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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

MEMÓRIAS de um pequeno seminarista

05.02.22 | asal
                                                                             São estas memórias que nos fazem respirar melhor! AH
 
Caro amigo António Henriques, envio para possível publicação no "Animus",  um pequeno texto, de memórias pessoais, dos anos de 1965/1966, reportadas ao Seminário de Gavião, onde tudo se iniciou, esperando que o caminho me conduza de novo a Alcains, em Maio deste ano. 
Cumprimentos e um abraço de agradecimento a quem leva por diante um blogue que à distância nos vai unindo.
De Braga, 
A. Martins, antigo aluno dos Seminários de Gavião e Alcains e sempre do Sporting Clube de Portugal 

António Manuel Alves Martins.jpg

 

Anos sessenta, do Portugal profundo, a viagem para o Seminário de Gavião foi um momento épico, para o pequeno seminarista. Hoje, ainda é perceptível o negrume da noite, pois a carreira da "Viação Sernache", para a cidade de Tomar, passava em Cernache do Bonjardim, às 6.30 da manhã. Da pequena aldeia ainda eram quatro ou cinco quilómetros de percurso a pé, pois os luxos daqueles tempos não davam para mais. A adorada mãe com a mala do pequeno seminarista à cabeça, por  atalhos que encurtavam o percurso, num dia que ainda era noite a caminho da madrugada, em Cernache. Depois a espera em Tomar, para mais um percurso até à cidade de Abrantes. Não há lembrança quanto à empresa de transporte em causa, o que é intolerável para a memória do pequeno seminarista. Nova espera e chegada a Gavião, na camionagem "Claras",  já a tarde ia alta. 

 A percepção hoje é de uma mãe em lágrimas a despedir-se, de mãos estendidas para uma criança chorosa e uma "multidão" de outras crianças a dirigir-se para a capela. A ideia é que teria sido o último ou dos últimos meninos a chegar, naquele dia, ao Seminário de Gavião. Hoje, é um  enigma o retorno de sua mãe, àquelas horas do dia, à sua aldeia, bem como fiquei curioso, ainda, da forma como outros dois pequenos seminaristas, da zona de Cernache, chegaram nesse dia ao Gavião.

Chorar silenciosamente, nas primeiras noites de camarata, era o habitual e também para o pequeno seminarista. As saudades da família, dos amigos, dos ares e das vivências da aldeia, assim o exigiam e nós éramos, apenas, crianças. O que aconteceu de estranho é que um de nós passou duas ou três noites em choro compulsivo, até que retornou definitivamente a casa, pois morria de saudades. No meio de cerca de oitenta pequenos seminaristas (menos um que já era adulto), nem deu para conhecer quem era.

Paulatinamente, as lágrimas silenciosas foram-se desvanecendo e os dias tornavam-se mais claros,  brilhantes, com novos amigos, novas brincadeiras, outras formas de viver.

As saudades fazem parte da índole dos portugueses, dizem. A verdade é que o pequeno seminarista já em fase mais adiantada da sua permanência, em Gavião, pernoitava na camarata de 5 ou 6 alunos, na parte alta do Seminário, raramente visitada pelo Prefeito, o que de facto transmitia uma feliz sensação de liberdade e facilidade no agir. Nestes termos, a memória de um acto sempre repetido de um de nós, natural de Alferrarede, que todas as noites, antes do deitar, se dirigia à varanda, apontava para Norte, fazendo notar aos restantes que as luzes que ao longe se avistavam eram as luzes de Abrantes e que aí era a sua terra. Sistematicamente, era assim que terminavam os dias e se iniciavam as noites.

Por volta de mais ou menos seis meses, uma mensagem escrita, dirigida ao pequeno seminarista já bem adaptado, em que o Severino, assim se chamava o condiscípulo, se a memória não me atraiçoa,  informa que saiu de madrugada para apanhar a camioneta para Abrantes e assim apaziguar, definitivamente, as saudades da sua terra. Fez-se à estrada e o Severino perdeu-se no esquecimento, ou talvez não, nunca se sabe.  

