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Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

Animus Semper

Associação dos Antigos Alunos dos Seminários da Diocese de Portalegre e Castelo Branco

A BOTA E A PERDIGOTA…

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Dia 17 de Junho. Dois anos depois (2017-2019) saí de casa (Vales) pelas 08h30 em direcção ao IC 8, Sertã, Pedrógão Pequeno (Senhora da Confiança), Pedrógão Grande, estrada 236-1, Castanheira de Pêra, regresso a Figueiró dos Vinhos, aldeia de Ana de Aviz, Ribeira de Alge, regresso a Figueiró, Venda da Gaita, Picha, Pampilhosa da Serra, Barragem de Santa Luzia, Minas da Panasqueira, aldeia de S. Francisco de Assis, Fundão, A 23, IC 8, Vales. A tempo de ver o meu Presidente falar na RTP, Prós e Contras, sobre o que eu acabava de ver “in loco”.
O que foi que eu vi?
Vilas a lutarem pela sobrevivência. Aldeias, lugares, lugarejos e sítios moribundos com homens e mulheres sem esperança à espera da morte… Uma natureza generosa construindo e oferecendo paisagens fabulosas de espaços e tempos que não são deste mundo…
Enfim, pessoas extraordinárias por todo o lado! Nas vilas, nas aldeias, nas minas, nas estradas…
Quatro notas de espanto e genuína admiração:
1- A primeira para lamentar a DESINFORMAÇÃO “TURÍSTICA” encontrada à entrada da aldeia de Ana de Aviz a enviar os transeuntes para a Ribeira de Alge onde supostamente se poderia almoçar. Lá, os restaurantes estão fechados há anos…
2- O pedido de boleia de um jovem solitário que, soube depois, ia do concelho de Penela até à Guarda (Trancoso) à boleia para participar no casamento de um amigo. Boleia concedida, foi companheiro de viagem imprevista até ao Fundão.
3- A visão fantasmagórica, surreal mesmo, das Minas da Panasqueira. Um ambiente que remete para o “faroeste” americano do século XIX.
4- Vendo o que vi e ouvindo falar os responsáveis sobre aquele território, só me vem à ideia aquela frase popular: “ A bota não bate com a perdigota.”
Ficam as imagens…

Aniversário

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Sabem quem faz anos?

É hoje o aniversário do Eurico P. Grilo, nascido em 18-06-60.      

Trabalha como jurista na Câmara Municipal de Lisboa na gestão de recursos humanos. Já o vimos nos jantares de Natal em Castelo Branco e contamos com ele nos almoços da capital.

PARABÉNS, caro amigo, por mais uma primavera, com votos de longa e feliz existência.

Contacto: tel. 919 095 987 

Um livro em recensão - 3

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Conclusão do meu comentário ao livro de memórias de Alves JANA “O meu Seminário” (1963-!974) Edição do Autor, Abrantes, 2019.

 

    “Entretanto, na camaradagem que partilhava com a malta nova, comecei a sentir-me incomodado com a trilogia dos pontos fortes de todas as conversas masculinas: mulheres, noitadas e bebedeiras. Eram esses os troféus que exibiam na cantareira das suas conversas.” Op.cit. p.149-150

 

    Vou sintetizar o texto destas verdes memórias, pondo em confronto ou correlação pequenos trechos do enunciado narrativo, onde parecem cristalizar-se as funções nucleares ou momentos-charneira da “história”, e, assim, possuirmos uma visão sinóptica do evoluir dos acontecimentos determinantes e decisivos.

1º “ Queria ser padre” (p. 11), formulação de um projecto de vida, repetido em Portalegre “ (… iniciámo-nos num ciclo de estudos mais voltados para um futuro sacerdotal” (p.102). Passados poucos anos, já no estágio no Pego (1973-74),  ocorre o desmoronar deste belo sonho, a interrupção imprevista do projecto.  “O ano do estágio aproximava-se do fim. E a minha decisão ganhou forma e depois força: “ “Não, não vou por aí” ( J. Régio) p.156

É fácil detectar a relação antitética que opõe os dois extremos, separados por uma linha temporal de 10 a 11 anos, o tempo-duração  da “aventura” conjunta ( p. 156).

