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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Aniversário

07.06.19 | asal

HOJE TEMOS ANIVERSÁRIO!

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É o Renato Marçal, um jovem de 38 anos...

Tem uma relação especial com a Alemanha, mas só ele saberá dizer, caso queira comunicá-lo ao grupo. O ANIMUS SEMPER está à sua disposição.

E vive na Sertã! Mas, ele lá tem as suas razões, não nos acompanhou em 18 de Maio.

Para já, os PARABÉNS DO NOSSO GRUPO, com votos de muita saúde e felicidade, junto de família e amigos.

Contacto: tel. 964 343 412

O Colaço presente

06.06.19 | asal

DO QUE FOMOS

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DO QUE SOMOS

Saúdo-te, ó grande António Gil, porque tornaste o meu solidário arroz de pato, num povoado de mil adolescentes palpitantes.
Vi-te,num vislumbre, a evoluír, veloz, focado, pelo pelado de Alcains, a caminho da baliza e a seres derrubado, em falta, quem diria, pelo mano João, a pessoa mais serena que em Alcains conheci.
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Obrigado, pelo néctar Cano Mocho, com que quiseste presentear-me no nosso recente encontro da SERTÃ.
E ainda sob os efeitos catárticos da tua pomada, deixa-me que saia porta fora a cantar os benefícios de tao iluminante almotolia.

Sim, e que os nossos incansáveis membros da AAADPCB, Animus Semper Antigos Alunos, na pessoa do António Henriques, não vejam nisto qualquer atropelo ao seu labor, antes, sentido apelo a tornar o nosso Maio muito melhor.

É urgente tornar o dia numa infatigável partilha de Afectos. Sem questionar a qualidade da última comunicação do nosso querido António Manuel M. Silva ou de qualquer outro dos anteriores oradores, sabe a pouco saber que, se calhar, podiamos ser muitos mais a partilhar, não só histórias do passado, como, sobretudo, como é que PASSAMOS O HOJE DOS NOSSOS DIAS.

O Gil não teria que distribuir toda a sua produção vinícola, mas, quem sabe, poderia ler dois ou três dos últimos poemas, enquanto bebíamos todos um copinho à sua saúde.

E assim por diante. Cada um na sua variante.

Há que reformular a tarde e o seu estar.

Querido Gil, o teu CANO VELHO pôs-me a "moer". Que "regalo"!!!

Muito obrigado.

António Colaço

NOTA: Caro amigo, quando dizes para os elementos da Comissão «não vejam nisto qualquer atropelo ao seu labor, antes, sentido apelo a tornar o nosso Maio muito melhor.», eu respondo que deves ficar descansado. Não atropelas ninguém e é cada vez mais notório que a amizade faz-se por cada um e quando cada um quiser. Todos nos alegramos com as muitas caras novas que apareceram na Sertã e eu tenho para mim que não foi obra de nenhum "arrastador" que tivesse movido montanhas. Pessoalmente, assumo a minha incapacidade de atrair a malta e continuarei humildemente a fazer o melhor que posso, dando lugar a quem faça melhor, até porque a idade começa a pesar...

Agora, uma coisa é certa: há muitos amigos à espera das condições ótimas para aparecerem. E essas condições nunca vão aparecer! Os últimos quatro anos, mesmo com falhas, têm sido reveladores de muito trabalho nas nossas causas - a memória do passado e a celebração da amizade presente.

Dizes, com toda a razão, que «podiamos ser muitos mais a partilhar, não só histórias do passado, como, sobretudo, como é que PASSAMOS O HOJE DOS NOSSOS DIAS.» Meu caro Colaço, a nossa tarde dos encontros pode ser diferente, tem mesmo sido diferente e em Alcains queremos todos fazer diferente, de modo a gostarmos cada vez mais de estarmos juntos. Mas o sofrimento de quem está nestes trabalhos é sentir-se só muitas vezes, não ter gente a dizer coisas, a colaborar, a quebrar silêncios. Lembras-te dos silêncios por que passaste noutros tempos? Eu próprio quebrei esses silêncios com a minha palavra...

Assim, insisto: a tua palavra, com o teu estilo sempre vivo, é sempre bem-vinda, como o são as palavras de muitos que nos chegam e eu transmito no ANIMUS SEMPER com todo o gosto.

Fico hoje por aqui, a pensar já na alegria que vamos sentir amanhã em Sarilhos Grandes, à volta de umas enguias, a mastigar sobretudo o gosto de estarmos juntos. 

António Henriques

Gavião - agora e no futuro

03.06.19 | asal

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Gavião

O edifício do seminário

agora e no futuro

 

Na Sertã, alguém perguntou em que estado estava agora o edifício do Seminário do Gavião e o que estava projectado para ele. Eu não soube responder, mas fui ver e perguntar.

Em anexo seguem algumas fotos, seis. Nas três primeiras, a perspectiva é do lado nascente, vendo-se que resta apenas o edifício mais velho, a casa primitiva, e nas duas últimas deste primeiro bloco já se espreita e depois vê o agora espaço livre após a demolição do bloco de camaratas e salas de estudo. Nas três últimas, entramos pelo portão lateral poente para o que era o então pátio junto às salas de estudo, depois olha-se as traseiras do que resta do edifico principal e, finalmente, vê-se o conjunto a partir da esquina traseira poente. Isto é o que resta, o estado da coisa.

