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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Palavra do Sr. Bispo

25.02.22 | asal
QUARESMA 2022 - A HORA DA FERIDA É A HORA DA GRAÇA

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Pai, nas vossas mãos entrego o Meu Espírito, é uma das mais fortes palavras de Cristo na cruz. Todos os anos nos é oferecido um tempo para que, com o coração em construção, melhor nos preparemos para a Páscoa. É a Quaresma, tempo favorável porque tem ritmo batismal. Tempo de graça porque é dom do Espírito. Tempo de purificação porque ocasião de reconstrução e fortalecimento da nossa relação com Deus, com os outros, com a vida, connosco próprios.
A Páscoa, mistério da morte e ressurreição de Cristo, não se resume ao final feliz de uma história dramática. E se é verdade que existem feridas que dão origem a vidas completamente novas, insuspeitadamente novas e não apenas cicatrizadas, então a Páscoa é a evidência subversiva da graça de Deus que se entranha na humanidade.
No meio de uma humanidade dilacerada por solidões, incompreensões, invejas, divisões e discórdias, feridas diversas, reconhecem-se os sinais da graça e da misericórdia de Deus quando a dureza do coração humano se dobra e se prepara para a reconciliação e para a alegria. Reconhecem-se os sinais da graça quando, movidos os corações por ação do Espírito Santo, os inimigos procuram entender-se, os adversários se dão as mãos, os povos se encontram na paz e na concórdia. Reconhece-se a evidência subversiva da graça quando o desejo da paz põe fim à guerra, o amor vence o ódio e a vingança dá lugar ao perdão (Cf. Oração Eucarística da Reconciliação II).
Não há Páscoa sem Cristo e não é imaginável pensar Cristo sem o mistério pascal. É a vida de Cristo agarrada à Cruz e superando-a, que é a grande escola da humanidade subvertida por uma ferida de amor. Em Cristo, a hora da ferida e a hora da graça coincidem. É a desproporção do amor paciente, bondoso e partilhado, sem arrogância e sem soberba, sem irritação e sem ressentimento ou rancor. É o amor justo que se regozija com a verdade, que tudo desculpa e tudo crê, que tudo espera e tudo suporta (cf. 1Cor 13, 4 s). A ferida não é para ficar a chorar, é para abrir o coração e reaprender a confiar. E, assim, fazem-se novas todas as coisas. A Páscoa não é apenas uma experiência fugaz, um momento. É dom de Deus. E tão forte que se acolhe como vocação; tão profundo que se erige como identidade; tão inteiro que unifica toda a vida. Páscoa é um modo de ser. O de Cristo. O dos cristãos.
A Quaresma surge precisamente porque, em Igreja e seguindo Cristo, é necessário aprender o seu modo pascal de ser e de viver. Como poderíamos saborear e viver em pleno a sua Páscoa se não nos exercitássemos no seu modo de amar e de se dar!?
Vivemos, por muitas razões e vicissitudes históricas, num mundo ferido. A Igreja, a nível local e universal, defronta-se com imensos desafios, questionamentos e fraquezas. O Sínodo é um desafio, como o são as Jornadas Mundiais da Juventude, mas a Igreja confronta-se também com a sua história e a sua credibilidade pastoral e evangélica. A pandemia feriu o tecido social e afetou pessoas e instituições. A mesma pandemia alterou o acesso aos cuidados de saúde de tantos pacientes, desvaneceu projetos económicos familiares, empobreceu agregados familiares, deixou muitos no desemprego, levou à rutura de imensas possibilidades. A insegurança e a incerteza, aliadas ao receio, alteraram os estilos de vida. As desigualdades sociais e continentais aumentaram. A dimensão relacional das nossas comunidades ressentiu-se. Os ritmos da socialização e até do luto foram alterados. Enfim, e sem ser exaustivo, o mundo, próximo e longínquo, desorganizou-se. Além da dor da ferida, pessoas e comunidades cederam à tentação da comiseração e da lamentação que fez emergir outras dores e abrir outras feridas. São feridas de todos nós.
Na Cruz de Cristo, a hora da maior dor foi também a hora do maior amor: “A minha vida sou Eu que a dou” (Jo 10, 18). O aparente abandono de Deus naquele momento revelou-se, sim, o abandono de Jesus nas mãos de Deus. Cristo faz da sua morte um ato de confiança e de abandono absolutos nas mãos de um Deus em quem se pode confiar: “Tudo vem de Ti e não oferecemos senão o que temos recebido da tua mão” (1 Cro 29,14).
É assim que a confiança se inscreve na história dos homens: “Pai, em Tuas mãos entrego o meu espírito” (Lc 23, 46). Na palavra de Cristo que Se entrega totalmente nas mãos do Pai podemos perceber o dinamismo de vida e de amor que está inscrito como confiança no mais íntimo da autêntica existência humana. É o amor mais radical porque diz que não nos bastamos a nós próprios e nos coloca em despojamento. Então, a ferida tornou-se o lugar insuspeitado da revelação de Deus e do seu amor. A ferida deu lugar à leitura retrospetiva da vida. E purificou o projeto seguinte. A ferida tornou-se a lente que permitiu ver a vida com maior verdade. A ferida revelou a sua autêntica dimensão e dispensou vaidades. A ferida, mais do que apenas uma cicatrização indolor e estética, esperou e ansiou a cura. E isso é caminho.
Caminho é também a Quaresma que, preparando a Páscoa, pode ser bem a experiência de abrirmos e expormos as nossas feridas a Deus e, assim, nos aproximarmos das feridas dos outros e do mundo. É legítimo imaginar um mundo sem feridas, mas é também uma ilusão pressupor uma vida e uma história sem feridas. Se percebermos melhor as nossas feridas estaremos mais preparados para valer aos outros nas suas. Olhando para as feridas existentes à nossa volta, a Renúncia Quaresmal deste ano voltará a ser partilhada com a Arquidiocese de Kananga, República Democrática do Congo, nos derradeiros esforços para a conclusão da construção do Centro de Acolhimento e Saúde, já conhecido da nossa Diocese.
Pela oração, pela partilha e misericórdia, pelo jejum, das nossas feridas pode brotar uma vida nova para nós e para os que vivem ao nosso lado. Todos podemos comprometer-nos mais na consecução do bem comum, na dignificação da pessoa humana. Todos podemos partilhar o que temos e o que nos falta. Todos podemos libertar-nos de dependências e de vaidades. Todos podemos superar-nos no acesso à verdade. Todos podemos empreender caminhos em conjunto, escutando-nos, falando do que nos vai na alma. Todos podemos exercitar e viver o abandono e a confiança nas mãos de Deus. A hora da ferida é a hora da graça. É a Páscoa!
Antonino Dias
Portalegre-Castelo Branco, 25-02-2022.