2º O paralelismo entre os educadores que exerceram uma influência marcante no destino do “herói”.( É recorrente, no texto, o uso do v. “marcar” para designar a força persuasiva do processo educativo) Destaca-se o P. Álvaro no despertar da sua vocação para a escrita e a sensibilidade aos mais desfavorecidos. Ele próprio  confessa: “  Devo, sem dúvida, também a ele as centenas  e centenas, os milhares  de trabalhos que até hoje dei à estampa.” (p.54)  O Dr. Bugalho, além de o treinar nas lides da Pastoral de proximidade,  transmitiu-lhe o gosto da investigação intelectual: “ Dele guardo - disse-lhe uma vez - um contributo decisivo na minha formação intelectual” (p. 106) O P. João Diogo incutiu-lhe o inestimável interesse pela Literatura, como actividade crítica por excelência:” O professor desafiava-nos a ler (os textos dos criadores e não as meras sebentas), a pensar, a criticar, sendo ele próprio crítico” (p.92). O nosso querido e saudoso José Rolo ensinou-o a ver cinema. “ Na sua morte prematura, senti que havíamos perdido alguém que havia ajudado a construir um tempo novo…) (P. 105)

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  3º A experiência pastoral na paróquia da Madalena ( Valadares, Porto)  já experimentada um tempo antes, no bairro do Atalaião, sob a orientação do P. Bugalho e a participação de uma equipa do Graal, e que, no percurso da vida do nosso herói ou do “EU-narrado”, desempenhou um papel fundamental,  quanto ao amadurecimento da sua vocação, na criação de um espírito de disponibilidade total para servir os outros, até mesmo os doentes do Sanatório, serviço que aceitou apesar de não saber como fazer. E ali entendeu que um sacerdote de qualidade não pode ser um intelectual puro; antes alguém que se aproxima das pessoas, mesmo e, sobretudo, dos doentes, tentando, por todas as maneiras, aliviar-lhes o sofrimento, recorrendo até às artes do ilusionismo: ”Por um lado, permitia-me sair para a cidade; por outro, era a oportunidade de “fazer” alguma coisa, agir, intervir, que só os livros não me eram suficientes”  (p.95). E, para não fugir  da temática da preparação pastoral, voltemos ao Estágio no Pego, para dizer que não foi uma experiência falhada e, que, apesar de vivida sob uma tensão permanente, dado o choque cultural  e religioso com  um povo, afeito a velhos ritos e devoções, indiferente aos ventos conciliares e, quantas vezes, mergulhado numa miséria carpideira, se saldou pela consciência mais profunda do que é ser “pastor”, apostado em ajudar a concretizar no todo de cada pessoa o plano salvífico de Deus.  Acompanhá-las, respeitando o seu ritmo lento, sem procurar efeitos rápidos e imediatos. E, em Valadares, com toda a preparação teórica e teológica de alto nível, do Instituto Superior de Estudos Teológicos ( ISET) não o prepararam, confessa, “ para resolver os dilemas que ali se me deparavam”(p154).

4.º Não deixa de ser curioso verificar a oposição ou contraste que se estabelece quanto à vivência da liberdade e aos seus limites e condicionamentos. Do “fechamento” do Gavião e Alcains e “abertura” relativa de Portalegre até um regime de quase auto-gestão em Valadares, que prima pela ausência de um “prefeito”, sendo que os estudantes acharam por bem constituírem-se em equipas de seis, experiência pioneira das comunidades de base, que, não obstante, não dispensava a assistência espiritual do P. Pinheiro, um conselheiro sábio e prudente, respeitador crítico da autonomia de cada um. “Mantinha-se à distância, mas com uma atenção continuada” (p . 145).