Quanto ao futuro, falei com quem sabe: ali vão nascer dois projectos. O primeiro, já adjudicado, uma incubadora de empresas não tecnológicas que, se correr bem, estará pronta dentro de dois anos. No edifício que permanece e no restante espaço, vai nascer um museu de coches, com a colecção (particular) da Quinta da Margalha, que está em más condições de instalação e em grande perigo de deterioração. Este projecto está em fase de concepção pelo Arq. Carrilho da Graça e de candidatura a financiamento.

Quanto à colecção a instalar no museu em projecto, socorro-me de um texto de Carlos Grácio (Zahara, nº 8) para dizer que é um conjunto “notável” de “carros de atrelagem, típicos da segunda metade do século XIX e do primeiro quartel do século passado”. O museu prevê-se ter em exposição boa parte da colecção, com os restantes exemplares a rodarem no acesso ao público.

 

José Alves Jana

 

Sertã - a grande comunicação

03.06.19 | asal

Toda a gente ansiava por ter acesso ao discurso do António Manuel Silva sobre o P. Manuel Antunes, proferido na Casa da Cultura da Sertã durante o nosso encontro de 18 de Maio. Felizmente, aqui está ele, graças a mais um último esforço do nosso palestrante. Desfrutem, pois! AH

 

MANUEL ANTUNES

“Um homem que é só espírito”

Boa tarde!

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Como não tenho que cumprir protocolo, OBRIGADO A TODOS POR ESTAREM AQUI!

Introdução

        O Doutor e Padre jesuíta Manuel Antunes faz parte de uma plêiade de ilustres personalidades, naturais do que se convencionou chamar Pinhal Interior Sul (PIS), que se destacaram nas suas actividades profissionais e académicas atingindo níveis superiores de competência e de reconhecimento. Estou a referir-me ao Dr. Pedro da Fonseca, S. J. (1528 – 1599) “ O Aristóteles Lusitano”, natural de Proença-a-Nova, provavelmente o mais conhecido filósofo português do século XVI; a António de Andrade (1581-1634), natural de Oleiros e o primeiro europeu a chegar ao Tibete; a António Pereira de Figueiredo (1725-1797), oratoriano, natural de Mação, conselheiro e confessor do Marquês de Pombal, gramático e latinista por excelência; a Joaquim da Silva Tavares (1866 – 1931), cientista afamado, fundador da revista Brotéria, natural de Cardigos; a Sebastião Maria Aparício da Silva (1849-1942), natural da Fundada – Vila de Rei, missionário em Timor, fundador de Soibada e autor do primeiro dicionário Tétum – Português e a João Maia (1923-1999) jesuíta, escritor, professor, poeta e colaborador da Brotéria, também natural do concelho de Vila de Rei. Entre muitos outros.

            Todos eles têm em comum, além de terem nascido neste território, agora dito do PINHAL, o facto de terem prosseguido os seus estudos em seminários católicos, tal como muitos de nós aqui presentes, o que nos convida a revisitarmos o importante papel desempenhado pela Igreja na promoção e na mobilidade social das populações rurais do Portugal mais profundo.

            Contudo, hoje, o dia é para MANUEL ANTUNES.

É fácil falar de MANUEL ANTUNES, tal é o conjunto publicado dos seus escritos e as centenas de referências biobibliográficas sobre a sua obra. Difícil é falar de MANUEL ANTUNES em 30 minutos e quase impossível é dizer algo que nunca tenha sido dito sobre esta personalidade impar da cultura e do pensamento português do século XX.

            Vou tentar abordar alguns aspectos menos conversados da sua vida e da sua obra.

 

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Recordar MANUEL ANTUNES

No início de Novembro de 2018, decorreu entre a Assembleia da República, a Casa da Cultura da Cultura da Sertã e a Fundação Calouste Gulbenkian um Congresso Internacional: “REPENSAR PORTUGAL, A EUROPA E A GLOBALIZAÇÃO. 100 anos Padre Manuel Antunes, S.J.”). Folheando o Livro de Resumos do evento, entre as mais de 120 comunicações, é possível percebermos a pluridimensionalidade da sua obra e apenas recordo os títulos de algumas comunicações: “Padre Manuel Antunes, humanista e paladino das humanidades”, “O Homem espuma contra o Homem todo: Apontamentos para uma leitura sobre direitos humanos na obra do Padre Manuel Antunes”, “Repensar Portugal e a ideia de Europa. Pensamento Contemporâneo”, “Manuel Antunes, SJ – História e Cultura”, “Manuel Antunes, crítico de Pessoa, Pascoais e Régio”, “Um homem de Deus na Cultura…”,”Relações do Padre Manuel Antunes com a elite política portuguesa no período democrático”, “NA expectativa do ensino livre, à luz do Padre Manuel Antunes”, “Ética, política e direito democrático…”, “O Padre Manuel Antunes e a ciência”, “… Para uma espiritualidade da globalização em Padre Manuel Antunes”,” Padre Manuel Antunes e George Steiner, intérpretes do mundo contemporâneo”, “A serena demanda da justiça social em Manuel Antunes”, “O Padre Manuel Antunes e a concretização da reforma das Faculdades de Letras em 1957”,” A razão da fé”, “O imperativo da “revolução moral”: O Padre Manuel Antunes e a civilização luso-brasileira”, “O concelho da Sertã na pseudonímia do Padre Manuel Antunes”, “ … Para uma espiritualidade da globalização em Padre Manuel Antunes”, “Manuel Antunes e Fernando Pessoa: Uma proposta de diálogo”, “Manuel Antunes: O lugar das Humanidades no futuro da Educação”, “Traços transdisciplinares na obra do Padre Manuel Antunes…”, “ Padre Manuel Antunes: Um homem em busca do tempo”, “Padre Manuel Antunes: Portugal e a globalização”, “ … Padre Manuel Antunes, o bom semeador, na Faculdade de Letras”, “Política e prospectiva em Manuel Antunes”, “O Padre Manuel Antunes e o olhar para as minorias”, “A importância dos partidos na iniciação política dos jovens segundo o Padre Manuel Antunes”, “Manuel Antunes, filósofo da educação”, “Um sábio muito humano”, “Ensinar a pensar a escola”, “Padre Manuel Antunes, o crítico literário”, “Padre Manuel Antunes. Filosofia da cultura e cultura da filosofia”… Ficamos com uma ideia da multidimensionalidade do pensamento e da obra do agora homenageado.

