LÍNGUAS e PALÍNDROMOS. A de hoje, PARLENDAS, tem tão-só por fim lembrar os nossos tempos de escolaridade primária onde nos recreios serviam para o nosso entretenimento.
Para não aborrecer os nossos leitores, limitei-me à publicação de um reduzido número, mas vai servir para avivar a lembrança de cada um e irem à caixa das suas memórias buscar as que, em cada aldeia, se pronunciavam.
As que aqui descrevo podem não ser exactamente iguais em todo o lado porque parte do texto mudava de aldeia para aldeia. Em síntese, são pequenos textos com algum ritmo e ajudavam a inventar brincadeiras, como o jogo do "esconde" e "dlim-dlão", e serviam como TRAVA-LÍNGUAS infantil, ajudando o desenvolvimento da fala. Nasceram da sabedoria popular, muitas delas brasileiras.
A palavra "PARLENDA" vem do verbo latino " parlare" que quer dizer "falar".
Um abraço
 
 
                                                                      C O I S A S  D A  L Í N G U A 
 
 
                                                         
      DLIM-DLÃO                                                ESCONDE
 
Lagarto pintado                                          Bico, bico, sarabico
Quem te pintou                                           Quem te pôs a mão no bico
Foi uma velha                                             Foi a Senhora da Lapa                                               
Que por aqui passou                                  Que hoje matou uma vaca
No tempo da eira                                        Três cavalos a correr
Fazia poeira                                                Três meninas a aprender
Agarra lagarto                                              Quem será o mais bonito/a 
Naquela orelheira                                        Que se vai esconder 
 
No "dlim-dlão" as crianças estão sentadas ou em fila, com ambas as mãos nos joelhos e o monitor com uma pequena pancada em cada mão vai proferindo as palavras do texto. Na mão que couber a última palavra vai agarrar a orelha dum qualquer. E assim até à última mão disponível e remata-se dizendo: dlim-dlão cabeça de cão, borracha de vinho para andar o caminho.
Quanto ao "esconde", as crianças sentadas, o monitor toca o ombro de cada uma, ao mesmo tempo que vai dizendo as palavras do texto. O toque no ombro da última palavra, o interveniente vai esconder-se até todos estarem escondidos. Aí, o monitor é quem vai à procura dos escondidos. O primeiro a ser descoberto vai ser o monitor do jogo seguinte.
 
 
PARLENDAS PARA  ENTRETENIMENTO  E DESENVOLVIMENTO DA FALA
 
Hoje é domingo                            Era uma casa                       Um, dois                          Una
Pede cachimbo                            Muito engraçada                  Massa e arroz                Duna
O cachimbo é de barro                Não tinha teto                      Três, quatro                    Trena
Bate no jarro                                 Não tinha nada                     Sopa no prato                Campana
O jarro é de ouro                           Ninguém podia                     Cinco, seis                      Cidade
A cavalo num touro                     Entrar nela, não                     Diz outra vez                  Cigarrega
O touro era valente                      Porque a casa                       Sete, oito                         Carrapi
A cavalo numa trempe                Não tinha chão                     Come um biscoito         Carrapá           
A trempe era de ferro                   Ninguém podia                     Nove, dez                        Conta bem
A cavalo num martelo                 Dormir na rede                      Volta ao princípio           São dez.
O martelo bate sola                     Porque a casa                       Outra vez
A cavalo numa bola                     Não tinha parede
A bola era redonda                       Mas era feita                           
A cavalo numa pomba                 Com muito esmero
A pomba era branca                     Na rua dos parvos
A  cavalo numa tranca                 Número zero.
O cavalo era fraco
Caiu num buraco
O buraco era fundo
E acabou-se o Mundo.
 
Estas aqui descritas foram as da minha meninice.
Na internet, se quiserem ler outras de origem brasileira, estão lá muitas.
 