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5.º O  autor ( ou EU-narrador)  não se circunscreve aos limites temporais da história narrada.  Faz referência a pessoas com as quais se relaciona, após a sua desistência (pp.108 e 157); emite um juízo de valor sobre os cursos Dominique, diferente ou mesmo contrário à alegria da conversão que lhe provocara em Alcains, enquanto jovem. Como adulto, classifica tal tipo de cursos como” uma acção de controlo totalitário. (…) Hoje,  (o hoje que aponta, (como deíctico) para o momento da narração escrita, quase 40 anos depois) sei, por experiência própria, como é fácil ir numa onda totalitária…(p64)

 6.º Finalmente, mas decisiva, uma imagem equilibrada e personalista das mulheres, visão que dá consistência à sua opção pelo celibato” ( p. 111 e 154), mas que esbarra com a imagem sexista e retrógrada dos habitantes do Pego, avezados a projectar no jovem estagiário os seus instintos de desfrute fácil e irresponsável. Mesmo que fosse, na realidade, fiel ao seu voto de celibato, ( pensa ele) o povo sempre o acusaria de duplicidade e hipocrisia. E , então, conclui que viver a sério o celibato e,  ao mesmo tempo, alimentar a suspeita da sua infidelidade, não combinava com o seu carácter, coerente e inteiriço.  Daí, a decisão de abandonar uma carreira que se adivinhava auspiciosa, atendendo a um brilhante currículo intelectual, a uma generosidade e capacidade de entrega sem limites e a um fino senso de evangelização, baseado não tanto no proselitismo e na vã apologética, mas no testemunho de proximidade, comunhão e reflexão sobre as soluções a propor para a resolução dos problemas do mundo contemporâneo: “O trabalho da fé só fazia sentido em duas dimensões: como testemunho dado através do serviço e como resposta a uma procura daqueles que se sentiam interpelados” (p. 150)

   A argumentação em que baseia a sua decisão de abandono pode parecer um tanto original e, digamo-lo, sem ofensa, formulada com algum requinte intelectual. Mas é a sua, a que está mais de acordo com a sua consciência, e que merece todo o nosso respeito. Não nos avisou logo de início para a sua visão, pessoal e subjectiva, dos acontecimentos?

   Só lhe restava comunicar a sua vontade ao representante da Diocese, num encontro combinado no Pego, tão frio quanto breve, sem mais e supérfluas explicações.

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    Mais tarde, ao recordar “ esses dez anos e o troço final bem resolvidos,” ( Ibidem), agora, no presente do  acto da escrita, o  autor agradece tudo o que por ele fizeram.  (…”porque ainda hoje sou (negrito meu) em grande medida o homem que nos seminários me formei e, depois, aquele em que, com base na bagagem ali adquirida, me tornei.” (p.156)

  E é com um genuíno sentimento de saudades de Deus, do silêncio e da vida interior que aprendera a cultivar com delicadeza e esmero, que dá por findo este rico e saboroso Memorial, digno de ser lido por quantos a mesma ou outra, semelhante experiência fizeram.

   João Lopes

Aniversário

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Mais um aniversariante

Faz anos o José Custódio, nascido em 16 de Junho de 1952.

Pelo seu Facebook, sabemos que está ligado ao Ministério da Educação, tendo trabalhado em escolas de Queluz e agora Castelo Branco, onde hoje reside. Mais um dos que esperam a justiça do seu estatuto: 9 anos, 4 meses e 2 dias!

Queremos dar-lhe os PARABÉNS e desejar-lhe muitas felicidades. 