Todos recordamos MANUEL ANTUNES. Existem imagens suficientes para lhe definir um retrato físico e muitas são as palavras utilizados para lhe traçarmos um perfil psicológico. “Aquele mínimo de voz, que tinha peso”, a delicadeza, a humildade, a modéstia, a doçura, a sabedoria, a alegria, o humor, a fragilidade, a sobriedade, a finura, a timidez aparente, a coragem, a suavidade, a confiança, (…) são vocabulário abundantemente usado por quem com ele privou para o definir. O Padre João Maia, amigo que o conhecia bem, costumava dizer que “era um homem de grandes certezas e tinha a inflexibilidade dos mansos” e que “mesmo quando era objecto de injustiça, mantinha um equilíbrio de homem que trazia no rosto uma espécie de rito sofredor que lhe vinha talvez, ou sem talvez, de uma infância dorida, de uma adolescência consciente de grandes problemas íntimos …”

MANUEL ANTUNES nasceu aqui na Sertã, em casa de seus pais na Abegoaria, às duas horas do dia 03 de Novembro de 1918. Seu pai era natural de Oleiros e sua mãe, de Proença-a-Nova. Era o filho primogénito de um casal de origens muito humildes, o pai era jornaleiro e a mãe doméstica, analfabetos e pobres num ambiente rural de agricultura de subsistência cheio de dificuldades naturais do final da 1.ª Grande Guerra e que uma cheia em 1915, na Sertã, tinha vindo agravar. O pequeno Manuel começou a frequentar a escola primária Conde Ferreira, mesmo aqui al lado, e cedo começou a chamar a atenção da professora pela sua viva inteligência e interesse pelos estudos. O caminho do seminário aparece como sequência natural onde apenas os filhos dos mais abastados poderiam prosseguir os estudos noutras escolas.

Foi estudando em Portugal e no estrangeiro, nos seminários jesuítas e em diversas universidades, até chegar ao ano de 1957 quando foi convidado por Vitorino Nemésio para leccionar História da Cultura Clássica que havia sido introduzida no plano das licenciaturas na Faculdade de Letras de Lisboa como obrigatória nos cursos de Filologia Clássica, Filologia Românica e Filologia Germânica, de História e Filosofia. Consta que, ao receber o convite, teria avisado Vitorino Nemésio de que precisava de 10 anos para conceber e preparar o programa da cadeira. Ele, que tinha passado a vida estudar e a ensinar Cultura Clássica nos colégios e universidades da Companhia de Jesus e tinha uma preparação específica acima da média, não se sentia preparado para a tarefa! Claro que não esgotou os 10 anos. Bastaram meia dúzia de meses…

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Em 1969 a disciplina de História de Cultura Clássica deixou de ser comum àqueles cursos como disciplina obrigatória do 1.º ano ficando reduzida aos alunos de História e Filosofia. Foi assim que o fui encontrar como meu professor nessa disciplina no início dos anos 70.

Dava aulas teóricas no famoso anfiteatro N.1 da Faculdade, com capacidade para 350 pessoas, invariavelmente cheio de alunos interessados. Certamente sempre mais de 350 porque com alguma frequência vinham alunos de outras faculdades assistir às suas lições e até nas coxias havia alunos sentados. O silêncio era total e a sua voz, tímida e sumida, era perfeitamente audível.

O professor MANUEL ANTUNES era de uma clareza sintética extraordinária. Todos percebíamos o que ele dizia. As dúvidas surgiam quando começávamos a reflectir no conteúdo das suas mensagens, quando passávamos “do termo ao conceito”, como ele estava constantemente a aconselhar que fizéssemos…

