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Animus Semper

Centenário das aparições (7)

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Chega-nos hoje o 7.º e último estudo do Florentino Beirão acerca do centenário das aparições. Foi um trabalho de peso, de fácil leitura mas a lembrar dados históricos pertinentes que nos ajudam a compreender melhor o lugar de Fátima na vida da Igreja, de Portugal e do mundo.

Para quem quiser ler todos os sete textos, basta clicar na tag "fátima" que se encontra no fim deste texto. AH

 

Fátima na era da globalização

 

Nas décadas de 50/60, Fátima foi-se consolidando e expandindo. Para tal, muito ajudou a relação de Fátima com Pio XII, a envolver-se nas aparições, através dum enviado à Coroação da imagem da S.ª de Fátima em 13.05.1950, bem como ao encerramento do Ano Santo em 13.10.1950. Na mensagem papal já foram referidas as viagens das 13 imagens peregrinas que andavam a percorrer o país e o mundo. Ao concelho de Castelo Branco, chegou em 1951. Anos depois, o que viria a ser o papa João XXIII, deslocou-se a Fátima em 13.5.1956, para presidir às celebrações do 25.º aniversário da consagração de Portugal ao Imaculado Coração de Maria. Seria uma marca “indelével” na sua vida. Num clima de exaltação fatimista, no final da década de 50, em 1958, Américo Tomás - a competir com Umberto Delgado na campanha para as eleições presidenciais - decidiu aproveitar-se de uma peregrinação nacional, para se mostrar ao país devoto, aparecendo, em lugar de destaque, na Cova da Iria.

No início da década de 60, em 13.10.1962, o Vaticano declarou N.ª S.ª de Fátima padroeira da diocese de Leiria. Mais tarde, em 13.05. 1967, com Portugal plenamente envolvido na guerra colonial, Paulo VI, em clima de tensão com Salazar, visitou Fátima como peregrino, juntando-se às comemorações dos 50 anos das aparições. Note-se que ao longo da guerra colonial, predominou, por parte dos peregrinos, o cumprimento de promessas relacionadas com este conflito. Simultaneamente, com os problemas de uma emigração clandestina elevadíssima para a Europa, as famílias fizeram de Fátima um espaço de devoção de famílias aflitas. Porém a partir de 1968, já não eram só os republicanos radicais a contestar Fátima. Também no seio dos católicos progressistas e de alguns padres, começaram a surgir vozes críticas contra o fenómeno das aparições, acusando o clero de promover “um culto mágico”, de tornar a religião “utilitáriae “com cumplicidade com o regime salazarista”. Com a Revolução do 25 de abril de 1974, Fátima e a política não beliscaram as suas relações. Aprendeu-se com a dolorosa lição da 1.ª República maçónica. Contudo, as peregrinações nesta altura acabaram por diminuir.

Internacionalmente, seria sobretudo graças ao mariano papa João Paulo II que se deslocou à Cova da Iria em 1982, 1991 e 2000 que a devoção à Virgem de Fátima mais se expandiu. O ponto mais alto destas visitas deu-se em 13.05.2000, com este Papa a proclamar os irmãos Francisco e Jacinta, “devido às suas qualidades espirituais”, como Beatos da Igreja.

Mais tarde, a antiga relação da mensagem de Fátima contra o comunismo foi realçada na altura da destruição do Muro de Berlim em 1989 - construído em 13.08.1961 – tendo o santuário adquirido e ostentado um pedaço desse muro no recinto da Cova da Iria. Entretanto, este espaço ia-se embelezando e enriquecendo com a construção da monumental basílica da S.ª Trindade, inaugurada em 2007. Em 2004, retirou-se a anterior “Cruz Alta” e ali foi colocada uma mais empolgante e moderna, perto da nova basílica que alberga 8.633 fiéis.