Contacto: tel. 965 632 425

Palavra do Sr. Bispo

AREIAS NO SAPATO E PEDRAS NA MÃO

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Embora fosse no antigamente, às vezes vem-me ao toutiço!...Sou do tempo do Senhor Chaves! O Senhor Chaves era quem, lá no sítio, até ao 25 de abril, aplicava a lei da rolha. Quando eu trabalhava na redação de um jornal diário, um telefonema do Senhor Chaves, quase sempre ao fechar do jornal, já paginado e pronto, pela madrugada, era o cabo dos trabalhos. Havia que refazer, àquela hora, o trabalho feito e pronto para imprimir. Artigos ou discursos que chegavam por telex, parte ou linhas de outros textos, isto ou aquilo, não podiam ser publicados, eram ordens a ter de cumprir. 
Há mais de 60 anos que a necessidade da construção da Barragem do Pisão, no Crato, é tema de debate e reivindicação. Valores mais altos se têm alevantado, não só porque, de facto, não se pode dar resposta a tudo, mas também porque, embora se reconheça e anuncie o que é mais importante e necessário, quando chega a hora da verdade, os decisores vão optando pelo que é mais conveniente em função de outros interesses e objetivos a alcançar. O histórico desta obra julgada como muito importante, está cheio de momentos de entusiasmo, de reconhecimento da sua valia, de debates sobre o desenvolvimento do Alto Alentejo, de promessas de ocasião. Os primeiros estudos datam de 1957. Já nessa altura foi tida como importante para a valorização do Alto Alentejo. Sentia-se como necessário armazenar os caudais da ribeira de Seda. Nestes tempos que são os últimos, e pelo que li, a Barragem já foi anunciada por três primeiros-ministros, Mário Soares, António Guterres e Durão Barroso. Porque vamos sendo habituados a ouvir bons propósitos sem quaisquer consequências, quando, de facto, há decisão mais determinada e firme, vai-se acreditando com medo de acreditar. Gato escaldado de água fria tem medo, costuma dizer-se. Agora, porém, como garante de que a Barragem vai mesmo sair do fundo da gaveta, há dias, no Crato, marcaram presença o Ministro Adjunto e da Economia, o Ministro do Planeamento, o Ministro da Agricultura e Florestas e Desenvolvimento Rural, o Secretário de Estado do Ambiente e o Secretário de Estado da Valorização do Interior. Se alguns estudos já se fizeram, outros têm sido feitos sobre as vertentes da rega, do abastecimento público e da criação de uma central mini-hídrica. Ultimamente, todos os grupos parlamentares consideraram a Barragem do Pisão como obra prioritária e recomendaram a inclusão do projeto nas prioridades de investimento no Plano Nacional de Regadio e no Programa Nacional para a Coesão Territorial. Deputados, Autarcas e instituições ligadas ao desenvolvimento do território e da agricultura, não têm desistido de, ao longo dos tempos, se baterem pela importância e concretização da mesma. Embora não seja a solução para todos os problemas, sempre foi considerada por todos como um “projeto hidroagrícola estruturante”, “uma aposta séria”, “um investimento prioritário”, “uma lufada de ar fresco”, pois, para o desenvolvimento do Distrito e a economia do território “não há alternativa”, não é a simples paisagem “que vai atrair pessoas”. Um grupo de trabalho constituído por gente de vários saberes, instituições e áreas de intervenção, voltou a apontar, recentemente, a Barragem do Pisão “como fundamental para estimular o desenvolvimento económico e sustentável da área de influência do projeto”. Apoiado em tal estudo, o atual Governo determinou o início dos trabalhos para a concretização da Barragem do Pisão que envolvem, desde já, a elaboração de estudos e projetos que são muitos, são complexos e variados, sem esquecer, como é evidente, a componente ambiental, o realojamento da população do Pisão e a rede de regadio. O investimento total já está estimado, mas decomposto por várias componentes, sendo a mais significativa a componente da produção elétrica, aquela que também terá mais retorno. Segundo aqueles que gostam de fazer previsões do resultado antes do jogo ter acabado, serão criados centenas de postos de trabalho diretos. Foi bonito ouvir falar de tudo isso. Estas coisas, aliás, são sempre bonitas, muito mais bonitas quando alimentam a esperança de que, na verdade, irá haver consequências. E a mensagem passou, houve alegria e palmas, palmas e alegria a encher a Praça de contentamento e de esperança. Os Senhores Presidentes das Câmaras Municipais do Distrito, os Senhores Deputados, as instituições afins e muitos outros homens e mulheres, toda a gente ficou esperançada que sim, que agora vai mesmo. Até se avançou com um prazo possível para que a Barragem comece a encher. 
Para reforçar a esperança destas terras e desta gente, três dias mais tarde, em 10 de junho, em Portalegre, o Senhor Presidente das Comemorações do Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades, para além de outras coisas interessantes que afirmou, reclamava, em nome desta sua terra, «alguma coisa em que acreditar». O Senhor Presidente da República também, para além do mais que disse, afirmou que «um 10 de Junho em Portalegre (...) tem de ser um compromisso de futuro para com esta terra e para com esta gente». Após o desfile das Forças Militares em parada e de tantos instrumentos de guerra a passar, terminaram as comemorações do Dia de Portugal em Portalegre. Ao desfazer da festa, aproximei-me, respeitosamente, do Senhor Primeiro Ministro para o cumprimentar. O Senhor Primeiro Ministro logo me arremessou, sem mais, com ar sombrio e tom seco, que os Primeiros Ministros não são todos iguais. E repetiu, e voltou a repetir. Porque surpreendido, e gente se apercebeu deste momento de tensão inesperada e a despropósito, com delicadeza lhe retorqui que não estava a perceber. Não demorou em dizer que ouvira o que eu disse sobre a Barragem do Pisão. E em andamento, reiterou, para que de novo eu ouvisse, que os Primeiros Ministros não são todos iguais. Foi então que consegui ligar os fios à meada. O Senhor Primeiro Ministro, coisa que é normal pois nem sempre é possível agradar a todos, não gostara do que eu disse, na véspera, a uma rádio, perante a insistência duma jornalista que não despegava. E eu, tentando lembrar o que é que tinha dito, acho que disse pouco e apenas o óbvio, mas identificando-me com os anseios desta gente que muito respeito, admiro e estimo, como estimo, admiro e respeito os seus autarcas e políticos e todas as instituições e gente que se batem por esta e outras causas tidas como essenciais para o desenvolvimento do território e a qualidade de vida das pessoas. Confesso que, perante a insistência do Senhor Primeiro Ministro em dizer que os Primeiros Ministros não são todos iguais, fiquei deveras convencido que o Senhor Primeiro Ministro tinha razão, os Senhores Primeiros Ministros não são todos iguais!...
Peço desculpa pelo desencanto! Que a Barragem nasça e cresça!...