Nunca fui um aluno brilhante nem de dar nas vistas. Nas aulas de MANUEL ANTUNES, era um daqueles 350 indiferenciados que me situava nas filas do meio do anfiteatro. Tinha estado apenas em duas aulas de Cultura Clássica e ainda não tinha feito qualquer intervenção na aula. Naquele início dos anos 70, as casas regionais desempenhavam um papel muito importante em Lisboa na integração social das populações rurais que iam abandonando o interior na demanda de uma vida melhor na grande cidade. A Casa da Comarca da Sertã era uma delas e eu frequentador assíduo dos bailaricos ao fim de semana na rua da Madalena. Um dia vejo lá agendada uma palestra pelo Padre Manuel Antunes para o fim-de-semana seguinte. Como não podia deixar de ser, apareci. Já não me lembro do tema mas, no final, pus-me na fila e fui dar os parabéns ao ilustre palestrante. Ele olhou para mim com ar admirado e atirou: “- O Sr. é meu aluno na faculdade! Não me diga que é meu conterrâneo?!” Lá fui dizendo que não era bem conterrâneo mas vizinho. Que era natural de Cardigos. (Afinal a Casa da Comarca da Sertã também tinha um âmbito territorial que se estendia a Cardigos e Amêndoa que, embora do concelho e Mação, pertenciam então à Comarca da Sertã.) “- Olhe, aqui não há oportunidade de falar mas vá ter comigo lá na Faculdade.” Na semana seguinte, no final de uma aula acedi ao convite e fui ter com o professor. Era simples o que ele tinha para me dizer. Que quando tivesse algum problema, o fosse procurar e se precisasse de consultar bibliografia específica para trabalhos académicos que fosse ter com ele à casa da Brotéria que a biblioteca estava à minha disposição. O que aconteceu várias vezes, não só comigo mas com todos os alunos. Era de uma disponibilidade quase total como professor.

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Por falar em Brotéria, recordo que ele foi dela director desde 1965 a 1982, tendo publicado artigos regularmente desde 1940. Julgo que não estarei enganado se disser que foram mais de 400, sobre as mais diversas temáticas, assinados com mais de 120 pseudónimos, muitos deles inspirados na toponímia do Pinhal como: Trízio, Mougueira, Cumeada, Isna, Amioso, Ermida, Azinhal, Palhais, Cardigos, Sobreira, Avelar… Há quem diga que a escolha destes topónimos remete para um certo bairrismo e revela a importância que ele atribuía às suas raízes, ele que, ainda no dizer de João Maia, “era um homem enraizado” e de “vasto saber, de saber europeu, digamos assim, a começar nas raízes gregas e latinas”. Relativamente aos topónimos, correm mais duas teorias interessantes. Uns opinam que, tendo a Brotéria em determinados períodos poucos colaboradores, era ele que escrevia a maior parte dos textos sobre os mais diversificados assuntos e o uso dos pseudónimos seria uma forma de esconder o facto. Outros garantem que era uma forma de ludibriar a censura que então se abatia sobre a imprensa. Seja como for, são apelidos da região do Pinhal que inspiraram Manuel Antunes.

A maior parte dos textos de MANUEL ANTUNES foi escrita ao longo dos anos, em forma de artigos, nas páginas da BROTÉRIA e os livros que foram editados resultam de compilações desses textos. Alguns tornaram-se conhecidos e quero fazer-lhes aqui uma referência especial: “Do Espírito e do Tempo”, 1959;“Grandes Derivas da História Contemporânea”, 1972; “Occasionalia. Homens e Ideias de Ontem e de Hoje”, 1980 e, de todos o mais badalado, “Repensar Portugal”, 1979. Já neste milénio, a Fundação Calouste Gulbenkian promoveu a edição completa e crítica da sua Obra Completa.

Sem querer comentar qualquer passagem específica não poderia deixar de citar duas ou três passagens dos seus escritos numa selecção quase aleatória mas para mim significativa e actual:

“Pretendeu-se (…) eliminar a necessidade e a urgência daquela reforma das mentalidades, daquela mutação dos valores, daquela revolução dos costumes e das instituições, de tudo aquilo, numa palavra que constitui o viver de um Povo, na sua mentalidade, na sua história, na sua cultura”

“ É o descrédito, terrivelmente perigoso, de uma classe política pouco preparada, que rapidamente ascendeu, e não menos rapidamente está a declinar a olhos vistos, devido à incompetência, ao oportunismo, ao demagogismo e à excessiva partidarização dos seus quadros”. (Reflexões feitas cinco anos depois do 25 Abril, no Prefácio do “Repensar Portugal”)

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Hoje, quando a própria UNESCO se preocupa com a menor atenção dada ao ensino das Humanidades em prejuízo das Tecnologias e das Ciências e prepara a definição de novas linhas orientadoras para o Ensino e a Educação a nível mundial, recordo o que  Manuel Antunes já escrevia no n.º 95 da Brotéria, em 1972:

 ” Na evolução da espécie humana, depois do homo faber, que aprendeu a construir instrumentos, seguiu-se o homo sapiens, com capacidades intelectuais superiores, e, no dizer de alguns estudiosos, ao homo sapiens sucedeu o homo mechanicus. É um produto da modernidade que começa com Francis Bacon, Galileu e Copérnico, continua com Descartes, Newton, Leibniz, com a Revolução Industrial, com o liberalismo económico… e chega ao relativismo, à física quântica, à cibernética … É um conquistador da Natureza e do próprio Homem mas, simultaneamente, um predador do Universo. É o “ homo modelado pela máquina no seu modo de pensar, de imaginar e de se comportar.” (…) O homo mechanicus foi perdendo a compreensão do global e a sua confiança ilimitada na ciência e na técnica pode degenerar em exclusivismo e negar outras formas de conhecimento e outras abordagens à realidade. A Ciência e a Técnica passaram de servas e dependentes da Filosofia e da Religião a senhoras e dominadoras, quase negando a outras disciplinas o seu campo próprio e criando esperanças, expectativas e promessas que depois não cumprem. Nem podem cumprir. Por isso, a pouco a pouco e às apalpadelas, se foi abrindo o caminho para a contestação deste “império universal da ciência e da técnica”. Por isso se foi criando e foi crescendo a consciência da necessidade de andar por outros caminhos que não só por uma via única, rectilínea e exclusiva do progresso material. Por isso se foram tentando múltiplas experimentações e ensaiadas outras dimensões do humano que, apesar do desvio de umas e o insucesso de outras, tiveram pelo menos o mérito de realizar acções simbólicas significativas. Hoje, não se trata de voltar ao dualismo cartesiano da res cogitans e da res extensa mas de o superar. Agora, importa assumir plena consciência e responsabilidade dessa superação seguros de que, sem ciência e sem técnica, a Humanidade não pode evoluir nem subsistir. É preciso remexer as coisas, e nas coisas, até ao fundo e no global, na diversidade das várias dimensões do real, sem nos contentarmos com agitações parcelares e de superfície, pequenas ou grandes. É urgente agir sobre o próprio pensamento e pensar a própria acção, clarificando totalmente os meios e os fins, para arrumar o espaço exterior e evitar o abandono do mundo interior aos “animais nocturnos”.

