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ZONA BEIRÃ DO PINHAL SUL

ETNOGRAFIA DA ZONA BEIRÃ DO PINHAL SUL- CONCELHO DA SERTÃ

Nogueira.jpg

 

GENERALIDADES

A zona beirã do Pinhal Sul compreende quatro concelhos: Sertã, Oleiros,  Proença-a-Nova  e Vila de Rei. Em tempos, esta foi a maior zona de pinheiro bravo da Europa. Infelizmente, os incêndios e as plantações de eucaliptos tiraram-nos esse record. Neste trabalho vou ocupar-me, apenas,  de aspetos etnográficos do concelho da SERTÃ e ainda, neste concelho, de uma das suas 14 freguesias ( Troviscal, Sertã, Pedrogão Pequeno, Ermida, Figueiredo, Cumeada, Marmeleiro, Cernache do Bom Jardim, Nesperal, Palhais, Castelo, Carvalhal, Cabeçudo e  VÁRZEA DOS CAVALEIROS.

 

Várzea dos Cavaleiros, situa-se na margem da ribeira da Tamolha, e é a quarta freguesia do concelho da Sertã - logo a seguir a Sertã, Cernache do Bonjardim e Pedrogão Pequeno. Tem mais de trinta pequenas povoações, entre as quais cito apenas as mais populosas e importantes, como sejam Mosteiro de São Tiago, Entre a Serra, Póvoa, Beirão, Vale do Pereiro,  Pereiro,  Maljoga,  Moinho do Cabo, Moinho Branco,  Isna de São Carlos, Sesmarias, Moita da Lomba,  Sobral, Ribeiras Cimeiras, Ribeiras Fundeiras ( onde nasci, em 1933 ) , Outeiro,  Boiçô, Sobral, Isna de São Carlos, Porto dos Cavaleiros, etc.

Segundo a lenda (chamada lenda da CELINDA), o nome Sertã tem origem no seguinte: Quando Roma tentava conquistar a LUSITÂNIA, no ataque ao castelo da Sertã, ainda existente, um soldado romano subiu às ameias do mesmo, para atacar.  A mulher do guarda do castelo, cujo marido fora morto na batalha, estava a fritar ovos numa frigideira quadrada - S E R T AM - . Para defender o castelo e vingar a morte do marido, a castelã, aproximou-se da ameia e despejou o azeite quente, a ferver, sobre os atacantes que fugiram, assim se gorando o ataque.  Desde então, o local passou a designar-se SERTÃ.

Diz um reconhecido antropólogo que o povo desta região tem “ o mesmo fundo de carater do povo português: docilidade,  bondade, grande poder de trabalho, alegria, resignação, lealdade e sobriedade” .  Acrescento, ainda, crente, honrado e respeitador.

 

ETNOGRAFIA

A definição mais interessante que encontrei para ETNOGRAFIA foi “ método de estudo utilizado pelos antropólogos, com o intuito de descrever as tradições de um grupo humano”.

Vou, assim,  descrever alguns episódios etnográficos, de que me recordo:

 

A - VIDA COMUNITÁRIA       

 

1º - REBANHO DE GADO

                A minha pequena povoação – RIBEIRAS FUNDEIRAS – tinha, nessa época, 7  fogos – famílias – ( não se admirem, hoje tem dois ). Naquela região, havia muitas famílias numerosas ( na minha casa fomos 12 ), pelo que a população rondaria cerca ou mais de 50 pessoas, incluídas as empregadas domésticas.

Não obstante a sua pequenez, cada família era dona de 5 ou 6 cabras. Para evitar maiores despesas, os moradores acordaram em admitir ao serviço um pastor comum, que, todos os dias “tirava” o gado dos currais e  levava-o  a pastar pelos campos, regressando depois do sol posto.

Curioso é que o rebanho, composto por mais ou menos 30 cabeças, ao regressar, cada grupo conhecia o seu curral e ia, em tropelia, para o local que era o do seu dono.

Excepção feita aos bodes, que entravam no curral onde houvesse uma cabra com o cio. Perguntar-se-á: porque é que não havia um só curral? A resposta é que cada família necessitava do estrume dos animais para estrumar as suas terras. A cama dos animais, assim como as próprias ruas da povoação eram, nessa época, cobertas de mato, pisado pelas pessoas e animais para estrume – o melhor adubo, substituto dos químicos.

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2º - O FORNO

                 Havia um só forno, fosse para cozer pão ( broa ), ou para fazer apetitosos assados. Normalmente, as famílias coziam uma vez por semana, de forma a terem  broa fresca. Havia rotatividade, estando colocaMoinho-de-água.jpgda, à entrada do forno, uma tábua, com furos correspondentes às várias famílias.

        

3º - O MOINHO COMUM –  AZENHA

Os cereais eram moídos num moinho ( azenha ) existente à beira da ribeira. Nessa época, em que não havia os motores de tirar água para as regas, não faltava a mesma. A partir da ribeira, num açude ali existente, desviava-se  água, para uma levada, até ao moinho. A água era conduzida, depois, por uma calha inclinada em madeira, e batia, com força, nas pás de um rodízio que rodava, transmitindo a rotação às mós do moinho, no andar superior. Uma mó era fixa, a outra rodava sobre ela, esmagando os grãos do cereal que se transformavam em farinha, que era peneirada para fazer o pão. 

Este moinho COMUM servia os moradores, havendo um livro de capa dura, que passava, de casa em casa, e cada família sabia o dia em que podia moer.