Eleito Bento XVI, entre 11 e 14 de maio de 2010, este novo Papa também se deslocaria à Cova da Iria e aqui interpretou teologicamente, a 3.ª parte do “Segredo de Fátima”. Para responder a uma devoção dos peregrinos, em 2013 o Santuário adotou o branco “Lenço do Adeus” para saudar a Virgem e limpar as lágrimas dos peregrinos, na emotiva procissão do adeus.

Como fomos verificando, partindo de uma simples mensagem a três crianças pobres e analfabetas, Fátima foi sempre tendo capacidade para incorporar novas mensagens, metamorfoseando-se, face ao evoluir dos acontecimentos, envolvida por um substrato ancestral de religiosidade popular. Embora dentro de alguns membros da Igreja se tenham levantado dúvidas, incertezas e fortes críticas às aparições, uma grande parte do povo crente, sempre deu corpo a esta devoção. Finalmente, a presença do papa Francisco em 12-13 de maio de 2017 em Fátima, canonizando Francisco e Jacinta, na presença de cerca de um milhão de peregrinos, foi mais um momento alto nesta onda devocional, onde a religiosidade popular e o Vaticano se uniram, convivendo embora com um próspero e agressivo negócio turístico, por vezes raiando o escandaloso. Quanto a nós, difícil senão impossível, será apurar-se a verdade, nua e crua, sobre esta experiência religiosa subjetiva das “místicas visões” das crianças, sempre sujeitas a arranjos, interpretações e a novos olhares. O que é espiritual é da ordem do espiritual. Hoje, Fátima na era da globalização, aí se encontra pujante, a desafiar os novos tempos, repletos de medos e incertezas, em busca de Paz e Esperança.

florentinobeirao@hotmail.com

 

PALAVRAS FINAIS DO FLORENTINO:

António, aí vai a última colaboração sobre esta temática. Amalgamada, mas creio que não vale a pena esticar mais o tema. Espero que esta série tenha sido elucidativa do fenómeno fatimiano. Muito ficará por dizer. Mas do essencial penso que, em síntese, estará quase tudo. Outros poderão fazer melhor. Por mim, terei dado algum contributo para que libertemos Fátima de muita superstição e milagrite e, dentro da liberdade dos filhos de Deus, façamos as nossas, sempre complexas e problemáticas opções.

Muitos se manifestaram com agrado. Outros, por ventura, fartos. Novos assuntos se seguirão se o engenho, a saúde e a arte me acompanharem.

Gostei da nova iniciativa do nosso querido Animus Semper. Cada dia, uma personagem do livro II. Deste modo, mais leitores poderão aproveitar a inspiração do nosso amigo Mendeiros. Formidável a sua criatividade.

Um abraço

F. Beirão

Centenário das aparições (6)

Mais um texto do Florentino Beirão por ocasião do centenário de Fátima. Privilegiando o seu desenvolvimento histórico, ficamos mais esclarecidos acerca deste fenómeno, hoje com carácter universal. AH

 

Epicentro religioso do país

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Enquanto decorriam as obras na Cova da Iria nas décadas de 20/30, o fenómeno mariano ia-se expandindo e ganhando novos contornos. Mesmo o bispo de Portalegre Domingos Maria Frutuoso, de início descrente, acabaria por se render às visões, decidindo demonstrá-lo, ao celebrar na capelinha da Cova da Iria, em 1931, um Solene Pontifical.

Se como já referimos, a nível material se continuava a apostar neste espaço, o aspeto pastoral não era descurado. Confirmam-no as múltiplas e contínuas cerimónias realizadas na Cova da Iria as quais, a partir da década de vinte, já contavam com a imagem da “Senhora de Fátima” que José Tendin e o padre Formigão elaboraram para a capelinha. Lúcia, ao vê-la, concordou com o resultado. Também para animar as cerimónias e procissões, se recorreu em 12.09.1929, aos versos do poeta Afonso Lopes Vieira o “Avé de Fátima” – os quais ainda hoje se entoam nas cerimónias e nas procissões, no país e no estrangeiro.