Nesta época de crise e de risco permanentes, embarcados numa aventura que tem de ser comum a todo o género humano, precisamos de conhecer, com o mínimo de segurança e discernimento, a rota certa, o caminho que diz liberdade e não opressão, verdade e não engano, totalidade e não parcialidade…

É trabalho de todos, e para todos, contribuir para a descoberta dessa rota. Particularmente daqueles que para isso receberam missão ou dom, dos “especialistas em humanidade”. Que não são necessariamente os especialistas em Ciências Humanas.”

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Recordo que MANUEL ANTUNES recebeu o 25 de Abril como uma necessidade de mudança e de arejamento, até com algum entusiasmo. Refere o saudoso professor Luis Lindley Cintra, seu colega e amigo na Faculdade de Letras, que MANUEL ANTUNES era um “idealista possuidor de um carácter drástico e radical” que evidenciou claramente em 1975, em pleno PREC, ao aceitar, surpreendentemente, fazer parte de um Conselho Directivo da Faculdade eleito por uma lista publicamente apoiada pelo MRPP. Muitos estranharam aquela posição mas Lindley Cintra, que também alinhou com Manuel Antunes, adianta que o fizeram porque lhes parecia que ali havia “qualquer coisa de radical, de drástico, na maneira de falar aos estudantes e que ali estava qualquer coisa de mais  profundo, que ia mais longe que as outras correntes”. Reconhece que talvez se tenham deixado iludir até certo ponto e que muita coisa estava errada mas, naquele ano de 1975, lhes parecia possível aquela mudança. Na opinião do professor de Filologia foi um tempo necessário ao equilíbrio posterior do funcionamento da Faculdade e confessa que nunca se arrependeu confidenciando: “ creio que o P.e Manuel Antunes, com quem falei muitas vezes sobre este assunto, também não estava arrependido.”

Um Padre MANUEL ANTUNES radical! Quem imaginaria?!

Todos hoje reconhecemos a relevância cultural e intelectual de Manuel Antunes. Por isso foi condecorado duas vezes, uma em vida e outra postumamente, por isso a Assembleia da República apresentou um voto de pesar pela sua morte em 22 de Janeiro de 1985 e por isso foi instituído o Prémio Árvore da Vida-Padre Manuel Antunes, atribuído pela Igreja católica, através do Secretariado Nacional da Pastoral da Cultura, para destacar um percurso ou obra que, além de atingirem elevado nível de conhecimento ou criatividade estética, reflictam o humanismo e a experiência cristã.

Na 15.ª edição, este ano, foi distinguido o Professor José MATTOSO, curiosamente também meu Professor na Faculdade de Letras na disciplina de História Medieval de Portugal, nos anos 70. Ao receber a notícia da distinção, José Mattoso declarou-se «muito honrado» e referindo-se a Manuel Antunes declarou que o tem em elevada veneração e que o considera “um dos mais importantes agentes da renovação intelectual cristã em Portugal» vincando que Manuel Antunes “com exemplar serenidade lutou contra o obscurantismo clerical e soube conciliar a fé com a razão.”

Por falar em FÉ e em RAZÃO, quero terminar com um desabafo feito por um antigo professor meu do mestrado em História de Educação, ROGÉRIO FERNANDES, amigo de Manuel Antunes durante muitos anos. Estávamos a conversar sobre o homenageado e Rogério Fernandes sai-se com esta: “Sabe, meu amigo, nunca percebi como era possível que uma pessoa tão culta e tão inteligente acreditasse tão convictamente em Deus.”

 Na verdade, Rogério Fernandes, agnóstico, não podia perceber. Mas, razão tinha ALMADA NEGREIROS que, encontrando certo dia MANUEL ANTUNES à esquina do teatro D. Maria, quando ele se afastou, olhou para o Rossio, apontou o dedo indicador para onde seguia o ilustre jesuíta e exclamou: “Sim senhor! Vi hoje um homem que é só espírito.”

Meus amigos e minhas grandes amigas, é o ESPÍRITO desse homem superior que hoje aqui evocamos e que permanece entre nós com sua mensagem pluridimensional e orientadora.

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Termino, agora é que é, parafraseando o grande JORGE DE SENA: “Só conta tudo quem tiver muito pouco para contar.”