Antonino Dias
Portalegre-Castelo Branco, 14-06-2019.

A crise do capital

Meu dedicado Henriques
 Quando éramos jovens no seminário de Alcains diziam-nos que estávamos na idade da crise. Nunca entendi bem o que os nossos prefeitos queria dizer com tal vocábulo. Tão mergulhados no ideal místico que me propunham, a crise para mim era o grau de santidade a que era desafiado nos retiros mensais, dirigidos pelos jesuítas da Covilhã, na pessoa do rigorista padre Simões. São Luís de Gonzaga era o modelo a imitar por qualquer jovem seminarista.
Agora, dizem-nos que tudo está em crise. As instituições políticas e religiosas, as famílias e toda a política mundial. Afogados nesta cultura, cada um procure discernir os sinais dos tempos com a grelha que julgar mais apropriada. Não há certezas. Só interrogações.

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Num abraço forte
F. Beirão
 

Uma doença demolidora

 

A palavra mais repetida e apregoada nos últimos dias, pelos nossos comentaristas de serviço, é a indefinida palavra “crise”. Vocábulo tão genérico e subjetivo que facilmente pode ser manipulável, segundo a grelha de leitura de cada olhar. Não se conhecendo os seus contornos específicos, tanto pode servir para explicar a realidade envolvente, como pouco ou nada acrescentar, à complexa análise dos fenómenos sociais e políticos.

A derrota da direita nas últimas eleições para o Parlamento Europeu, com o PSD a ter a pior percentagem da sua história eleitoral, e com o CDS já a competir por baixo, com o PAN, aponta para um possível processo de decomposição em curso, em direção a uma profunda crise da direita. Por várias razões, os números têm-nos revelado que a direita em Portugal tem vindo a perder votos, já desde há alguns anos. Foi neste pano de fundo que saltou para a ribalta a palavra crise, colada à direita, pela voz do Presidente/comentador, Marcelo Rebelo de Sousa.

Segundo ele “há uma forte possibilidade de haver uma crise na direita portuguesa nos próximos anos”.

Esta frase proferida pelo Presidente, como uma pedrada no charco, logo alvoroçou a direita em Portugal. Discordando desta análise de Marcelo, imediatamente, chutando para canto, Rui Rio, líder do PSD, veio a terreno contrapor tal leitura. Segundo ele, não é a direita que se encontra numa situação de crise, mas o regime. Como quem diz, não é ao meu partido que assenta a carapuça, Sr. Presidente. A crise, segundo Rio, não se cola tanto à direita, mas atinge sobretudo o próprio regime político português.

