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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Centenário das aparições (3)

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(Mais uma abordagem ao Centenário das aparições em Fátima, numa síntese histórica do Florentino Beirão. Obrigado. AH)

 

Guerra, segredo, milagre

 

Após analisarmos o ambiente político e sócio- religioso das “aparições”, entremos no âmago do fenómeno, referindo sucintamente os diálogos da Senhora “da voz doce”, na descrição de Lúcia. Tudo se iniciou em 13 de maio de 1917 por volta do meio – dia, quando três crianças analfabetas, após a “Missa das Almas” de domingo, se deslocaram com um pequeno rebanho de ovelhas para a Cova da Iria, a dois quilómetros de Aljustrel, sua terra natal.

Surpreendidos por fortes trovões, quando tentavam o regresso a casa, confessaram ter visto uma Senhora, ainda muito jovem, pousada numa azinheira, vestida de branco, com meias brancas nos pés, saia branca pelos joelhos, brincos, cordão de ouro e com as mãos abertas.

Nos interrogatórios, efetuados pelo pároco de Fátima Manuel Marques e por outros sacerdotes, confidenciaram que a Senhora lhes disse que não tivessem medo, que “vinha do céu” e que queria a sua presença neste lugar, nos próximos seis meses.

Como a I Guerra- Mundial (1914-1918) atormentava as famílias que viram partir os seus filhos para a frente de combate- com saída de milhares, em janeiro de 1917 - Lúcia, muito preocupada, terá perguntado à Senhora “se a guerra ainda vai durar muito tempo”. Porém, a resposta, terá sido evasiva: “Não te posso dizer ainda”.

Apesar da vidente recomendar aos primos que não espalhassem a notícia, Jacinta, a mais nova com sete anos, que só ouvira os diálogos da Senhora com a Lúcia, não se conteve e foi espalhando o segredo. A nova correu tão célere, que na aparição de 13 de junho, festa do padroeiro Santo António em Fátima, com bodo, já se juntaram cerca de duas dezenas de curiosos na Cova da Iria. Nesta aparição, a Senhora apenas ordenou às crianças que aprendessem a ler. Porém, a mãe de Lúcia não terá facilitado a concretização deste desejo. Como certo, apenas o Francisco frequentou a escola no ano seguinte.

Chegado o 13 de julho, já com 2.000 pessoas presentes, voltou o tema da guerra, solicitando a Senhora a reza do terço para “abrandar a guerra”. Por seu lado, Lúcia terá pedido um sinal milagroso, para as pessoas acreditarem, as melhoras de doentes e a conversão de algumas pessoas. Jacinta por sua vez, ora dizia que ouvia falar a Senhora ora negava. Francisco, um pouco à margem, confessava que não falava nem ouvia. No local, apareceu já um altar, flores e lanternas. A partir desta aparição, as crianças começaram a falar de um suposto segredo.

Por seu lado, a imprensa nacional e regional, agarrou a notícia do acontecimento, esgrimindo ideologicamente com veemência, os seus argumentos pró e contra.

Entretanto as forças republicanas radicais em guerra com a Igreja, perceberam que a situação lhes fugia ao controlo. Para contrariar a já tão elevada adesão de pessoas, o Administrador da Vila de Ourém, Artur Santos, um republicano maçon, às ordens dos camaradas de Lisboa, decidiu em 13 de agosto, raptar as crianças para a sede do concelho e interroga-las. Deste modo, pensava que tiraria algum entusiasmo aos seis mil devotos. O resultado ditou o contrário. Na voz do pai da Jacinta, Pedro Marto, “ficando o povo desesperado”, a revolta das pessoas atingiria uma elevada temperatura.

Como foi impedido o encontro na Cova da Iria, a Senhora terá compensado as crianças com uma nova aparição nos Valinhos em 19 de agosto, perto de Aljustrel. Nesta aparição, a Senhora, respondendo a uma questão levantada pela Lúcia, terá referido que o dinheiro recebido na Cova da Iria deveria ser investido em dois andores para a procissão da Srª.do Rosário em Fátima, e ainda na construção de uma capela no local das aparições.

Chegados a 13 de setembro, a mãe de Lúcia, Maria Rosa, já muito doente, com receio da filha ser molestada, acompanhou-a ao local das aparições. Neste mês, o tema do diálogo regressou novamente à guerra mundial, então ao rubro. A Senhora “para “abrandar a guerra”, pediu aos pastorinhos a reza do terço. Lúcia, já envolvida por cerca de 25 mil pessoas, às quais prometeu um milagre para outubro, intercedeu por alguns doentes e pela conversão de outros. Em 13 de Outubro, dia chuvoso, o centro foi o “milagre do sol - uma roda de fogo a bailar”, atraiu a atenção dos devotos - cerca de 45 mil pessoas, do Algarve ao Minho. A Senhora terá garantido: “a guerra acaba ainda hoje” (terminou em 11.11.1918). Lúcia relatou ainda uma visão onde aparecia S. José, o Menino Jesus e Nosso Senhor, “com barbas pequenas”. A suposta visão despediu-se, rogando às crianças que rezassem o terço e “não ofendam mais a Nosso Senhor”.

florentinobeirao@hotmail.com

ACTA N.º 1

Para votarmos em consciência e com conhecimento de causa, uma vez que em Marvão não vão ser distribuídos estes papéis, aqui se apresenta o documento a votar em 20/05/2017.

 

ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DOS SEMINÁRIOS

DA DIOCESE DE PORTALEGRE E CASTELO BRANCO

                       

ATA N.º 1

 

Aos vinte e um dias do mês de maio do ano dois mil e dezasseis, pelas quinze horas, reuniu, no Hotel Colina do Castelo, em Castelo Branco, a Assembleia Geral da Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco (ASAL), nos termos do artigo 8.º dos respetivos Princípios Programáticos Estatutários, designados abreviadamente por “Estatutos” com a seguinte Ordem de Trabalhos:

 

1.º   Apreciação e votação do Relatório de Atividades e Contas do ano de 2015;

2.º   Rubrica “NÓS, AGORA” – Pintura (Francisco Amaro) Medicina (António Lopes) Literatura e Direito (Manteigas Martins);

3.º Rubrica “OLÁ, PROFESSORES” - Leitura do Texto (António Henriques) - Leitura de Poemas por João Lopes, Joaquim Mendeiros, António Lopes e Francisco Amaro;

4.º   Período depois da Ordem de Trabalhos – Diversos;

5.º   Encerramento da reunião com informação/proposta do local do encontro de 2017.