De início, havia falta de água para os peregrinos. Para matarem a sede, logo alguém se lembrou de fazer negócio com ela. Face a esta situação, em 1922 abriu-se um pequeno poço, num local húmido com juncos, em frente à capelinha. Alguns peregrinos começaram então a utilizar esta "água barrenta" como milagrosa, levando-a como mezinha, para curar feridas e bebê-la misturada com terra da Cova da Iria.

Face a este comportamento supersticioso e anti-sanitário, as autoridades ligadas à saúde pública, em 13.05.1932, decidiram pressionar os responsáveis para alterarem esta situação. A solução foi erguer no local do poço a estátua do Coração de Jesus - oferta de um devoto - e colocar em volta deste monumento o precioso líquido, através de torneiras.

A partir das décadas de 30/40, para completar e ampliar o relato das “aparições”, o bispo de Leiria solicitou à Lúcia que escrevesse as suas “Memórias”. Nelas se incluiu a visita do Anjo de 1916, desvendado em 1937. Anos depois, em 1941 e em plena 2.ª Guerra - Mundial, entre outras visões da vidente, destaca-se a preocupação pela conversão da Rússia comunista e o relato da visão do inferno. Nas “Memórias IV”, enaltecem-se as virtudes dos seus falecidos primos, Francisco e Jacinta. Lúcia descreveu-os como dados “ a sacrifícios, obedientes e piedosos”. A sua futura beatificação pelo Papa João Paulo II em 13.05.2000, contou certamente com este testemunho. Entretanto, a ligação com o Vaticano não era descurada. Assim, em 12 e 13 de maio de 1937, já se realizou a 1.ª Peregrinação Nacional, presidida pelo Núncio Apostólico. Com medo do comunismo, o Cardeal Cerejeira, de acordo com Salazar - na chefia do Estado Novo - enquanto decorria a guerra-civil de Espanha (1936-1939), organizou uma Peregrinação Nacional em13.05.1938, para cumprir um voto dos bispos para que Portugal fosse livre do “perigo do comunismo” que tinha atingido Espanha. Esta vertente continuaria presente em Fátima, ao longo dos conturbados anos da guerra – fria. Quanto ao aspeto urbanístico da Cova da Iria, em 1939, apresentava-se ainda como um espaço desordenado, “um conjunto de barracas de madeira, com aspeto reles, um amontoado de disparates e dinheiro mal gasto”. O que continuava a predominar era a venda de objetos religiosos, por conta do Santuário, incluindo a terra e a água, consideradas milagrosas.

Em 1940, Portugal assinou uma Concordata com o Vaticano, estabelecendo-se entre eles uma paz estreita e duradoira. Este documento viria a contribuir para que o Cardeal Cerejeira e os bispos decidissem transformar a Cova da Iria num “epicentro religioso nacional”. De mãos dadas, a Igreja e o Estado Novo iam tirando partido pastoral e político das peregrinações. Neste clima, logo em 1942, as mulheres portuguesas lançaram uma campanha para angariar ouro e pedras preciosas para oferecerem uma coroa à imagem da Virgem de Fátima. Em 2000, a esta se juntaria a bala do atentado a João Paulo II, ocorrido no Vaticano em 13.05.1981.

Este ambiente fatimista permitiu que de 8 a 13 de abril de 1942, a imagem de Fátima fosse levada em peregrinação para Lisboa e, por via da rádio, o papa Pio XII em 31.10.1942, consagrasse o mundo ao Imaculado Coração de Maria, por influência da vidente Lúcia. A partir desta altura, o papado nunca mais deixou de colocar os olhos em Fátima, nomeadamente com o célebre 3.º segredo, enviado para o Vaticano em 1957 e revelado pelo cardeal Solano, em 2000 com sabor apocalíptico. Este referia-se a um bispo vestido de branco, assassinado. Logo se associou esta visão de Lúcia ao referido atentado de João Paulo II.