Guerra triste

25.02.22 | asal

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Não sou capaz de ficar em silêncio nestes dias em que a guerra voltou à Europa. Este blogue não versa questões políticas, mas todos nós estamos, sem querer, absorvidos por esta onda de terror que nos queima o gosto de viver e nos atira para um pessimismo degradante. Por isso, aqui escrevo:

Pensava eu que os povos e as nações já tinham crescido o suficiente em educação e consciência de fraternidade, com capacidade de diálogo para dirimir todas as questões sem recurso a meios degradantes(guerra, fome, fogo...), condescendendo a aceitar tribunais  internacionais para resolver todas as questões... Mas fiquei desiludido...

Parece que basta alguém sentir um pouco mais de força para ser capaz de olhar os fracos como inferiores, sem direitos nenhuns. Coitados dos ucranianos que vêem a sua alegria e esperança no futuro ser espesinhadas pelos chefes da Rússia que dominam todo o leste europeu! E coitados dos russos que ainda não conseguiram elites bem formadas para viverem num regime democrático, pacífico e tolerante. Há mais de 100 anos, só tiranos conduzem aquela gente...

Não sabemos o que vai ser o futuro de todos nós. Já todos começamos a sofrer. Para já, só nos resta o apelo do Papa - rezar à Rainha da Paz que nos ajude. 

Lembro-me do meu professor P. Manuel Heitor a dizer "vocês não passaram pela guerra e por isso vivem com ilusões a mais...". Ele pedia mais humildade, consciência das realidades brutais que facilmente caem sobre nós... 

É este o nosso mundo, afinal! Que Deus nos ajude a ganhar ânimo!

António Henriques

NOTA:Para alegrar esta página, trago um poema e fotos de uma amiga:

 

Abriu hoje mesmo, azul, roxo e amarelo! 