Seja como for, tenho para mim que o problema pode ser mais largo e profundo. Prefiro centrá-lo mais na longa e constante crise da doença destruidora do capitalismo mundial, nas suas mais diversas formas. Um sistema que, verdadeiramente, se encontra doente e não funciona em benefício da maioria da população. Um pequeno núcleo de capitalistas, aproveitando-se da globalização da economia e das finanças, enriqueceu de tal modo que a maior parte da humanidade vive dos restos que vão sobrando das suas lautas mesas douradas. Sendo assim, poderemos concluir que será sobretudo o sistema capitalista que se encontra doente.

Mas devo acrescentar que o capitalismo é o pior dos sistemas, exceto todos os outros. Todas as outras alternativas, tentadas ao longo da história, foram fracassando, gerando pobreza, fome, repressão, guerra e morte.

Uma das causas do mal-estar nas sociedades capitalistas ocidentais, quanto a nós, foi sobretudo a progressiva destruição de uma classe média forte, base indispensável para uma democracia saudável e estável. A estagnação ou diminuição dos salários e dos rendimentos deste sector social acabaram por produzir uma sociedade desigual que gerou grande descontentamento. Daqui decorre que algumas forças políticas mais radicais europeias tenham obtido tão elevado número de votos, com os seus programas nacionalistas e xenófobos. Se no nosso país ainda tal não aconteceu, não podemos baixar as armas. A nossa direita, ainda muito repartida, pode medrar se não se concretizarem políticas que apoiem os descontentes do sistema.

A situação em que se encontra a nossa sociedade é deveras preocupante e encerra os germes de uma certa revolta popular. Certamente, não será o nacionalismo ou a xenofobia ou outros problemas europeus, mas a corrupção, a medrar todos os dias. Hora a hora, é mais um escândalo com “teias” a acrescentar a outras. São as desigualdades gritantes entre os muito ricos e o volumoso contingente de crianças pobres. É o estado periclitante da Saúde e da Justiça a terem dificuldade em responder atempadamente e com qualidade às necessidades dos cidadãos. Junte-se ainda a necessária reforma do nosso sistema eleitoral, para aproximar eleitos e eleitores e o combate às alterações climáticas.

 Não se poderão resolver, a todo o vapor, todos os problemas de uma sociedade atrasada e débil, como é a nossa. Mas, quanto a nós, o que os cidadãos mais clamam é que, nas grandes questões que atravessam a nossa sociedade, os principais partidos políticos se unam e decidam com fundamento, o que julgarem ser mais vantajoso e urgente. O eterno passa culpas dos políticos não tem ajudado, infelizmente, a resolver muitos dos eternos problemas com que nos vamos debatendo todos os dias. Os ataques pessoais das últimas eleições, entre os políticos, foram um exemplo pouco edificante e não auguram nada de positivo.                                 

florentinobeirao@hotmail.com

Foto da Sertã, com o Florentino entre o Jana e o Zeca (José de Jesus André)

Da Parreirinha

Que linda mensagem acompanha esta foto!

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Apesar das férias, ainda compareceram sete. 


Cá estamos nós, bem dispostos como de costume, depois de termos atravessado os pingos da chuva. É que por estas bandas também chove, mas nunca molha os corações, onde só existe sol. 
Um abraço.

Manel Pires Antunes

Aniversário

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Neste dia 14 de Junho, celebra o seu 69.º aniversário o Francisco Pedrógão Pousadas, natural de Alter do Chão e a viver em Lisboa, segundo diz o seu Facebook.

Queremos desejar-lhe um dia de anos muito feliz, na companhia de familiares e amigos.

E votos de longa vida com saúde. Quando aparece, Francisco?                               