 

Procedeu-se à constituição da Mesa da Assembleia, a qual, por proposta da Comissão Administrativa e aprovação unânime dos presentes, foi constituída por António Rodrigues Lopes, como Presidente, Manuel Francisco Pereira, como Secretário, e Alexandre Lourenço Nunes, como Relator.

 

Aberta a sessão, o Presidente António Lopes saudou os presentes e procedeu à leitura da convocatória, passando de imediato à discussão e votação dos assuntos constantes da ordem de trabalhos, pela forma seguinte:

 

Ponto Um (Apreciação e votação do Relatório de Atividades e Contas de 2015):

 

O Presidente da Mesa deu a palavra ao Secretário da Comissão Administrativa, Joaquim Mendeiros, que fez uma breve síntese do Relatório de Atividades e Contas do exercício de 2015, previamente distribuído pelos presentes, explicando as atividades desenvolvidas pela Comissão e os movimentos de receita, despesa e de execução orçamental.

Postos à votação, o Relatório e as Contas de 2015 foram aprovados por unanimidade.

 

Ponto Dois (Rubrica “NÓS, AGORA” – Pintura (Francisco Amaro) Medicina (António Lopes) Direito (Manteigas Martins) e Literatura (João Oliveira Lopes).

 

Na rubrica “Nós, Agora”: o Francisco Amaro fez uma sucinta exposição sobre as suas atividades no domínio da pintura, mostrou um dos seus quadros e lembrou que, para além disso, se tem dedicado à agricultura e à prática de “caminhadas” com os amigos, como forma de se manter ativo apesar de aposentado; o António Lopes levou-nos pelos caminhos da iniciação à medicina chinesa, prática a que se vem dedicando desde há vários anos, fazendo uma demonstração ilustrada através da projeção gráfica de alguns dos seus princípios essenciais, por computador; o Manteigas Martins fez uma síntese das questões de extrema importância que, em seu entender, se levantam no campo do direito relativas ao imobiliário, ao alojamento local e ao arrendamento, matérias a que se vem dedicando através de conferências por todo o país e da publicação de livros temáticos e o João Oliveira Lopes recordou o mais recente livro do Florentino Beirão “ A Festa das Papas de Alcains”, como uma dos marcos da sua historiografia.

 

A este propósito, tanto o Florentino com este livro, como o Manteigas Martins com um dos seus livros sobre o arrendamento e o Joaquim Nogueira, com um livro de memórias, colocaram alguns exemplares à disposição dos participantes, revertendo os proveitos (resultantes dos pagamentos/donativos segundo o critério de quem os adquiriu), para o Fundo de Solidariedade da Associação.

 

Ponto Três (Rubrica OLÁ, PROFESSORES” )- Leitura do Texto (António Henriques) – Leitura de Poemas por  João Lopes, Joaquim Mendeiros, António Lopes e Francisco Amaro.

 

Na rubrica “Olá, Professores”, foi feita a apresentação de uma brochura titulada “Olá, Professores - I” como expressão do reconhecimento e homenagem dos antigos alunos aos seguintes professores: António Horácio Alves Nogueira, José Geraldes Freire, António Martins Cardoso, Joaquim Milheiro Valente, Manuel Nunes Cardiga, Alberto da Silva Jorge, Libânio Domingos Martins, Lúcio Alves Nunes, Leonel Cardoso Martins, Adelino Américo Lourenço, João Oliveira Lopes e Assis Ribeiro Cardoso, com capa lustrada pelo João Lucas e textos do António Henriques, do Silva Amaro e do Joaquim Mendeiros, lidos pelos seus autores, e ainda pelo João Oliveira Lopes e pelo António Rodrigues Lopes.

 

Pontos Quatro e Cinco (Período depois da Ordem de Trabalhos – Diversos e Informação/Proposta do local do Encontro de 2017, na Diocese.

 

Relativamente aos Pontos Quatro e Cinco, usaram da palavra, no período “Depois da Ordem dos Trabalhos”, o Pe Manuel Mendonça lembrando os 44 anos da sua ordenação nesse mesmo dia, o Pe Lúcio Nunes e o Leonel Martins agradados com a homenagem prestada aos professores, e expressaram-se através de manifestações de apreço relativamente à escolha de Marvão para local do Encontro de 2017, em 20 de maio, nos termos, entretanto, propostos pela Comissão e que teve a aprovação unânime da Assembleia, o Mário Pissarra, o Francisco Cristóvão e o Manuel Bugalho.

 

E nada mais havendo a tratar, o Presidente deu por findos os trabalhos pelas dezoito horas e trinta minutos do mesmo dia, terminando a sessão com a Assembleia cantando e solfejando o emblemático tema do nosso tempo de aprendizagem musical “sol, sol, mi, mi, fá, fá, ré…” com letra adaptada pelo Manuel Pires Antunes.

 

Para constar, se lavrou a presente ata que vai assinada pelos membros da Mesa da Assembleia, aos trinta e um dias do mês de maio de dois mil e dezasseis…

O Presidente da Mesa

 

(António Rodrigues Lopes)

O Secretário

 

(Manuel Francisco Pereira)

O Relator

 

(Alexandre Lourenço Nunes)

_______________________________________________________ 

Esta ACTA atira-nos para Castelo Branco. Vejam estas poucas fotos:

 

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ANIVERSÁRIO

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Hoje faz anos o António Gil Martins Dias, que é da Isna de S.Carlos e professor em Proença-a-Nova.