Terminada a 2.ª Guerra-Mundial em 1945, Lúcia escreveu ao bispo de Leiria confessando que Salazar “era o homem providencial, escolhida por Deus, para governar Portugal””. Em 1947, para ser divulgada a devoção de N.ª Senhora, “Rainha da Paz”, muito contribuíram as réplicas de 13 imagens peregrinas que, começaram a viajar pela Europa devastada. Este esforço que se estendeu para fora da Europa contou com o “Exército Azul” de cariz anticomunista, iniciado nos Estados Unidos em 1947 em Nova Jérsia, com o padre H. Colgan que se considerou miraculado. Em 1953, mandou construir o hotel “Domus Pacis” junto da Basílica.

florentinobeirao@hotmail.com

Centenário das aparições (5)

Aprovação e expansão de Fátima

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A muitos poderá surpreender a rapidez com que o fenómeno das aparições/visões – como opina o bispo Carlos de Azevedo - se propagou, de um modo tão veloz e consistente. Este alastrar, certamente, muito se ficou a dever ao empenho do carismático bispo de Leiria que, ao longo das décadas de vinte/trinta, tudo fez para aprovar e consolidar esta manifestação de religiosidade popular, nomeadamente, adquirindo e organizando o espaço da Cova da Iria, dotando-o das mínimas infraestruturas para acolher os peregrinos. Se a nível material, todo este projeto ia correndo veloz, o encomendado relatório das aparições a uma comissão de sete sacerdotes, tardava em ficar concluído. Foi necessário esperar por 14.04.1930, para que o padre Nunes Formigão entregasse este documento ao bispo de Leiria. Recorde-se que entretanto, já em 13.10.1922, tinha sido lançado o jornal “A Voz de Fátima”, por este sacerdote, como boletim oficial das aparições, o qual, até hoje, tem alimentando esta causa. Só entre 1922 e 1930, este jornal publicou cerca de 200 casos de curas, tidas como milagrosas. Fruto desta campanha, promovida juntamente com outros jornais católicos diocesanos, como o “Mensageiro de Leiria”, e “A Guarda”, em 13.05.1923, já se deslocava à Cova da Iria, cerca de 80.000 fiéis. Nesta altura, começava-se a desenhar, embora de um modo desordenado, ruas e habitações, para alojar peregrinos. Quanto às esmolas, eram recolhidas e enviadas para a diocese de Leiria, para as construções diocesanas já iniciadas.

Chegados a 1924, Lúcia que se mantinha recolhida num colégio em Vilar-Porto, das Irmãs Doroteias, com correspondência vigiada, só agora conseguiria obter licença para se encontrar pela primeira vez, com a sua mãe Maria Rosa, em Braga. Neste encontro, foi-lhe concedida a licença da mãe para ser freira, após receber o sacramento do Crisma, em agosto. Após esta cerimónia, seguiu para terras de Espanha (Tui / Pontevedra) no dia 25 deste mês, onde se integrou num convento da mesma ordem religiosa. Aqui passaria a mortífera guerra - civil (1936-1939), com escassez de alimentos. Valeu-lhe a família.

A partir da década de vinte, coube ao bispo de Leiria assumir a pastoral da Mensagem de Fátima e as obras da Cova da Iria. Para tal, em 1924, mandou construir um muro para cercar o recinto das aparições, com arcadas e portões de ferro, incluindo duas lojas, destinadas à venda de artigos religiosos. No mesmo ano, edificaria a capela alpendrada das missas. Esta seria demolida em 1946. Em 1925, decidiu ainda construir uma casa no local para um capelão permanente, a fim de fiscalizar e coordenar o culto. Juntou-se a estas obras um Sanatório (Albergue N. S. do Rosário) que levou cinco anos a erguer, para recolher e tratar os doentes que afluíam à Cova da Iria. Foi ainda erguida uma capela para confissões, em 1928. Neste ano, já havia no local quatro hotéis com telefone. Para possibilitar a construção dos novos edifícios e instalar megafones, tornou-se necessário erguer no local uma central elétrica. Esta carência seria colmatada em 13.05.1929. À inauguração, presidiu o presidente da República, general Óscar Carmona e Oliveira Salazar, a quem se juntou o bispo de Leiria José Alves Correia da Silva. Na década de trinta, foi lançada a primeira pedra da Basílica de N.ª. Sr.ª do Rosário, um projeto do holandês Gerard Van Krieken. Coube ao arcebispo de Évora presidir a esta cerimónia. Este templo principal, neobarroco, iniciado em 1938 - acordado entre o Cardeal Cerejeira e Salazar - com cerca de 60 metros de altura, viria a receber o título de Basílica, dado por Pio XII em 11.11.1954 (breve “Luce Superna”).