Zé Maria Lopes
 
NOTA: Este Zé Maria não deixa de nos surpreender. Agora voltou a menino e atira-nos todos para ambientes infantis de que já nos esquecemos. Que boa está esta cabecinha! AH

Ucrânia quem és tu? (2)

12.06.22 | asal

 A viragem para Constantinopla

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Já vimos que Vladimir deu à Rússia, da qual a Ucrânia fazia parte, um estado inspirado num modelo imperial. Sob o seu reinado de 1019 a 1054, os territórios da Grande Rússia, onde a Ucrânia se incluía, atingiram o seu apogeu.
Porém, com a sua morte, deu-se uma incapacidade do seu sucessor governar, ficando um vasto território sem rumo, esfacelado entre principados concorrentes, entre guerras fratricidas, que criaram uma situação difícil de governação. Esta situação acabou por se manter vários anos.
Deste modo, durante o séc. XII e XIII o modo de funcionamento da grande Rússia foi muito semelhante ao do Santo Império romano-germânico,  o de um conjunto feudal muito fraco – relaxado no poder – no seio do qual o trono de Kiev, equivalente a título imperial, se tornou objecto de lutas de prestígio.
A ruína do comércio em direcção a Bizâncio, seguida da tomada de Constantinopla e da destruição do Império pelos cruzados em 1204, acelerou o declínio da entidade da Rússia, pondo fim às condições existentes com a chegada dos Mongóis.
Com efeito, o séc. XIII foi marcado pela irrupção dos temíveis cavaleiros mongóis que se foram espalhando até à Polónia e Hungria, massacrando cerca de metade da população de “Grande Rússia”. Só Novgorod escapou a esta grande devastação mongol.
Apenas Alexandre Neski, o famoso cavaleiro teutónico, em 1242, fez reconhecer a sua autoridade sobre os principados vizinhos que dependiam de Moscovo.
Em 1328, a autoridade de Ivan I conseguiu reunir estes povos sob o domínio do grande principado de Moscovo. Em 1380, finalmente, a vitória moscovita a partir da batalha de Koulikovo conseguiu expulsar os Mongóis da Europa.
Sob o o nome de “Nova Rússia”, a Crimeia e a costa do mar do negro, até Deniepropetrovsk foram colonizadas, principalmente por colonos russos da Pequena Rússia, isto é da parte norte da actual Ucrânia. Numerosas cidades foram então fundadas e são hoje as mais importantes da sul da Ucrania: Odessa, Melitopol, Sbastopol, e Simferopol na Crimeia.
No séc. XIX, como fizera Luís XIV em França, com a erradicação do protestantismo, e como o fez na mesma época Bismarck na Alemanha, a monarquia imperial procurou unificar a população com um plano cultural e uma política de russificação e de defesa da ortodoxia face ao catolicismo. Com efeito, depois do fim do séc. XVI nos territórios ucranianos da República das Duas Nações, a Igreja ortodoxa sob a influência da católica Polónia, tinha feito parcialmente uma aliança com Roma e tinha permitido ao catolicismo progredir nestas regiões.
Tenha–se em conta, porém, que, só em 1649, se deu a primeira tentativa de criação de um Estado ucraniano, com total autonomia da grande Rússia. Porém, o Império tomou uma opção inversa, promovendo a ortodoxia russa. Por sua vez, tornou-se a religião dominante da população russa e a força da legitimidade do poder dos czares, soberanos de “Terceira Roma”, depois da queda de Constantinopla. Este combate cultural autoritário implicou uma mudança no calendário e do alfabeto e de fecho de escolas.
 Chegados a 1919, finalmente, a Ucrânia tornou-se uma república autónoma no contexto da revolução russa de 1917, com Lenine no poder.
Em dezembro de 1991, a população da Ucrânia votou, por uma larga maioria a sua independência, face à Rússia. A partir desta data, a Ucrânia tornar-se-ia um país democrático, soberano, livre e independente.
O nacionalismo ucraniano, sendo um dos mais poderosos do território soviético mesmo que os agricultores ucranianos sejam particularmente resistentes à colectivização, a arma da fome foi utilizada para quebrar esta resistência dentro da experiência genocida de Holodomor, que fez em 1932-1933 entre dois a cinco milhões de vítimas. O traumatismo destas perseguições fez ver a um bom número de ucranianos a chegada dos alemães em 1941, como uma libertação. Antes mesmo da penetração das tropas alemãs no território, o chefe dos nacionalistas ucranianos Stepan Bandera proclamou a independência dos Ucranianos em Lviv, mas foi rapidamente destronado pelos invasores. Os nacionalistas ucranianos formaram então uma guerra de guerrilha que se bateu por sua vez contra Wehrmacht pouco depois da guerra contra a armada soviética, a qual resistiu até 1954.
Em 1991 a população da República da Ucrânia votou 92,3% pela sua independência, que foi sempre marcada pela tensão constante da sua dupla herança russa e polono-lituana. 
florentinobeirao@hotmail.com

Aniversário

12.06.22 | asal

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É a primeira vez que anuncio este aniversário e faço-o com alegria. Trata-se do Alcino Ramos Alves, de Oleiros (Orvalho?), que entrou no Seminário do Gavião em 1954/55. E porquê esta alegria? Foi um dos que se atreveu a escrever para o blogue e a levantar questões, que a seu tempo foram abordadas com interesse. Pedi-lhe os seus dados na altura e por isso aqui estou a anunciar mais um aniversário de um colega, do ano do Felismino, do João Farinha Alves, do Manuel Carrilho... Ele próprio disse que ainda colaborou no sentido de juntar malta do seu ano para o Encontro do Gavião em 2011. 