 

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4º - O LAGAR DE AZEITE

Na minha povoação, na margem da ribeira da Tamolha, funcionava, na época da apanha da azeitona, digamos de Outubro de um ano a Março/Abril do ano seguinte, um lagar de azeite movido a água. Este lagar foi desativado, por expropriação da Junta Autónoma das Estradas, com o fim de interesse público – construção do I.C.8 – auto estrada que vai de Pombal à auto estrada, nas proximidades de Castelo Branco.

Este lagar era propriedade de 14 sócios e figurava, na Repartição de Finanças, na titularidade de um deles & sócios. Nele, os sócios moíam a azeitona de cada um, sendo-lhe retirada a “maquia” ou seja uma percentagem de azeite que era guardada num pote e, no fim da colheita, vendido e o produto da venda distribuído pelos sócios. Além da dos sócios, o lagar moía a azeitona de agricultores que não o eram e que habitavam e tinham os seus olivais nas proximidades. Havia vários lagares, v.g. nas proximidades - nas Ribeiras Cimeiras - havia outro no Porto dos Cavaleiros, também na margem da Tamolha.

O lagar, movido a água, como escrito antes, tinha uma grande roda com pás, que era impulsionada com uma corrente de água, proveniente da ribeira, através de uma levada que terminava numa calhe oblíqua que, com força, batia nas pás da grande roda metálica, transmitindo o movimento ao equipamento interior do lagar, essencialmente composto por 2 grandes galgas em pedra, que rodavam em círculo,  pisando a azeitona num “pio”. A azeitona moída era metida em ceiras e  colocadas estas numa prensa,  umas em cima das outras, para “espremer” o azeite que ia a decantar em “tarefas”. O bagaço que ficava nas ceiras era retirado com um pau e servia de ração para os porcos que cada família tinha.

Praticamente, estes lagares manuais, digamos assim, deixaram de existir, tendo sido modernizados ou substituídos, com funcionamento a eletricidade e centrifugadoras.

Era e é costume que os proprietários, quando a sua azeitona estava a ser moída, convidarem os amigos para uma TIBORNA, ou seja cozerem, na fornalha, batatas com bacalhau, aquecerem fatias de pão e embebê-las em azeite e fazerem uma seroada com vinho “carrascão”. Tão boas recordações se guardam destes convívios!

 

B - OUTRAS ACTIVIDADES

         

5º- A APANHA DA AZEITONA

Era uma das mais difíceis tarefas do trabalho rural. Na verdade, antes das novas e atuais máquinas, a apanha da azeitona era complicada. Antes de mais, porque ocorria e ocorre em pleno inverno com frio de rachar. A faina começava antes do nascer do sol e, pode imaginar-se  que temperatura tinha que se suportar. Primeiro, estendiam-se os panos debaixo da oliveira a “apanhar”. Depois, alguns trabalhadores subiam às oliveiras, através de escadas com degraus fixados nos banzos e colhiam as azeitonas que caíam sobre os panos juntamente com folhas dos ramos. Outros trabalhadores ficavam no chão a colher as azeitonas dos ramos mais baixos. Entretanto, o sol nascia e o rancho ganhava força e alegria no trabalho. Era ouvir o cantorio que soava pelas encostas. Da canção popular de que mais me recordo era,  “O CHAPÉU PRETO”, assim:

 A azeitona já está preta,                        É mentira, é mentira, é mentira, sim senhor,

Já se pode armar aos tordos,                  Eu nunca pedi um beijo,

Diz-me lá ó cara linda,                              Quem mo deu foi meu amor.

Como vais de amores novos.                   Ó que lindo chapéu preto naquela cabeça vai,  

                                                                        etc.,etc……………………………………………………                                                                                            

Continuavam com as várias quadras e logo entoavam outras canções populares, como a “Rosa arredonda a saia”, “o alecrim", “ ai, ai, ai minha machadinha” e tantas outras  que a juventude cantava à desgarrada.

Uma tradição era, quando aparecia o patrão, uma das raparigas “penhorá-lo”, oferecendo-lhe um ramo de oliveira, carregado de azeitonas. A contrapartida do patrão era o rancho receber um garrafão de vinho ou outra prenda.

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- A MATANÇA DO PORCO

Cada família engordava um ou vários porcos, através das hortaliças das hortas, das frutas, tais como figos, maçãs e, ainda dos restos de comida das refeições ( vianda ).

Em Dezembro, normalmente antes do Natal, havia a matança do porco, em que os vizinhos se entreajudavam e era uma festa. Matar, chamuscar,  pendurar, abrir, desmanchar, salgar os presuntos e pás, fazer os chouriços – morcelas, mouras, magras, farinheiras – etc.

 

7º - A CÔNGRUA

Para a conveniente sustentação do pároco da freguesia, cada família pagava, anualmente, um estipêndio em milho ou outros produtos da terra. Nas povoações havia um vizinho que se ocupava dessa tarefa.

 

8º----- A IRMANDADE

Cada povoação tinha, normalmente, uma denominada irmandade que se reunia pelo São Martinho, na casa do Irmão,  nomeado para esse ano. Cada um levava um farnel e passava-se uma tarde a beber e a comer. Nos intervalos, rezavam-se terços por alma dos falecidos. Eram estes irmãos que se ocupavam dos formalismos do funeral de quem morresse, inclusive transporte do cadáver e refeições para os “doridos”, que nada faziam, só acompanhar o familiar defunto.

Penso que mais episódios da etnografia da minha freguesia havia para descrever, mas entendo que já fui longe.Termino, com votos de Saúde e Alegria! 

 

13-02-2017 – J. NOGUEIRA   

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