Entretanto, Lúcia, a partir de 1925 do seu convento, continuou a dizer-se bafejada com novas visões sobrenaturais da “Senhora”, pedindo-lhe nomeadamente em 17.12.1927, que fosse propagada a devoção ao Imaculado Coração de Maria e se espalhasse a devoção dos primeiros cinco sábados. Esta devoção seria aprovada em 13.09.1931.

Entretanto, o referido relatório diocesano, encabeçado pelo padre Formigão, sobre as aparições, foi entregue ao bispo de Leiria apenas em 13.04.1930. Meses depois, em 13.10.1930, numa carta pastoral, “A Divina Providência” o bispo de Leiria declarou finalmente, “dignas de crédito as visões das crianças”. As décadas de vinte e trinta foram assim decisivas, mesmo se diferentes, do que viria a ser a configuração deste fenómeno até hoje. Lentamente, o majestoso recinto da Cova da Iria, de um espaço severo e agreste, foi-se tornando um lugar acolhedor, ao serviço do projeto do bispo de Leiria, possivelmente com os olhos postos no modelo de Lourdes.

 

florentinobeirao@hotmail.com

Centenário das aparições (4)

Mais uma análise histórica no centenário de Fátima. Obrigado, Florentino.

 

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Os novos protagonistas

 

Terminadas as seis “aparições”, Francisco faleceu logo em 04.04.1919, em Aljustrel. No ano seguinte, a sua irmã Jacinta, em Lisboa, em 20.02.1920. Ambos foram atingidos pela mortífera peste da pneumónica. Só resistiria a robusta Lúcia, agora na pré-adolescência, como única testemunha viva das aparições. Nesta altura, não lhe faltaram os convites para visitar famílias amigas e devotas. Entusiasmada com a construção da capelinha, após ter sido solicitada a sua construção em 08.01.1918 ao patriarcado de Lisboa, pelo pároco de Fátima, a vidente, sempre que podia, deslocava-se à Cova da Iria, para angariar alguns donativos com este fim. Em desacordo com esta atitude, vozes críticas, como a católica família Garrett de Castelo Branco, começaram a fazer-se ouvir junto do clero.

Entretanto, o assassinato do Presidente-Rei, Sidónio Pais em 14.12.1918, que tinha concedido alguma paz às relações entre a Igreja e o Estado, conseguiu alterar a relação das forças políticas. A estes acontecimentos se juntou a restauração da diocese de Leiria em 17.01.1918, ficando à sua frente a poderosa figura de D. José Alves Correia, já com 17 deslocações a Lurdes. Uma das suas primeiras medidas consistiu em subtrair Lúcia à sua mãe Rosa, (o seu pai, já doente, morreu em 31.07.1919) retirando-a de Aljustrel. Estava-lhe destinado o seu internamento num asilo do Porto, nas Doroteias, onde aprendeu a ler.

Entretanto, em 28.09.1918, a imprensa, pela mão do padre Manuel Formigão, também com experiência de Lurdes, no jornal católico “A Guarda” ia mantendo acesa a devoção das aparições, com notícias de supostos milagres, atribuídos à Senhora.