  E muito mais haveria que contar sobre este ilustre sertaginense. Talvez nos voltemos a encontrar para falar de MANUEL ANTUNES. Obrigado pela paciência que tiveram em escutar-me.

Casa da Cultura da Sertã, 18 de Maio de 2019

António Manuel Martins da Silva

SERTÃ - RELATÓRIO e CONTAS

01.06.19 | asal

ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DOS SEMINÁRIOS DA DIOCESE DE

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PORTALEGRE E CASTELO BRANCO

COMISSÃO ANTIGOS ALUNOS SPCB

(comasalpcb@gmail.com)

(asal.mail@sapo.pt)

  

BREVE RELATÓRIO E CONTAS DO ENCONTRO DA SERTÃ - 2019

Caros Associados e Amigos,

A Comissão Administrativa da nossa Associação promoveu mais um Encontro dos seus membros e amigos, na Sertã, para o qual chegou a contar com 130 inscrições, tendo a final registado a presença de 125 antigos alunos e acompanhantes, por impossibilidade de comparência dos restantes. Tudo fizemos para que houvesse o maior número possível de participantes, nomeadamente através do envio de 230 e-mails e de 30 circulares, pelos CTT, para além da divulgação feita no nosso Blogue e na nossa página do Facebook, do seguinte

 

PROGRAMA

1.º - Concentração - Receção na igreja matriz da Sertão, inscrições (25,00 € per capita), fotografias e convívio, a partir da 10H30, com oferta de uma embalagem de Tisanas do João Chambel a todos os participantes.

2.º - Missa – Celebração eucarística presidida pelo Bispo da Diocese, D. Antonino Dias, pelas 12H00, na igreja matriz. No ato da inscrição será facultado um envelope para, quem quiser, entregar no ofertório uma dádiva para a Diocese.

3.º.- Almoço - Pelas 13H00, no restaurante “Ponte Velha”, na Rua do Convento, tel. 274 600 160.

4.º - Sessão na Casa da Cultura - Pelas 15H30, com a seguinte

ORDEM DE TRABALHOS

     - Ponto 1 - Apreciação e votação do Relatório de Atividades e Contas da Associação, referente ao ano de 2018.

     - Ponto 2 - União das Associações dos Antigos Alunos dos Seminários Portugueses (UASP) – Como aderir com o estatuto de Observador.

     - Ponto 3 – Marcação do lugar do Encontro de 2020.

     - Ponto 4 – Intervenções diversas

     - Ponto 5 – Palestra sobre o Padre Manuel Antunes, pelo António Manuel Martins Silva.

 

5.º- Homenagem ao Padre Manuel Antunes - Deposição de uma coroa de flores na sua estátua e passagem pela Biblioteca “ Padre Manuel Antunes”.

 

6.º - Lanche - Pelas 17H30, na sede dos escuteiros do Corpo Nacional de Escutas (CNE) da Sertã

 

7.º - Encerramento pelas 18H30.

 

O Encontro decorreu num ambiente de alegria e num espírito de grande cordialidade e amizade, sendo de realçar:

 

- A presença e apoio de um número tão significativo de antigos alunos, alguns vindo de longe, que aqui saudamos especialmente na pessoa do José de Jesus André que se deslocou propositadamente de Strasbourg para participar no Encontro;

 

- A presença e a confiança do Senhor Bispo, D. Antonino Dias e as suas palavras amigas, na eucaristia a que presidiu, concelebrada também pelos nossos companheiros e antigos alunos, Cónego Lúcio, Pe Cardoso, Pe António Neto, Pe Joaquim Matias e Pe Manuel Mendonça;

 

- A dedicada colaboração do Pires Antunes e do grupo de solistas que dirigiu durante a missa (antigos alunos e paroquianos da Sertã), acompanhados pelo nosso organista António Colaço que saudamos neste seu regresso à solenização musical da eucaristia;

 

- As presenças do Senhor Presidente da Câmara da Sertã, José Nunes e da Dr.ª Adelaide Canas em representação da Casa da Comarca da Sertã, em Lisboa;

 

- O excelente almoço no restaurante “Ponte Velha”, com a ementa acordada, rigorosamente cumprida pelo Senhor Helder Marçal;

 

- A brilhante palestra do António Manuel Martins Silva sobre a vida e a obra do Pe Manuel Antunes, na sessão das 15H30, na Casa da Cultura, destacando o percurso de vida e a craveira intelectual deste sacerdote jesuíta, grande pensador do século XX, natural da Sertã, culminando as comemorações do centenário do seu nascimento que tiveram lugar no ano de 2018 e princípios de 2019;

                                                                        

- O reconhecimento, com aplauso, na mesma sessão, do trabalho do António Henriques dinamizando o Blogue “Animus Semper” e a Página do Facebook “Animus Semper Antigos Alunos”, mediante proposta do João Lopes; as palavras sentidas do António Colaço agradecendo a solidariedade dos elementos do grupo durante a sua prolongada doença e convalescença, e a sua manifestação de apreço através da oferta de uma serigrafia do seu mais recente trabalho artístico criado no âmbito das comemorações do 25 de Abril;

 

- O anúncio de um novo livro do Joaquim Nogueira contendo os seus escritos publicados nos últimos anos no Blogue “Animus Semper” e a apresentação do livro “O Meu Seminário” pelo seu autor, José Alves Jana, repositório das suas memórias durante o seu tempo de seminário que são, na generalidade também as memórias da maioria dos nossos associados e amigos, antigos alunos.