Sem mais elementos, aqui deixamos os PARABÉNS do grupo, desejando ao amigo as maiores felicidades. E contamos com o António G. M. Dias para Marvão, um modo de termos fotos para o próximo aniversário.

 

ÚLTIMA HORA: Graças ao Zé Ventura, sempre apareceu uma foto. Por isso, fica aqui, de corpo inteiro, para colmatar lacunas.

FESTA DO SANTISSIMO SACRAMENTO

O Joaquim Nogueira com mais história regional. Mas não nos distraimos de Marvão! AH

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NA VÁRZEA DOS CAVALEIROS - SERTÃ

 

O  Padroeiro da freguesia de Várzea dos Cavaleiros é SÃO PEDRO. No dia litúrgico de São Pedro – 29 de Junho de cada ano – festeja-se o Padroeira da freguesia. É uma festa, exclusivamente religiosa, em que os habitantes da freguesia honram e veneram o seu Padroeiro. O Pároco celebra a Santa Missa e os fiéis enchem a Igreja.

Não vou descrever esta festa de carácter religioso mas antes a festa em honra e louvor do SANTISSIMO SACRAMENTO, que se celebra no terceiro Domingo de Maio de cada ano.

Vou relatar o que me foi contado e descrever o modo como vivi essa festa na minha infância e juventude, ou seja nas décadas de trinta a sessenta do século passado.

Começando pelo princípio, direi que a sua origem e razão de ser resulta de uma “promessa” que os habitantes da freguesia fizeram, há alguns séculos, ao Santíssimo Sacramento. Na verdade havia e há, naquela região, uma grande devoção ao Santíssimo, que era o poder a quem os cristãos recorriam – e ainda recorrem -, quando se sentiam ansiosos devido a qualquer enfermidade ou “desgraça” que os afligisse. Nessa altura, ainda não havia a devoção a Nossa Senhora de Fátima e era o S.Sacramento que se invocava, para evitar males ou para agradecer graças que tivessem sido concedidas.

Feitas as sementeiras do milho nas tapadas ( lotes ) que ladeavam a Ribeira da Tamolha, que corria, vagarosa, pelo meio das mais de 30 povoações que fazem parte da freguesia, semeados outros cereais, como trigo, centeio e cevada nas encostas, aconteceu uma desgraça. Na verdade, as tapadas com as mais diversas culturas, designadamente de milho e outros produtos hortícolas, como couves, nabos, feijão, cenoura ,etc. e as encostas com árvores de fruto, cereais, videiras, figueiras e assim por diante, foram “invadidas” por pragas de insetos que iam devastando o que os agricultores tinham semeado e cultivavam com tanto esmero e dedicação. Sem esquecer que eram esses produtos que serviam de base à sua alimentação e, sem eles, não sobreviveriam. Aflitos, entenderam que só o Santissimo  Sacramento lhes poderia valer. Vai daí, fizeram procissões, rezaram Missas e terços, mas, no princípio, sem grandes efeitos.

Até que, estando o povo da freguesia todo junto na Igreja, com a superintendência do Pároco, em frente do Sacrário, fizeram uma promessa, nos seguintes termos, como contam os antigos:

SANTÍSSIMO SACRAMENTO, NÓS POVO DESTA FREGUESIA DE VÁRZEA DOS CAVALEIROS, AQUI REUNIDOS, DECLARAMOS TER ABSOLUTA CONFIANÇA EM VÓS E, NESTA IGREJA, VOSSA CASA, JUNTO DO VOSSO SANTO CORPO E SANGUE, VOS PROMETEMOS, SOLENEMENTE, ORGANIZAR UMA FESTA EM VOSSO LOUVOR, NO MÊS DE MAIO DE CADA ANO, ATÉ À ETERNIDADE, SE AS PRAGAS, QUE ESTÃO DIZIMANDO AS NOSSAS CULTURAS, DESAPARECEREM”.

Certo é que, segundo a antiga tradição, os insetos, maus e devoradores, encaminharam-se, em correria, para a ribeira e desapareceram, tendo as culturas sido salvas. A população rejubilou, tendo-se acentuado a devoção ao Santíssimo Sacramento.

E, como o prometido é devido, desde então passou a celebrar-se, anualmente em Maio, a festa ao S. Sacramento.

Nos meados dVárzea1.jpego século passado, que é desde que me lembro, havia grandes preparativos para a festa.

Nomeava-se uma Comissão que ia ser a responsável pela execução dos festejos, que deviam corresponder à promessa feita.

Em Janeiro começavam os preparativos: As povoações – sós ou unidas – sabiam o que tinham a fazer.

A azáfama começava com a preparação das “FOGAÇAS” ( tabuleiros com varais compridos, com 2 ou 3 andares, onde eram depositados os produtos da terra, oferecidos pelos habitantes das povoações).

Eram os jovens, rapazes e raparigas, que, depois da ceia, se juntavam no local onde se fazia e enfeitava a designada fogaça. Descrevendo este primeiro trabalho, da conta dos rapazes, estes procuravam dois paus, compridos e redondos, que iam servir de suporte aos tabuleiros que iam construir. Os tabuleiros ( lembram-se da festa dos tabuleiros de Tomar? ) eram construídos, juntando tábuas em madeira de pinho, pregando-as ficando uma espécie de gavetas, que eram pregadas ao meio dos paus de pinho antes referidos. As gavetas ( tabuleiros ) eram pregadas, em cima umas das outras, começando por uma maior e as que encimavam iam diminuindo de tamanho. Normalmente, eram 2 ou três tabuleiros, encimados por um mais pequeno e, no cume, um pau com a bandeira do ou dos locais a que pertencia essa fogaça, escritos à mão nessa bandeira, v.g. RIBEIRAS FUNDEIRAS E CIMEIRAS, MOINHO DO CABO...