O pequeno seminarista já demasiadamente habituado ao seu viver, além de sonhador, era um brincalhão com jeito de actor, julgo. Além disso, creio, gostava de impressionar os semelhantes. Neste enquadramento, em pleno estudo, convenceu os seus pares mais próximos que conseguia chorar quando lhe apetecesse. Face à apregoada "bravata", exigiam-lhe prova de tal afirmação e o pequeno seminarista surpreendia-os com lágrimas, lágrimas verdadeiras. Instalava-se o espanto e a brincadeira terminava com a inoportuna entrada de pessoa "estranha" à sala de estudo. Ah sim! pessoa "estranha"...

De forma inconsciente, o pequeno seminarista descobriu, em plena distração no estudo obrigatório, ao olhar uma figueira de vastas folhas verdes ao fundo do minúsculo jardim, à  retaguarda da sala, que tal imagem despertava intimamente as saudades da sua  aldeia, de verde vestida, de figueiras frondosas, dos campos de trigo, dos campos de milho, das brincadeiras com os amigos, da familia e chorava..., chorava lágrimas..., lágrimas verdadeiras ou lágrimas de actor, quem sabe? Era apenas a imagem de uma figueira, mas de uma figueira com folhas verdes...  

Espantosamente, no mais fundo do íntimo do pequeno seminarista,  ainda hoje ressoam, sem razão aparente, aqueles versos que se cantavam, em uníssono, em Gavião, nos finais dos nossos pequenos saraus dos sábados à noite ( ou seriam as sextas-feiras?) que se repetiam por três vezes em tom cada vez mais ténue: "O dia chegou ao fim - silêncio, a noite desceu -boa noite, paz em Deus", "O dia chegou ao fim - silêncio, a noite desceu - boa noite, paz em Deus", "O dia chegou ao fim - silêncio, a noite desceu - boa noite, paz em Deus"              

Após mais de cinquenta anos, a memória ainda nos continua a convocar para um tempo que nos ajudou a ser o que somos hoje e assim se justificam, para mim, tanta alegria, tanta euforia, tanta convivência serena, tanta amizade, tanta cumplicidade, quando os pequenos seminaristas, feitos meninos grandes, se encontram, em Alcains, Gavião, Portalegre, Sertã, Proença-a-Nova, Marvão, ou onde quer que seja que os pequenos seminaristas se encontrem.

Que o ano de 2022 nos dê a alegria dos nossos reencontros, nesse sítio tão emblemático da nossa juventude que é o Seminário de Alcains que me transporta, também e ainda, para o campo de futebol Trigueiros de Aragão, serra da Guardunha, serra da Estrela, rio Ocreza, ribeira da Líria, Salamanca, Ciudad Rodrigo, Cáceres, Figueira da Foz, Seminário das Missões de Cernache do Bonjardim, etapa final da Volta a Portugal, em Alcains, Padre Fanhais em Castelo Branco, eleições ditas democráticas de 69, tempos da Pedra Filosofal de Gedeão, Andebol com o Liceu de Castelo Branco, miúdas lindas dos domingos à tarde..., mais, mais e mais...   

"O DIA CHEGOU AO FIM..."

Braga/António M. Alves Martins

Aniversário

05.02.22 | asal

João Pires Coelho.jpg

Festeja hoje mais uma primavera o P. João Pires Coelho, nascido em 1944. Presentemente, trabalha como pároco de Vila de Rei e Fundada. Sei que já trabalhou nos arquivos da diocese. E também foi jornalista... Ainda existia o "Distrito de Portalegre", pelos vistos. As voltas que o mundo dá!

Aqui te deixamos os nossos PARABÉNS, com votos de saúde e realização dos teus projetos com alegria e muita felicidade pessoal.