Captura de ecrã 2022-02-25 210423.jpg

Conhecido pelo lirio da paixão
humilde, lindo e belo...
nem assim se vestiu Salomão,
como mencionam as escrituras...
Com as cores da Ucrânia
apelando a todas as "partituras"...
Haja PAZ, venha a PAZ
para Todas as criaturas!
Que se escrevam e cantem
entre nós os melhores hinos
e possam confiar na humanidade
Todas, Todos... meninas e meninos!!! ❤
 
Isaura Feiteira

Saudades da terra - 2

25.02.22 | asal

Caro António, na sequência do poema do Gedeão, ocorreu-me este breve texto, para possível publicação, com votos de boa saúde para toda a nossa FRÁTRIA. José Caldeira

FREI GASPAR FRUTUOSO

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"As palavras são como as cerejas...". Este poema do Gedeão fez vir à minha memória idêntico título "Saudades da Terra", o qual designa a vasta obra de Frei Gaspar Frutuoso, ilustre historiador micaelense. Este grande vulto do humanismo renascentista, ilustre eclesiástico nos Açores, deixou-nos uma valiosa obra em 6 livros, multifacetada, carregada de simbolismo mas também cheia de informações preciosas para a conhecimento da sua época - descobrimentos portugueses - e especificamente Açores, Madeira, Canárias e Cabo Verde.. Foi contemporâneo de Bernardim Ribeiro, autor da novela "Menina e Moça",  e, tal como este, "jogou" com o simbólico. Atentemos no estilo de Frei Gaspar, no início da sua obra :

-"Enjeitada nasci no Mundo, triste, sem ventura, e logo de pequena comecei a ser desestimada por esta tacha. Seis horas,  me dizem alguns, e outros uma só, que tive riqueza e alegria, quando meu Pai era inocente, rico e ledo."

Em paralelo, a introdução da "Menina e Moça":

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-"Menina e moça, me levaram de casa de meu pai para longes terras. Qual fôsse então a causa daquela minha levada, em pequena, não na soube (...)".

Por ora fico-me por aqui.

Abraço amigo do J. Caldeira

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Amigo José Caldeira, levantaste a lebre e eu recolhi do blogue "As Ilhas Encantadas" esta prosa e foto sobre o ilustre açoreano que tu ressuscitaste:

«Frequentou a Universidade de Salamanca, onde concluiu os bacharelatos em Artes e Teologia, em 1558. Salamanca era, ao tempo, um meio cultural importante, onde não faltavam intelectuais de alto nível. Mesmo assim, o jovem Gaspar Frutuoso não deixou de sobressair, com distinção, nos seus estudos universitários, sendo mesmo apelidado de EI grande sabio de las Islas de Portugal.
Frutuoso, ao que tudo indica, veio à ilha de S. Miguel tomar ordens de sacerdote, provavelmente nas férias de 1554, regressando depois à Universidade de Salamanca.
Acabados os estudos em Salamanca, vemo-lo servindo, entre Outubro de 1558 até Março de 1560, na Igreja Matriz da Lagoa, em S. Miguel. Só depois deve ter partido para o Continente, tendo-se fixado na Dioceses de Bragança (onde se manteve durante o governo do bispo D. Julião de Alva, que lhe concedeu benefícios com rendimento superior a mil cruzados), leccionando no Colégio dos Jesuítas, ali fundado em 1561.
Ter-se-á também doutorado, por esta altura, provavelmente, em Évora.
Em 1564, Frutuoso renunciou a todos os seus benefícios e abandonou Bragança, para regressar a S. Miguel, aceitando os cargos de vigário e pregador da Matriz de Nossa Senhora da Estrela da vila da Ribeira Grande, de que tomou posse a 15 de Agosto de 1565.
É, portanto, aos 43 anos que Gaspar Frutuoso, munido de grande ilustração e experiência, abandona uma vida animada por viagens e convívio com gente culta e distinta, para se tornar no humilde pároco da Ribeira Grande.
É na Ribeira Grande que fica até ao fim da vida e onde, para além do trabalho paroquial e da prática da caridade, constrói o importante legado histórico que deixou. A investigação e a recolha das tradições das ilhas, cujo povoamento se verificara há pouco mais de cem anos, dão origem à sua grande obra, Saudades da Terra, a principal e quase única fonte do início dos tempos históricos das ilhas dos Açores.
Gaspar Frutuoso morreu a 24 de Agosto de 1591, tendo dito missa na sua igreja ainda nesse dia e, segundo o respectivo termo de óbito, sem ter feito testamento, por Nosso Senhor o chamar de pressa e não ter tempo
AH