Amigo Alcino, aqui se registam os nossos PARABÉNS e votos de muita saúde e longa vida. Até um dia!  

Palavra do Sr. Bispo

11.06.22 | asal
OS MAUS FÍGADOS DE GENTE SEM PAZ

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A saúde da paz foi sempre muito precária, muito débil. Sempre houve gente de maus fígados, prepotente, volúvel. Gente fascinada pela cultura da morte, por imperialismos históricos, por arsenais de armamento escondido a espreitar por detrás da porta para provocar, ameaçar ou atingir quem está ou passa inocente. “Se queres conhecer o vilão, mete-lhe o pau na mão”, diz o nosso povo. E di-lo sem grande esperança em qualquer espécie de profilaxia ou de terapia. O povo sabe que estes ‘doentes’ são maus doentes, não colaboram na possível cura. Antes pelo contrário, orgulham-se dela, promovem e agravam a doença por entre os estridentes aplausos dos seus aduladores e subservientes de serviço. Apesar de ser um dos seus principais deveres, o mundo, graças a estas patologias humanas, tem muita dificuldade em se governar na paz. Depressa esquece que todos fazemos parte do género humano, da fraternidade universal, que todos somos irmãos, responsáveis uns pelos outros. Entre nós, porém, também há sinais de retrocesso no que à paz diz respeito. Há quem, em pezinhos de lá e com linguagem subtil, ocultando chamar os bois pelo nome, se esforce por levar a água ao seu moinho para triturar e inverter o que tanto tem custado a conquistar ao longo dos tempos: o respeito pela vida: “não matarás”. Há quem defenda a cultura da morte como se de um salto civilizacional se tratasse ou como se essa fosse a questão mais premente das políticas de saúde pública ou da vida social a resolver. Se a vida é o vértice da paz, se a paz e a vida são bens por excelência da condição humana e de qualquer ordem social, se a paz e a vida são bens interdependentes ou correlativos, a paz não pode ser senão a vitória do direito e a feliz celebração da vida devidamente cuidada e assistida. Toda e qualquer ofensa à vida é um atentado contra a paz. Se queres a paz, respeita a vida, a paz começa em ti. Esta paz que começa em cada um de nós, porém, não é possível se baseada em sofismas ou fantasias que levem à eliminação da própria vida ou da vida de terceiros, seja em forma de aborto, de eutanásia ou de qualquer outra forma de violência fratricida: “não matarás”. Mal da sociedade e do progresso quando o direito perde o seu caráter humano, quando deixa de ser o que deve ser e se empanturra de indiferença, frieza e deturpações, deixando de defender a vida e a pessoa diferente, criando dela uma imagem negativa e incómoda ou fabricando uma falsa compaixão por ela, ao ponto de a excluir ou destruir, sobretudo as mais frágeis. E tudo isto invocando o direito à plena liberdade e à dignidade pessoal de quem o faz ou pede que lho façam, e ao dever de quem o deve permitir ou colaborar. De facto, somos uns artistas sem igual em busca de razões sem razão só para manifestar maus fígados, satisfazer ideologias e egoísmos vários e não fazer o que devemos fazer para acompanhar e cuidar! Porque não é fácil enfrentar a verdade e edificar sobre a rocha, governa-se e vive-se ao som dos ventos, das modas e dos interesses, construindo sobre areia movediça e querendo voar contra o SOL esquecendo que as asas são de cera!... Nenhum projeto civilizacional se aguenta quando construído sobre os alicerces da cultura da morte! Infelizmente, perde-se a memória, ignoram-se as lições da história!...