Quanto à capelinha, construída velozmente, entre 29.04.1919 e 15.06.1919, ia acolhendo, regularmente, numerosos peregrinos, sob os olhares da devota “S.ª Maria da Capelinha”. Outra medida do bispo de Leiria, em 21.04.1920, consistiu, através de alguns sacerdotes, mandar adquirir os terrenos da Cova da Iria à família Marto, para construir naquele espaço um “Centro de Piedade”, sob a orientação, nomeadamente, do padre Nunes Formigão e do pároco de Fátima, Marques Ferreira.

Neste ano de 1920, uma grande multidão regressou à Cova da Iria para sufragar a Jacinta, recentemente trazida de Lisboa para o cemitério de Ourém. Quem não gostou desta manifestação foi o Administrador do concelho, que movimentou a GNR para impedir novos ajuntamentos. A luta regressava de novo, entre a Igreja e o Governo republicano.

Chegados a 17.04.1921, ainda as escrituras dos referidos terrenos não se encontravam concluídas, já os referidos sacerdotes falavam na construção de uma Basílica na Cova da Iria. Na verdade, a escritura da aquisição dos terrenos só se viria a efetuar em 14.09.21, agora pelo padre Faustino. De imediato, deslocou-se também ao local, pela primeira vez, o bispo de Leiria. Na manga, o prelado levava um projeto para a construção de 12 capelas, com uma Igreja ao centro. Ao mesmo tempo, à semelhança de Lurdes, também ordenou a abertura de um poço naquele local o qual, em 09.11.21, já jorrava água, considerada por alguns devotos, milagrosa. Neste contexto, o bispo, com mão de ferro, decidiu chamar a si o futuro de Fátima, desejando fazer da Cova da Iria um futuro local de peregrinações, à imitação de Lurdes. Para tal, a sua palavra de ordem era tornar aquele um lugar sagrado de “piedade, penitência e caridade” e não, como já acontecia, de foguetório, arraial, venda de vinho e abundante comércio, nomeadamente, de água milagrosa.

Parecia que tudo corria pelo melhor, quando, em 06.03.1922, alguém se lembrou de colocar quatro bombas na recém- construída “capelinha das aparições”, destruindo, em grande parte, a sua frágil estrutura. De imediato, a notícia ganhou asas através da imprensa, relançando de novo a polémica. Os devotos, sentindo-se atingidos, aproveitaram esta atitude agressiva para organizarem uma manifestação de desagravo, contra “o hediondo atentado”. O resultado foi ampliar, ainda mais, o fenómeno das aparições, entre os devotos.

Entretanto o bispo da diocese, tocado pelo entusiasmo desta multidão, cerca de 30.000, em 03.05.1922, decidiu abrir o processo canónico diocesano para validar as aparições da Cova da Iria. Para tal, através de uma Comissão diocesana, formada só por padres, foi colocado à sua frente o grande entusiasta e divulgador das aparições, o padre Manuel Nunes Formigão, teólogo e professor no seminário e liceu de Santarém. A ele se ficaria a dever uma das primeiras entrevistas aos pastorinhos, logo após as aparições. O relatório da vasta equipa responsável levaria vários anos a ser concluído.

florentinobeirao@hotmail.com

Centenário das aparições (3)

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(Mais uma abordagem ao Centenário das aparições em Fátima, numa síntese histórica do Florentino Beirão. Obrigado. AH)

 

Guerra, segredo, milagre

 

Após analisarmos o ambiente político e sócio- religioso das “aparições”, entremos no âmago do fenómeno, referindo sucintamente os diálogos da Senhora “da voz doce”, na descrição de Lúcia. Tudo se iniciou em 13 de maio de 1917 por volta do meio – dia, quando três crianças analfabetas, após a “Missa das Almas” de domingo, se deslocaram com um pequeno rebanho de ovelhas para a Cova da Iria, a dois quilómetros de Aljustrel, sua terra natal.

Surpreendidos por fortes trovões, quando tentavam o regresso a casa, confessaram ter visto uma Senhora, ainda muito jovem, pousada numa azinheira, vestida de branco, com meias brancas nos pés, saia branca pelos joelhos, brincos, cordão de ouro e com as mãos abertas.