Contacto: tel. 964 662 571

Um livro em recensão - 2

Ainda a propósito do Livro de Memórias do José Alves Jana - "O meu Seminário" - escreve João Lopes

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“ A memória, ao contrário de uma gaveta, consiste em tudo o que esteve guardado, mesmo que já não esteja” Pedro Mexia

  “ Les jours s´en vont, je demeure!  Apollinaire

 

  Uma das primeiras impressões de leitura de “ O meu Seminário” ( 1963-1974)  de Alves Jana  é o espanto que naturalmente nos provoca  a sua memória, robusta como  um sobreiro, elegante e flexível como um salgueiro da borda-Tejo. Como é possível “reactualizar” com tal fidelidade, evocando, isto é, chamando lá de longe(ex) até ao presente da “ voz” da escrita (narração), (vocare) lembranças miúdas, sem serem fúteis, detalhes quase impossíveis de reter, no vórtice tumultuoso dos nossos dias?  Qual de nós, 40 anos passados, era capaz de reproduzir, sem hesitação, o número da roupa (427, o do Jana) p.27, ou reter a imagem do licor Beirão estampada na maléfica régua de madeira do seu prof. de  Música, ouvir o eco da ladainha de insultos do prof. de Latim:  Burricas, burricancas, burricocas”  ou mesmo até de elaborar uma descrição tão precisa e completa da confecção das hóstias? (p. 38)

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   Na tentativa de recuperar o “seu” passado vivido, mas ameaçado de se esvair na voragem do tempo, o autor olha para o seu retrovisor, metáfora adequada à sua magistral retrospectiva,  e contempla o desfile quase cinematográfico das imagens que se sucedem a um ritmo alucinante, ao passo estugado e lépido de uma caminhada de escuteiros, sem que perca o controlo da narração, indo ao ponto de organizar o seu texto (ou discurso), na página em branco, com uma esquadria e regularidade geométricas, de assinalar, sobretudo, num discurso, em 1ª pessoa, de teor autobiográfico.    Repare-se no paralelismo quase anafórico como dispõe os nomes dos profs e as disciplinas que leccionam. “ O P. Manuel dava-nos desenho e português (…) O P. Eusébio… Francês”(…)  E por aí fora, em parágrafos bem medidos, simétricos, entre os quais se abre um espaço de respiração e silêncio.

  Nada disto é fruto do acaso, mas do espírito racional e organizador do sujeito que escreve e diz “EU” para uma 2ª pessoa, representativa dos seus destinatários.

   Alves Jana, no seu afã de debitar memórias, sabe conter-se, não contando tudo o que se passou, embora guardado esteja na consciência, mas só o que lhe parece  ser funcionalmente relevante para que o leitor  fique ciente da forma como ele viveu o “ seu” seminário, como eu-menino,  como eu-adolescente, como eu-jovem e como eu-adulto, amadurecido para tomar decisões definitivas sobre o rumo a dar à sua vida. Guardar e apagar, eis o binómio antinómico e complementar do acto de recordar.

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  Alguém explicou que o “passado” não se conserva como coisa congelada na prateleira (do pré- consciente), mas se reconstitui  ou reconfigura no palco da consciência do passado, a partir  do “presente” da própria rememoração e do seu contexto de enunciação, sem perder a noção de que o passado não se pode confundir com o presente que o ressuscita, sob pena de se cair numa espécie da alucinação, que atinge os que irremediavelmente vivem agarrados à eterna nostalgia da vida pretérita, esgotando-se  no escavar o terreno  das vicissitudes pregressas e enterradas.

 A tal risco não se expõe o autor/sujeito destas memórias, tratando logo de elucidar a sua posição: “ A memória apresenta-nos o passado tal como ele é para nós hoje. É a esse passado-presente que procurei ser o mais fiel possível.” ( p.8 )

 Quantas  vezes nos  deparamos  com o problema da identificação de uma pessoa com a qual convivemos num passado longínquo, tal o efeito da erosão operada pelo TEMPO, esse  terrível devorador de identidades que ele próprio esculpiu! A vê B, seu antigo companheiro de escola e fica perplexo. Será que o (re) conheço!  EH pá, como estás mudado! Pareces outro!  Ou então: estás na mesma, caramba! Os anos não passam por ti!  O mesmo jeito de andar, o mesmo tom de voz, esse olhar sempre de viés, a largueza de gestos e o ar esquivo e arisco de quem está sempre a fugir de si e dos outros! Ou, de forma mais generosa e eufemística:  Deixa lá, não estás velho, pá; estás vintage!

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 Passado e presente em conflito permanente, que nem a maquilhagem supera e transfere, fissuras e rugas indisfarçáveis, que só o poder reconfortante da memória pode suavizar, sem, no entanto, preencher as fracturas que o tempo rasgou. Para sempre. Até que os outros tenham saudades de nós.