Sabemos que a par dos conflitos que acompanham a história humana, o homem sempre buscou a paz. Mas, que paz? É certo que o mundo pode proporcionar uma certa tranquilidade a pessoas e sociedades, levando-as a viver sem grandes preocupações e dificuldades. Deus dá graças comuns a toda a gente, “faz nascer o sol sobre maus e bons e cair a chuva sobre justos e injustos.” (Mt 5, 44-45). A isso, porém, só latamente se pode chamar paz, não só porque se limita ao âmbito material e exterior, mas também porque leva a pensar que a paz consiste na ausência de guerra. Sem negar essa tranquilidade que o mundo pode dar, Cristo disse-nos: “Deixo-vos a paz, dou-vos a minha paz. A paz que vos dou não é a paz que o mundo dá” (Jo 14, 27). Realço: a paz que Jesus nos dá não é “a paz que o mundo dá”, é a paz que Ele nos alcançou através da morte, reconciliando-nos com Deus, servindo, amando, lavando os pés aos outros, dando a vida. Por isso nos diz: “dou-vos a Minha paz”. É uma paz própria, caraterística d’Ele. Não como o mundo a dá por medo de consequências, por cansaço de violências, de injustiças, de humilhações. É uma paz que não se pode reivindicar nem comprar porque não está armazenada nem à venda, mas pode e deve-se pedir e construir. É uma paz dada gratuitamente, por amor, como dom e prenda confiada aos homens, não como prémio merecido. Jesus dá essa paz onde e quando a vontade de competir, de dominar, de ser o mais importante e o mais forte, ceder lugar ao serviço, ao amor desinteressado pelos últimos, à humildade de reconhecer que todos somos irmãos e responsáveis uns pelos outros. Esta paz não é mera ausência de guerra, é presença de Deus que é amor, é paz com Deus, é paz em Deus reconciliados que fomos com Ele pela morte de seu Filho, o Príncipe da Paz. E se a vida nos apresenta dificuldades, não devemos ficar perturbados nem ter medo, estamos com Ele, Ele venceu o mundo: “Disse-vos estas coisas para que tenhais a Minha paz. Neste mundo tereis aflições, mas tende coragem: Eu venci o mundo” (Jo 16,33).
São Paulo VI escreveu assim: “A paz, para nós, cristãos, não é somente um equilíbrio exterior, uma ordem jurídica, um conjunto de relações públicas disciplinadas; para nós, a Paz é, antes de mais nada, o resultado da atuação dos desígnios de sapiência e de amor com que Deus quis instaurar relações sobrenaturais com a humanidade. A Paz é o primeiro efeito desta nova economia, a que nós chamamos a Graça; “graça e paz”, repete o Apóstolo; é um dom de Deus que se torna estilo da vida cristã, é uma fase messiânica que reflete a sua luz e a sua esperança também sobre a cidade temporal e que fortalece com razões bem mais elevadas aquelas mesmas razões sobre as quais ela assenta a sua paz. Na verdade, à dignidade de cidadãos do mundo, a Paz de Cristo acrescenta a de filhos do Pai celeste; à igualdade natural dos homens, ela ajunta a da fraternidade cristã; às desavenças humanas que sempre comprometem e violam a paz, aquela Paz de Cristo enfraquece os pretextos, contesta os motivos e aponta-lhes as vantagens de uma ordem moral ideal e superior e revela-lhes ainda a prodigiosa virtude religiosa e civil do perdão generoso; à insuficiência da habilidade humana para criar uma paz sólida e estável, a Paz de Cristo fornece o auxílio do seu otimismo inexaurível; à falsidade da política do prestígio orgulhoso e do interesse material, a Paz de Cristo sugere a política da caridade; à justiça, muitas vezes cobarde e impaciente, que afirma as suas exigências com o furor das armas, a Paz de Cristo infunde a coragem invencível do direito, haurido das razões profundas da natureza humana e do destino transcendente do homem. E acentue-se ainda que não é medo da força e da resistência a Paz de Cristo, a qual recebe o seu espírito do sacrifício que redime; não é fraqueza transigente perante as desgraças e as deficiências dos homens sem sorte e sem defesa, esta Paz de Cristo possui a compreensão da dor e das necessidades humanas e sabe encontrar oportunamente amor e dádivas para os pobres, para os fracos, para os deserdados, para os que sofrem, para os que são humilhados e para os vencidos. Por outras palavras: a Paz de Cristo, mais do que qualquer outra fórmula humanitária, é solícita pelos Direitos do Homem” (II Dia Mundial da Paz, 1969).
Antonino Dias
Portalegre-Castelo Branco, 10-06-2022.