Construído o tabuleiro pelos rapazes, entrava em ação a força de trabalho das raparigas. Nesta fase, enfeitavam a fogaça, com papeis coloridos ( de várias cores ), enrolados em toda a construção e pendentes recortados, que ficavam muito lindos.

Não esqueciam a bandeira da ou das povoações a que pertencia aquela fogaça.

 Era nestes 2 ou três tabuleiros que eram colocados o milho, o trigo e o centeio oferecidos pelos habitantes. No meio dos cereais iam garrafas de azeite e pendurados nos tabuleiros presuntos ou bocados destes, chouriços de todas as qualidades e outras primícias valiosas, do melhor que cada família tinha e oferecia.

No tabuleiro superior, quadrado e mais pequeno que encimava o conjunto, era colocado um Várzea2.jpgbolo feito pelas jovens que se aprimoravam, pois este bolo seria disputado pelos rapazes, na licitação de que falarei mais adiante.

Esta fogaça pesada era transportada para a sede da freguesia por 4 rapazes que ofereciam os seus ombros colocados por baixo dos varais de que se falou. É óbvio que, com o peso, os rapazes e também as raparigas se revezavam e lá ia o conjunto, a rezar e a cantar, com brincadeiras próprias do dia, não esquecendo que tinham três/quatro kilómetros a percorrer.

Chegados ao limite da aldeia, tinham à sua espera a banda filarmónica da Sertã que, tocando marchas populares/religiosas, acompanhavam o grupo para o local onde eram colocadas as fogaças. O mesmo sucedia com as das outras povoações e era uma alegria! Mais de 20 e cada uma competia com as outras em beleza.

Celebrada a Missa da festa, organizava-se uma procissão, com o Pároco e as “forças vivas” da terra, com as fogaças a servir de emblema e centro da procissão, percorrendo as ruas da aldeia, dando uma grande volta.

Voltados ao recinto, iniciava-se o leilão dos produtos oferecidos pelas populações e era ver os rapazes a licitar os bolos feitos pelas suas, muitas vezes, noivas ou amigas, cada um querendo levar aquele que tinha sido feito pela sua querida. Os restantes géneros eram vendidos, em leilão, muitas vezes para abastecer os restaurantes de LISBOA e o produto da venda - com contas prestadas publicamente - revertia para as obras e assistência da paróquia.

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Entretanto, as famílias tinham levado fartos farnéis que iam comer e beber à sombra dos pinhais dos arredores. Estendia-se um cobertor no chão, depois uma toalha e os talheres e começava a “labuta”. Comia-se, bebia-se, cantava-se e, por vezes, organizavam-se bailaricos ao som de flautas ou concertinas que os rapazes levavam. Era, nessa altura, que se convidavam os amigos e os familiares das freguesias próximas – Ermida, Figueiredo, Marmeleiro e Sertã.

Esta a festa do SANTÍSSIMO SACRAMENTO da minha aldeia da VÁRZEA DOS CAVALEIROS, que recordo, com muita saudade, porque nela os habitantes demonstravam a sua amizade e, também e principalmente, como se podia viver com alegria sã e verdadeira, louvando a Deus e ajudando nas obras e assistência da freguesia.   Um abraço para todos.

 LISBOA, 18 DE Abril de 2 017.

J. NOGUEIRA

TERCEIRO COMUNICADO

ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DOS SEMINÁRIOS

 

DA DIOCESE DE PORTALEGRE E CASTELO BRANCO

COMISSÃO ANTIGOS ALUNOS SPCB

(comasalpcb@gmail.com)

(asal.mail@sapo.pt)

 

ENCONTRO ANUAL DE 20 DE MAIO DE 2017, EM MARVÃO

 

TERCEIRO COMUNICADO - CIRCULAR

 

Caros Colegas,

A Comissão Administrativa tem estado a difundir alguns pormenores do Encontro que terá lugar no dia 20 de maio deste ano, em Marvão, sem prejuízo de posteriores ajustamentos no caso de haver alguma alteração nos planos inicialmente definidos.

Como já foi anunciado, o Encontro de Marvão é um encontro com a história. Vamos lembrar os nossos companheiros que frequentaram o Seminário de Marvão, vamos homenagear aqueles que estiverem presentes na emblemática vila medieval e vamos visitar a antiga cidade romana da AMMAIA, onde iremos homenagear mais de uma dezena dos nossos professores ainda, felizmente, entre nós.

Dada a especificidade do Encontro, não haverá a habitual sessão formal, sendo a Ata do Encontro de 2016, em Castelo Branco e o Relatório de Atividades e Contas de 2016 submetidos a votação ao longo do dia.

 

Neste momento, já é possível publicitar o seguinte

 

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PROGRAMA

 

1.º - CONCENTRAÇÃO E VISITA A MARVÃO

          - Receção, Inscrições (25,00 € per capita), aperitivos e convívio, a partir da 10H00;

          - Local da receção: Restaurante VARANDA DO ALENTEJO, no Largo do Pelourinho, no centro da vila;

         - 11H00: Cumprimentos de boas – vindas, na CASA DA CULTURA;

         - 11H30: Passagem pela capela do antigo Seminário, pelo Museu, e subida ao Castelo, onde será prestada homenagem aos antigos alunos do Seminário de Marvão e terá lugar a rubrica “NÓS, EM MARVÃO”, a cargo dos antigos alunos de Marvão, presentes.

 

2.º. – MISSA

         - Pelas 12H30, na Igreja matriz, de Santiago;

         - No ato da inscrição será facultado um envelope para, quem quiser, entregar no ofertório uma dádiva para a Diocese.

 

3.º. –ALMOÇO

        - Pelas 13H30, no Restaurante VARANDA DO ALENTEJO, no Largo do Pelourinho.

 

4.º. – PASSEIO TURÍSTICO                    

     – Pelas 15H30, passeio à cidade romana da AMMAIA, em S. Salvador da Aramenha, onde será prestada homenagem aos professores identificados na brochura “OLÁ, PROFESSORES – II”;

 

5.º - LANCHE, Pelas 17H00, nas instalações da Junta de Freguesia de S. Salvador da Aramenha e ENCERRAMENTO com informação/proposta do local do Encontro de 2018.