 Por aqui me fico, voltarei ainda se Deus quiser. Vou transportar as minhas memórias, não como um fardo ou mala pesada de viajante (seminarista ou outro),  sabendo que evocar hoje o que ontem  comigo e os outros se passou, me(nos) pode dar algum alento na dura travessia da vida. Até lá, alegremo-nos com o ENCONTRO deste livro,  para prelibarmos as delícias de outros grandes  encontros, em Alcains, ou onde os deuses por bem entenderem!  

João Lopes

A prova dos caracóis

Como o trabalho voluntário em ambientes de incerteza e risco nos pode levar a viver valores que defendemos, mas que dificilmente concretizamos.

 

“O pai do pequeno Zé, menino que eu já me tinha habituado a acompanhar a casa, tinha preparado um panelão de caracóis para eu comer com eles!… e teve de ser!”

 

Retomo e continuo a última crónica em que escrevia, recorrendo a um diário em que registei algumas notas, sobre o trabalho que fiz com 16 anos (em 1973) no Bairro do Relógio, em Lisboa, perto da Rotunda do Aeroporto, num Centro de Tempos Livres com crianças pobres em idade escolar.

Mais importante do que o planeamento de atividades no Centro de Tempos Livres, a sua concretização e o balanço que delas íamos fazendo, foi o Tempo dado que vivi nesses dias passados no Bairro do Relógio.

O Tempo dado só se diferenciava de todo este trabalho voluntário, por ser aquele que livremente nos dispúnhamos a dar fora do horário estipulado para atividades dentro do centro. Lembro-me que esta foi uma sugestão da assistente social que nos desafiou dando-nos inteira liberdade individual para a concretizar ou não.

Vamos então aos registos do que escrevi no meu diário:

 “(…) Hoje cheguei bastante cedo e já havia miúdos rondando o centro, tentando entrar. Uns trepavam as redes, outos saltavam para dentro. Enfim: um movimento inexplicável de crianças.

Algumas miúdas vieram ter comigo, com umas caras desejosas de saber do amor. Compreendi então que me tinha de dar na totalidade a todos se queria realmente trabalhar com eles.

(…) não sei bem como, mas a certa altura dei um lenço a uma miúda que tinha ficado encantada com ele quando eu a assoei de tudo o que tinha no nariz. Ficou tão contente com a prenda que se agarrou ao meu pescoço com tal força que senti dentro de mim uma tão grande alegria que, se tivesse 20 lenços, dava-os todos.

(…) Por fim, quando saíamos, sempre com muita dificuldade em deixar os lápis, a plasticina e os dados coloridos, íamos para a rua e víamos que havia já alguma ligação entre alguns de nós e os miúdos que se começavam a cativar mutuamente.”

Tornou-se um hábito sair com eles do Centro no final das atividades.

“(…) ao sairmos fiquei a falar com alguns dos miúdos e talvez por eles, ou por mim, conseguiram levar-me a dar uma volta. E foi uma volta que já mais esquecerei…”

A prova dos caracóis aconteceu numa dessas caminhadas que me habituei a fazer com os miúdos depois da atividade. Nessas voltas conversávamos mais à vontade e eles gostavam de me mostrar as casas e as famílias. Nem sempre me sentia muito à vontade, mas hoje reconheço que só “ganhei” na proximidade que fui conseguindo com aqueles miúdos que na sua humildade e gratidão me retribuíram muito para além do que eu dei.

Nunca tinha experimentado caracóis e para dizer a verdade só de pensar nisso dava-me volta ao estômago, mas nesse dia não havia volta a dar. O pai do pequeno Zé, menino que eu já me tinha habituado a acompanhar a casa, tinha preparado um panelão de caracóis para eu comer com eles!… e teve de ser!

E, surpresa… gostei!

Recordo com uma emoção muito especial, sempre que volto a comê-los, essa prova dos caracóis que agradeci do fundo do coração por me ter ensinado a receber de mãos abertas o que é diferente e nem sempre fácil, desde que seja sinal de amor e amizade.

Lisboa, Junho de 2019

Ana Cordovil é pintora

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