 

- A homenagem ao Pe Manuel Antunes, mediante a deposição de uma coroa de flores na sua estátua com recitação in loco de um poema alusivo à sua figura, pelo autor, Miguel Manso, filho de um dos nossos companheiros, Francisco Manso e subsequente visita à Biblioteca “Pe Manuel Antunes”, onde fomos presenteados com bibliografia diversa sobre a mesma temática.

 

- A marcação do Encontro na diocese, em 2020, para o dia 16 de maio, no Seminário de Alcains.

 

- A dedicada colaboração do Pe Daniel, pároco da Sertã, que nos acompanhou nos trabalhos preparatórios e durante o Encontro, e nos proporcionou as instalações da sede do CNE para o lanche, para além de que sempre foi de uma simpatia inexcedível, correspondendo com rapidez e eficiência a todas as nossas solicitações;

 

- O trabalho de inscrição dos participantes, do Joaquim Nogueira e do Pires Antunes, durante a viagem de autocarro e do António Henriques e do José Andrade na receção na Sertã.

 

 - A aprovação do Relatório de Atividades e Contas, da Associação, referente a 2018;

 

- O trabalho dos nossos fotógrafos de serviço, José Ventura, António Eduardo Oliveira e António Manuel Martins Silva e a resposta ao nosso apelo, dos nossos escritores Florentino Beirão e José Alves Jana, com livros da sua autoria e dos produtores agrícolas João Chambel e Saúl Valente que apresentaram os seus chás e azeite, respetivamente, muito apreciados pelos seus adquirentes.

 

Todos estão de parabéns e merecem a nossa gratidão, assim como todos aqueles que não puderam comparecer, mas que nos mandaram mensagens de felicitações e estiveram irmanados connosco no mesmo espírito.

 

A título informativo, damos conhecimento das contas, pela forma seguinte:

 

R E C E I T A

 

Inscrições                                                                                                 3.025,00 €

Autocarro                                                                                                    390,00 €

Quotização                                                                                                    27,00 €

Donativos                                                                                                    113,99 €

                                                                                              

                                                                                               Soma          3.555,99 €

D E S P E S A

 

Almoço                                                       2. 500,00 €

Lanche                                                            157,40 €

Autocarro                                                        450,00 €

Seguro de Acidentes Pessoais                            199,83 €

Tisanas                                                              60,00 €

CTT – Envio de Circulares                                   16,58 €

Coroa de flores                                                  50,00 €

 Paróquia Sertã (Complemento Donativo)            62,18 €

                         

                          Soma                                  3. 495,99 €

 

SALDO POSITIVO                                                                                       +60,00 €

NOTAS: 1- Donativo (Ofertório na Missa) já transferido para a Diocese           1 000,00 €

 

  1. Donativo para a Paróquia da Sertã, já transferido                                    250,00 €

 

  1. Há a liquidar o valor da palma para o funeral do José da Luz Carvalho, em Abril de 2019, no montante de 60,00 €, pelo que nada há a transferir para o Fundo Solidariedade da Associação.

 

Saudações Associativas

A Comissão Administrativa, em 28 de Maio de 2019

Um livro em recensão - 1

01.06.19 | asal

 ALVES JANA, José, O meu Seminário (1963- 1974), Edição do Autor, 2019, 159 pgs

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 1.ª Parte

 

  “ … o que interessa não é o que eu digo, mas o que o outro percebe” Alves Jana, op.cit. p.133

  “ Chaque jour, nous laissons une partie de nous-mêmes en chemin” Amiel (1883)

 

 

   A razão de um título e a “CASA” como o INCIPIT das memórias.

Muito avisado andou o autor ao escolher para título da sua obra o  meu Seminário e não o nosso, para, desde logo, marcar,  com o cunho pessoal da sua história e o traço  distintivo e peculiar da  escrita, a revisitação do “seu” passado e a experiência de formação em ambiente comunitário.

De facto, as memórias, conquanto partilhadas, são, antes de mais, património do EU que nelas se narra e reflecte, assim como da sua circunstância da qual faz parte todo um leque de personagens reais( ou pessoas)  com diferentes estatutos e funções. O tecido leve das lembranças do convívio do Eu com os Outros cobre uma fracção de tempo de 10 a 11 anos, sendo que o Eu que assume a narração, o faz 40 anos volvidos sobre as primeiras ocorrências. Por que tanto tempo depois? Não eram as memórias, suficientemente fortes e significativas para, só por si, desencadearem o momento inaugural e recriador da escrita? Se um homem, treinado nas lides do pensamento e da comunicação, se retrai e hesita,  é porque tem razões  desconhecidas que não são da nossa conta. Apenas aqui se constata que o António Lopes da Manhã Submersa tem o mesmo tipo de hesitação. “ Cem vezes por isso resolvi escrevê-la, cem vezes desisti” A verdade é que, não fora o empurrão do nosso inolvidável colega e amigo Colaço,  e este precioso  DOCUMENTO teria  jazido para sempre no limbo do esquecimento.

Uma segunda razão prende-se com a imagem negativa e sombria dos seminários, como um tempo de aprisionamento desfigurador, que uma certa literatura se apraz em divulgar, ao arrepio da evolução dos tempos e da Igreja. Não é que não haja uma ponta de verdade nessa versão, como o nosso seminarista o provou à saciedade na experiência do seu primeiro seminário de dois anos apenas. Mas modus in rebus!  E o autor vai, de uma forma brilhante, desmistificar a ideia de um locus horrendus ou um subterrâneo da liberdade, concentrando a atenção na descrição inicial do edifício dos cinco lugares por onde passou, como se a “CASA” constituísse um arquétipo de intimidade e de construção da personalidade dos que nela habitam e se acolhem.