 

NOTA: Partirá de Lisboa (Campo Grande, Junto ao Hotel Radisson Blu, à Segunda Circular) um autocarro com a lotação de 49 lugares ao preço de 12,50 €, “per capita”.

 

Saudações Associativas

 

(A Comissão Administrativa, em 20 de abril de 2017)

ISTO VAI! VAMOS SER MUITOS...

DA CAIXA DO CORREIO:

 

Amigos do Animus Semper

 

Desejo inscrever-me para a reunião dos antigos alunos dos seminaristas da diocese de Portalegre e Castelo Branco, mas não consigo fazê-lo pelo sítio do ANIMUS. Agradeço que me informem como poderei inscrever-me, pois gostaria muito de estar presente.

    Chamo-me António Valentim Pires da Costa

     Natural de Juncal do Campo C. Branco

     Entrei no Sem. do Gavião em 1946, estive também em Alcains Sou do ano do Fernando Cardoso Leitão Miranda, já inscrito.

 Grato, aguardo a vossa resposta.

________________________________________ 

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Esta mensagem, na sua simplicidade, enche de alegria todos os que andam com as mãos na massa, a esfalfarem-se para que o dia 20 de Maio seja um encontro de amizade a que todos gostámos de ir. 

Pois, claro, é possível inscrever-nos pelo ANIMUS SEMPER. Mandem a vossa inscrição para a nossa caixa de correio: asal.mail@sapo.pt

E nós esperamos que, como o Pires da Costa, outros que não têm frequentado estes encontros se resolvam a ir. Vale mais estar lá, ver as nossas caras, todos com a carga dos anos mas cheios de saber e experiência.

Ainda ontem, a dona da lojinha do castelo no seu sotaque espanhol me dizia: sim, venham muitos, precisamos de gente. 

Até pela riqueza patrimonial que representa Marvão, vale a pena! AH

AFINAL, SÃO TRÊS

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A nossa lista de aniversariantes é bastante incompleta. Somos surpreendidos pelo Facebook e somos surpreendidos pelos amigos, que nos avisam de mais uns aniversários quando eles não surgem no blogue...

Desta vez, é o caso do P. João Avelino, que nasceu em 1942 e hoje vive o seu 75.º aniversário. Não estava na lista, mas vai estar aqui, nesta página de encontros vários, que gostamos de ver viva e a celebrar a Vida.

Pois, meu caro, PARABÉNS! E que continues a viver com alegria a tua missão, quer como capelão do hospital de Castelo Branco quer no serviço das paróquias. E ad multos annos! Quod bonum de te adveniat, beneficium est tibi. É latinório, mas talvez tenha sentido!... AH

Contacto: tel. 962360699

AUTOCARRO QUASE CHEIO

ASSOCIAÇÃO DOS ANTIGOS ALUNOS DOS SEMINÁRIOS DA DIOCESE DE

PORTALEGRE E CASTELO BRANCO

        COMISSÃO ANTIGOS ALUNOS SPCB

               (comasalpcb@gmail.com)

                    (asal.mail@sapo.pt)

 

ENCONTRO ANUAL DE 20 DE MAIO DE 2017, EM MARVÃO

 

AUTOCARRO – INSCRIÇÕES ABERTAS

 

A Comissão alugou um autocarro à VTBus, para a viagem a Marvão, em 20MAI2017, ao preço unitário de 12,50 €, com partida de Lisboa (Campo Grande, junto ao Hotel Radisson Blu – à 2.ª Circular), pelas 08H00, e regresso de S. Salvador da Aramenha pelas 18H00. Já temos as seguintes 38:

 

INSCRIÇÕES

 

Abílio Cruz Martins (2)

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Alberto Duque (2)

Alexandre Pires (2)

Alves Dias (1)

António Antunes Dias (1)

António Mendes Jorge (2)

António Martins da Silva (2)

António Pequito Cravo (2)

António Reis (1)

Arménio Duque (1)

Augusto Rei (2)

Eduardo Calção (2)

Francisco Cristóvão (1)

João Correia Neves (1)

João Pires Antunes (1)                                                                                 Esta foto foi tirada ontem! Que maravilha. Vamos lá? 

João Torres Heitor (2)

Joaquim Dias Nogueira (2)

José Cardoso Pedro (1)

José Figueira (1)

José Maria Lopes (1)

José Maria Martins (1)

Manuel Inácio (2)

Manuel Pereira (1)

Manuel Pires Antunes (2)

Manuel Pires Marques (2)

 

Saudações Associativas

 

(A Comissão Administrativa, em 18 de abril de 2017)

PARABÉNS AOS DOIS!

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Dia 19 de Abril, dia de festa para dois colegas que aqui queremos lembrar:

 

 

- o António Gil Dias André, contactável pelo tel. n.º 964 670 803

 

 

- e o António André Canhoto Antunes, com o tel. n.º 962 820 024

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Parabéns aos dois, que gozem de boa saúde e muita felicidade e nada os impeça de estar em Marvão no encontro de 20 de Maio.

 

 

E hoje, como são dois, vai um poema. Porque não?

 

Envelhecer

É bom envelhecer!

Sentir cair o tempo,
magro fio de areia,
numa ampulheta inexistente!

Passam casais jovens
abraçados!...

As árvores
balançam novos ramos!...

E o fio de areia
a cair, a cair, a cair...

Saúl Dias, in "Essência"  
 
NOTA: Saul Dias, poeta e pintor, é irmão de José Régio, os dois de Vila do Conde. Esta coincidência fica bem no dia em que visitei a Casa-Museu José Régio em Portalegre, em que me deliciei mais uma vez com todo aquele património artístico-religioso. Valeu a pena.

A VISITA PASCAL

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NA MINHA ALDEIA ERA ASSIM

 

Um dia de glória, as pessoas de família, amigos e vizinhos reuniam-se em casa para beijarem a cruz. O Sr. Prior, de sobrepeliz branca e os mordomos de capa vermelha, um com a cruz, outro com a caldeirinha de água benta e os rapazes  com as campainhas, anunciavam a comitiva, que palmilhava a freguesia, casa a casa, dos mais ricos aos mais pobres.

Cada um tinha a sua tarefa, naquela que era uma visita rápida, pois  outros já esperavam a sua vez. O sacristão com a cruz, entrava na casa, dirigia-se à sala onde todos se ajoelhavam e passava a cruz de boca em boca para o beijo pascal, enquanto o Prior dizia: Cristo ressuscitou, alleluia, alleluia .

De seguida, um cumprimento rápido ao chefe da casa com os desejos de Boas Festas e reencaminhava-se de imediato para a saída.

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Às vezes, o crucifixo era beijocado com grande intensidade, dos pés à cabeça e nestes casos o  sacristão tirava um pano branco do bolso e limpava o crucifixo para a próxima devoção.

Um dos mordomos fazia de tesoureiro guardando os envelopes das ofertas em dinheiro que as casas mais abastadas faziam ao sr.Prior. Seguia-se o rapaz do cesto que recolhia queijos e ovos, presentes, que os lares mais pobres ofertavam ao Sr. Prior.

Todas as casas eram sujeitas a uma lavagem anual, mostravam um aspecto limpo e fresco e o chão bem esfregado com sabão azul e branco. Mesmo as mais humildes, embora a mesa fosse tosca, era coberta com uma toalha de linho onde sobre ela colocavam, uma cruz, uma garrafa de vinho, um folar pão de ló e ovos.

O Sr. Prior no auge desta visita, era sempre convidado:JOAO2.jpg

- Vai alguma coisa Sr. Prior ?

Ao que  ele respondia: 

 - Não obrigado, temos muito que andar, os vossos convidados já estão com apetite !

 E, retirava-se…      

Mas nas casas mais abastadas que caprichavam pela recepção, uma mesa composta com um folar a que chamavam o “folar do padre”, tinha uma variedade de bolos e vinho fino para acompanhar.

Ao lado, em  destaque, um envelope com dinheiro colocado sobre uma bandeja  de prata, ou numa taça ou prato e o Sr. Prior fazia questão em se sentar por breves momentos e fazer as honras da casa.            

 Alguns dos mordomos, aproveitando a pausa, serviam-se dos pitéus expostos, vinho do porto, bolos, amêndoas e retemperavam as energias para o resto das visitas.

Havendo doentes acamados, o Sr. Prior ia junto à cama e aí era recebido com mil queixumes, mas reconfortados com palavras de esperança, ficavam felizes e sentiam-se melhor.

JOAO3.jpg

Nas aldeias, era costume os padrinhos darem aos seus afilhados o “folar” que consistia na doação de um pão especial, só cofeccionado nesta altura e  no dia de todos os Santos, a chamada “bica”, pão comprido à base de farinha e azeite com cerca de 40/50 cms, alguns bolos secos, e amêndoas.       

Vivia-se intensamente a Páscoa, as casas no seu exterior eram decoradas com rosmaninhos floridos, alecrim e malmequeres que davam um ar incontido de festa.

Há terras onde continua a haver visita pascal, bem diferentes de outros tempos, mas marcam o costume que continua vivo. O Sr. Prior deixa de estar presente, sendo esta missão entregue a respeitados leigos que com diversas cruzes e para acudirem a todos os lares cumprem esta visita pascal.

Já não é como dantes, dizem alguns!

São outros tempos, outros sinais…tenhamos esperança.

Páscoa... é vida nova.

 

João Antunes

BOAS FESTAS PASCAIS

 

jorge.jpgRecebi do Jorge Calhas esta mensagem, que apresento a todos vós. Pessoalmente, agradeço suas palavras e votos, desejando-lhe igualmente Boa Páscoa e que suas mazelas sejam ultrapassadas para nos abraçarmos em Marvão. AH

 

 

«Olá bom dia! Quero deixar aqui os meus sinceros votos de uma boa Páscoa com Ressurreição dos nossos melhores valores e que ultrapassemos os nossos demónios para reencontrarmos um Novo Espirito que corrija as nossas imperfeições físicas. Jorge »

PARABÉNS!

j0oão romão.png

 

Faz hoje anos o João Romão, da Idanha. Nasceu em 48 e parece que agora vive ali para os lados de Castelo Branco.

Parabéns, colega dos tempos de seminário. Votos de vida longa e feliz. Olha lá, será que é agora que envias a inscrição para o encontro de Marvão?

SEMINÁRIO DE MARVÃO - 3

João.jpgRecordações de Vida

 

Texto de João Chamiço Porfírio

 

(CONTINUAÇÃO DO TEXTO ANTERIOR)

Penso que a estadia do seminário em Marvão, tantas saudades desse tempo, foi benéfica tanto para a vila como para nós.

À vila, entre outras coisas, levou vida, levou animação, alegria - ai o dia de Carnaval, em que apresentámos a charanga formada com os instrumentos da antiga banda da vila, descendo do castelo, regidos pelo Marcelino, hoje D. António Marcelino, Bispo de Aveiro (já falecido), demos uma volta pelas ruas, prrum pum pum, prrum pum pum... Parecia que os que nos viam estavam a reviver as glórias passadas. O Seminário enchia a vila, já então com uma população bastante reduzida e fez com que as pessoas, pouco a pouco, deixassem de olhar para nós como bicho raro, sempre de negro vestido. Éramos verdadeiramente da sua família, ou até para alguns, a sua família. Marvão tornou-se mais conhecida. Já não era mais aquela vilazinha perdida junto à fronteira de Espanha. Era uma terra que tinha algo de que muitas mais importantes se não podiam vangloriar. Era um local onde vários jovens generosos se preparavam para o desempenho duma nobre missão. Era falada nas instâncias religiosas e, pelo menos nas terras donde tinham vindo seminaristas. Mesmo no aspecto religioso alguma coisa ficou, como era de esperar e pude verificar, uns anos mais tarde, quando por algum tempo ali fui pároco, numa experiência maravilhosa que, talvez ainda aqui venha a partilhar com quem tiver a paciência de me aturar e ler.