No princípio, era a casa… Assim começa cada capítulo.  E entre o casarão e as pessoas (alunos e profs) pervagando por corredores imensos e cumprindo os rituais de passagem do tempo, estabelece-se  uma subtil relação metonímica  que dá sentido ao contexto daquela vida em comum.

O sentido da gradação ascendente da qualidade de vida naquele espaço real e simbólico torna-se um leitmotiv da escrita.  A visão das brumas invernais do Gavião, um tempo traumático de opressão e sofrimento, pouco tem que ver com os  esplendores primaveris de Alcains, onde as relações com os profs, os  campos desportivos, as aprendizagens, a vida espiritual e litúrgica, o Escutismo …  a iniciação ao Jornalismo, tudo constitui novidade e surpresa num tempo decisivo da vida do adolescente.

No entanto, o herói (herói, não no sentido moral, mas narrativo de incarnar a personagem que o narrador segue mais de perto, ou seja, o foco mais intenso da sua atenção) não deixa de lamentar um resto de claustrofobia naquele espaço cercado. O instinto de liberdade fá-lo sonhar com a exploração (por ora impossível!) do desconhecido, sem restrições, ouvindo o som dos próprios passos… É verdade que já não tenta a fuga como no Gavião!  Mas lá está ainda a revolta interior por não poder atravessar livremente a aldeia, ver pessoas, conversar… e cortar com a solidão, que, de quando em vez, o dilacera. Sente-se dividido entre as saudades do lar e o ambiente de alegria e bem-estar, as possibilidades intelectuais que um Seminário, de cariz mais humanista, lhe oferece.

Em Portalegre, o mesmo incipit… ” A aproximação do seminário - Seminário Maior - tinha o choque positivo da imponência, muito acima do que experimentámos em Alcains” p. 83. E, apesar de ali encontrar o ambiente ideal de formação, mais adequado ao seu temperamento, de gosto pela tranquilidade e desafio intelectual, aquele espaço, ainda vigiado, ergue-se na consciência de cada um, como um adversário a abater.  Ele ( o P. Augusto) era o vice-reitor, o chefe da casa. E nós tínhamos a clara noção de que as regras da casa eram ao mesmo tempo formadoras e deformadoras. Discutíamos por isso taco a taco com ele  cada uma das regras da casa. Por exemplo, não termos liberdade de sair do seminário quando quiséssemos.” (p.113). Naquele ano da morte do  Ditador,  da Primavera Marcelista e do rescaldo do Vaticano II, a tensão espacial e cultural  entre Seminário versus Mundo tinha de ser superada. O  conflito acaba por se dissolver em Valadares (1971 - 73). E mais uma vez, a Casa  tem as honras de uma entrada eufórica, quase triunfal: “ Não fazia a mínima ideia do tipo de casa que iríamos encontrar, mas era já uma casa desejada: pela superação da que deixávamos para trás, pelo fascínio da grande cidade, o Porto, e pelo desafio dos estudos, que adivinhávamos serem ali mais a sério(p. 117). Humaniza-se o espaço dos quartos “ Acolhedores, de materiais quentes,  chão de platex…(p.118), tudo, em conformidade, com uma experiência de formação, intelectual e pastoralmente mais gratificante.  Até na rica, transformadora e curta experiência de seminarista-operário em França, as casas, convento, residência operária para jovens e  a visita a casa de dois casais merecem a feliz menção do narrador.  E no Pego, (73-74) a casa desempenha também um papel primordial na vida do nosso “herói”, ao iniciar o seu Estágio, “  Mas, ali, senti-me em minha casa  desde o início, (itálico meu) sem dúvida mérito do P. Leitão, pois foi ele que me acolheu como se nos conhecêssemos há muito.” (p.148)  

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O motivo do início, do INCIPIT, dá o tom à narração, cria a atmosfera e a moldura, como  lugar canónico  do Espaço,  visto na perspectiva intimista do autor,  o chão ajardinado para o crescimento das plantas, das  flores e dos frutos.

Admira-se a sabedoria narrativa do Alves Jana, por ter percebido o alcance e o significado deste tópico, tão  etimológica e simbolicamente  apropriado a uma casa e  instituição como o Seminário. 

João Lopes 

 

Aniversário

01.06.19 | asal

PARABÉNS!

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Hoje é o dia do José Martins Duarte, que entrou no seminário em 1965-66, com outros colegas como o Cón. António Assunção, o Aníbal Henriques, o Alves Jana ou Tobias Delgado.

Nascido em 01-06-52, temos apenas do José Martins Duarte o seu n.º de telefone: 965 869 818.

E como tínhamos um n.º de telefone, tentámos um contacto há dois dias. E o José Martins, quase arrependido do seu isolamento do grupo, motivado também pelos ossos do ofício (ficámos a saber que é advogado), ainda nos falou dos esforços do Colaço para unir a malta (atenção, António, não estás esquecido!...). Tentámos assim uma aproximação via email e esperamos novas notícias...

Por agora, ficam aqui registados os PARABÉNS DO GRUPO, com votos de muita saúde e felicidade. AH

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