A nós, trouxe-nos a palpação da realidade da vida de muitos cidadãos deste país e não só. Foi um banho de inserção na realidade. Fez-nos aterrar das estratosferas filosófico - teológicas, pôr os pés no chão. Fez-nos ver e sentir que a vida não é nem pode ser feita de facilidades, mas que tem o lado difícil, da luta que, em boa parte, é o que lhe dá o verdadeiro gozo. Deu-nos uma capacidade diferente de olhar, de ver, de escutar, de falar, de aguentar, de lutar, de sobreviver. Não me lembro de ninguém que tenha abandonado o seminário pelas duras condições de vida ali experimentadas. Antes pelo contrário, talvez muitos de nós tenham, com maior facilidade, feito frente às contrariedades do dia a dia, depois de termos caldeado a nossa vontade e resistência nos anos de Marvão.

Mais ainda, em Marvão deixámos de ser os apartados, os diferentes, mesmo por uma causa boa. Éramos da vila, éramos da vida daquela gente. E que bons amigos lá nos ficaram desse tempo. Uns ainda por lá estão, outros já o Senhor chamou a si...

A partir de Marvão passámos a ter uma nova maneira de ver o mundo, de olhar, de ver, de ouvir, de sentir, de "leitura dos sinais dos tempos", larga como os horizontes que dali se disfrutam e que tem, forçosamente, de ser diferente daquela que nos é proporcionada pela vivência entre 4 paredes, por mais arejadas que sejam. Mesmo depois da transferência para o novo Seminário de Portalegre, essa influência continuou a notar-se e já não foi possível fazer-nos viver o Seminário e no Seminário como se continuou a fazer em muitos outros, durante muitos anos. O espírito de Marvão perdurou durante muito tempo nos seminários da Diocese.

Marvão deu-nos uma capacidade diferente de sentir com as pessoas os seus problemas, as suas conquistas, as suas dificuldades, as suas alegrias. O tal "flere cum flentibus, gaudere cum gaudentibus"... Proporcionou-nos uma capacidade diferente de aguentar, de lutar, de esperar, de sobreviver, de sorrir...

Foi uma lufada de ar fresco que entrou no seminário, nessa altura. Não sei se ainda perdura. Mas não tenho dúvida que consistiu na introdução duma grande componente de modernidade no clero da Diocese de Portalegre e Castelo Branco, muito importante para os anos que se seguiram - os anos do Concílio Vaticano II e principalmente os anos do Pós-Concílio.

FIM

SEMINÁRIO DE MARVÃO - 2

Recordações de Vida

João 2.jpg

 

Texto de João Chamiço Porfírio

 

(CONTINUAÇÃO DO TEXTO ANTERIOR)

Como facilmente se depreende e imagina, as nossas condições de vida não eram, nem de longe, as melhores, como aliás não seriam para a maioria dos habitantes da Vila.

As condições de habitabilidade proporcionadas pela Igreja de Santa Maria, com a enorme altura da abóbada, estrutura e solo em alvenaria e granito, são bem fáceis de avaliar.

Às 6 da manhã, levantar, lavar a cara (alguns, no Inverno, só a aspergiam) com água fria, que outra não havia, fazer a barba... Às 6,30, rua abaixo, em passo de corrida para aquecer, com chuva, neve, gelo, vento ou os 4 simultaneamente, a caminho da Igreja para as orações da manhã, meditação e Missa.

Agradável...

E, sem dúvida, éramos os primeiros marvanenses a sair da cama.

Para aquecimento, umas braseirinhas de picão que davam maior calor psicológico do que propriamente físico...

Banhos só na casa principal. Às vezes, no Inverno, não havia porque a água congelara e se recusava a correr nos canos… Foi em Marvão que, pela primeira vez na vida, vi alguém ir à água com uma cesta, e com sucesso...

No entanto, nem tudo era desconforto e adversidade. A Alimentação, sem exageros nem gulodices, posso considerá-la geralmente boa para a época. Às vezes, no Inverno - ai o Inverno de Marvão! - tínhamos de pôr a fruta da sobremesa ao sol antes de a comer, principalmente laranjas e tangerinas, por não apetecer demasiadamente um gelado.

Os sacerdotes da equipa - Cónego Brás Jorge, Ps. Manuel Pinheiro, Augusto Dias Lopes, Sousa Ferreira e Dr. Manuel Rodrigues - souberam encaixar-se bem na situação, que também eles viviam, e faziam o possível para nos tornar a vida menos dura.

A simpatia, quase diria empatia, da população por nós, era geral e "aquecia".

O nosso "recreio" não era passado entre 4 muros, mas na vastidão enorme das vistas dos 900 metros de altitude com benéficas consequências na nossa formação.

Como a necessidade é mestra de engenhos, diz o povo e com razão, tínhamos os nossos esquemas para melhorar a situação e aguentar com cara alegre.

A mais pequena coisa servia para nos distrair e divertir. Ninguém poderá saber quantas das pedras existentes na encosta do lado do Salvador foram lançadas por nós do alto da muralha, em alegres concursos, a ver qual dava o maior salto ou chegava mais longe. Ou, de noite e com tempo seco, para admirar o extraordinário fogo de artifício proporcionado pelas inúmeras faíscas causadas pelas pedras a bater umas nas outras, encosta abaixo... Talvez o construtor do edifício da Câmara pudesse, esse sim, dizer quantas carradas mais teve de transportar para a obra...

E as trovoadas vistas de Marvão? Que espectáculo!

Que saudades dos relatos nocturnos dos torneios de hóquei em patins de Montreux, por alturas da Páscoa.... Tínhamos um grande amigo. O Sr. Custódio, que era o electricista da Câmara e morava numa das primeiras casas, quando se desce do Castelo, logo a seguir à cabina da luz, punha o seu aparelho de rádio na janela, com os registos no máximo, para nós podermos ouvir, dentro da igreja-camarata. Púnhamo-nos à janela, qual cacho de uvas bem apertado, a escutar em silêncio perfeito, não fosse o diabo tecê-las, e só nos deitávamos quando tudo terminava. E o bom do P. Augusto, bom amante do desporto, queixava-se aos seus colegas: "O Custódio não deixa sossegar ninguém. Põe o rádio em altos gritos. Ainda se os seminaristas pudessem ouvir..." Santa ingenuidade... E, se por acaso ele não ia para cima ao mesmo tempo que nós, ficávamos de ouvido na telefonia e olho na rua, até que se ouvia: "lá vem ele". Pernas a caminho da cama, e em menos de 3 segundos toda a minha gente ressonava a bom ressonar.

(CONTINUA)

O SEMINÁRIO  DE  MARVÃO

NOTA PRÉVIA: A pensar no Encontro de Marvão em 20 de Maio, andei a pesquisar na Internet tudo aquilo que podia enriquecer estas páginas. Um dia, dou com uma referência a um texto sobre o Seminário de Marvão, publicado na revista Ibn Marúan, de 1998, dirigida pelo professor doutor Jorge Oliveira, marvanense de Santo António das Areias, Professor de Arqueologia da Universidade de Évora, director das escavações na cidade da Ammaia, fundador e director da dita revista. E de quem era o texto? Do meu grande amigo, João Porfírio. Não parei até lhe pedir este achado, que, para mim, é a maior bomba que pude encontrar. 

Ao lado das pérolas do Fernando Leitão, temos agora este diamante. O texto é extenso e vai ser publicado em partes, para melhor ser saboreado. Obrigado, João, por quereres estar aqui. Como esta preciosidade é de 1998, não admira que algumas referências a jogadores e outras estejam desactualizadas. AH

 

Recordações de Vida

João 2.jpg

 

Texto de João Chamiço Porfírio

 

Quando, em Outubro de 1953, terminado o 6º ano no Seminário de Alcains, me apresentei em Marvão, para continuar os estudos, no Seminário então ali existente, estava bem longe de imaginar as condições que iria encontrar, e o que isso iria representar na minha vida futura.

Por impossibilidade de continuar a utilizar as instalações do antigo Seminário de Gavião, devolvidas ao seu proprietário, a família Pequito Rebelo, e perante atrasos na construção do novo Seminário de Portalegre, o saudoso D. Agostinho de Moura, então Bispo de Portalegre e Castelo Branco, viu-se na necessidade de, a partir de 1950 (creio não estar errado), utilizar os 4 edifícios generosamente postos à disposição da Diocese pelas entidades oficiais de Marvão.

A primeira impressão não digo que foi boa nem má. Foi estranha. Tinha estado 6 anos em dois seminários clássicos, Gavião e Alcains, que funcionavam num único edifício, não digo que com extraordinárias condições, mas que serviam perfeitamente à sua finalidade.

Ao chegar a Marvão, deparámo-nos com um Seminário totalmente diferente, diria quase anarquista, no seu aspecto logístico e no que daí decorria.

Num edifício contíguo à Igreja do Espírito Santo que funcionava como capela privativa e que, depois da saída do Seminário serviu de asilo dos jovens e casa paroquial, estavam as salas de aula e estudo, a cozinha, o refeitório, instalações sanitárias e quartos de alguns professores.

Numa casa situada quase em frente da antiga Estalagem Ninho de Águias, propriedade do Sr. Jeremias e que hoje, creio, funciona como anexo da Pousada de Santa Maria, estava instalada a camarata dos alunos mais velhos, os "teólogos".

Na Igreja de Santa Maria, que já há muito não estava ao culto, encontrava-se a camarata dos mais novos, os "filósofos". Na sacristia estava instalado o prefeito - sacerdote encarregado de acompanhar um grupo de seminaristas - o saudoso P. Augusto Dias Lopes.

Espaços próprios para recreio, lazer e actividades desportivas não havia. Melhor, eram extraordinariamente amplos. Espaços de recreio e lazer eram toda a vila e arredores.

Campo de futebol era o terreiro junto à muralha nascente. Por detrás duma das balizas, instalada em plena calçada, ficava a garagem do Sr. Joaquim Raposo. Detrás da outra ficava a pensão. Se do lado da garagem não surgiam problemas por inexistência de vidros, já do lado da pensão assim não era. A sua proprietária, mal nos sentia chegar, apressava-se a abrir todas as janelas. Não que fosse grande admiradora das nossas habilidades futebolísticas. Queria sim evitar os resultados desastrosos da pontaria de alguns que acertavam mais facilmente com a bola no buraco pequeno da janela do que no grande da baliza.

E quando por aselhice, entusiasmo, vento ou outro imponderável, a bola saltava a muralha, então era esperar que algum mais ágil e afoito descesse, pondo mão e pé nas saliências e reentrâncias da muralha e a fizesse regressar ao seu reduto natural. O pior era quando não ficava entre o primeiro e segundo muro. Normalmente, nesses casos, ultrapassava a estrada e ia por aí abaixo. Algumas vezes a fui buscar perto da ermida de S. Brás. Imagino o que seriam os senhores Pintos, Jardéis e Leandros a praticar as suas habilidades em terreno tal, onde, para além de dominar bola e adversários, era preciso também saber evitar as pedras mais ou menos salientes e utilizar os muros como tabela de progressão... Ou então os senhores Baías e Prudhomes a mergulhar nas pedras da calçada para deter o projéctil saído dos pés do adversário... Alguns testemunhos ainda posso apresentar espalhados por este corpinho rotundo, quase roliço, que agora possuo...

Apesar disso, que quantidades de adrenalina despendíamos em renhidas e sempre discutidas partidas... (CONTINUA)

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