Nos interrogatórios, efetuados pelo pároco de Fátima Manuel Marques e por outros sacerdotes, confidenciaram que a Senhora lhes disse que não tivessem medo, que “vinha do céu” e que queria a sua presença neste lugar, nos próximos seis meses.

Como a I Guerra- Mundial (1914-1918) atormentava as famílias que viram partir os seus filhos para a frente de combate- com saída de milhares, em janeiro de 1917 - Lúcia, muito preocupada, terá perguntado à Senhora “se a guerra ainda vai durar muito tempo”. Porém, a resposta, terá sido evasiva: “Não te posso dizer ainda”.

Apesar da vidente recomendar aos primos que não espalhassem a notícia, Jacinta, a mais nova com sete anos, que só ouvira os diálogos da Senhora com a Lúcia, não se conteve e foi espalhando o segredo. A nova correu tão célere, que na aparição de 13 de junho, festa do padroeiro Santo António em Fátima, com bodo, já se juntaram cerca de duas dezenas de curiosos na Cova da Iria. Nesta aparição, a Senhora apenas ordenou às crianças que aprendessem a ler. Porém, a mãe de Lúcia não terá facilitado a concretização deste desejo. Como certo, apenas o Francisco frequentou a escola no ano seguinte.

Chegado o 13 de julho, já com 2.000 pessoas presentes, voltou o tema da guerra, solicitando a Senhora a reza do terço para “abrandar a guerra”. Por seu lado, Lúcia terá pedido um sinal milagroso, para as pessoas acreditarem, as melhoras de doentes e a conversão de algumas pessoas. Jacinta por sua vez, ora dizia que ouvia falar a Senhora ora negava. Francisco, um pouco à margem, confessava que não falava nem ouvia. No local, apareceu já um altar, flores e lanternas. A partir desta aparição, as crianças começaram a falar de um suposto segredo.

Por seu lado, a imprensa nacional e regional, agarrou a notícia do acontecimento, esgrimindo ideologicamente com veemência, os seus argumentos pró e contra.

Entretanto as forças republicanas radicais em guerra com a Igreja, perceberam que a situação lhes fugia ao controlo. Para contrariar a já tão elevada adesão de pessoas, o Administrador da Vila de Ourém, Artur Santos, um republicano maçon, às ordens dos camaradas de Lisboa, decidiu em 13 de agosto, raptar as crianças para a sede do concelho e interroga-las. Deste modo, pensava que tiraria algum entusiasmo aos seis mil devotos. O resultado ditou o contrário. Na voz do pai da Jacinta, Pedro Marto, “ficando o povo desesperado”, a revolta das pessoas atingiria uma elevada temperatura.

Como foi impedido o encontro na Cova da Iria, a Senhora terá compensado as crianças com uma nova aparição nos Valinhos em 19 de agosto, perto de Aljustrel. Nesta aparição, a Senhora, respondendo a uma questão levantada pela Lúcia, terá referido que o dinheiro recebido na Cova da Iria deveria ser investido em dois andores para a procissão da Srª.do Rosário em Fátima, e ainda na construção de uma capela no local das aparições.

Chegados a 13 de setembro, a mãe de Lúcia, Maria Rosa, já muito doente, com receio da filha ser molestada, acompanhou-a ao local das aparições. Neste mês, o tema do diálogo regressou novamente à guerra mundial, então ao rubro. A Senhora “para “abrandar a guerra”, pediu aos pastorinhos a reza do terço. Lúcia, já envolvida por cerca de 25 mil pessoas, às quais prometeu um milagre para outubro, intercedeu por alguns doentes e pela conversão de outros. Em 13 de Outubro, dia chuvoso, o centro foi o “milagre do sol - uma roda de fogo a bailar”, atraiu a atenção dos devotos - cerca de 45 mil pessoas, do Algarve ao Minho. A Senhora terá garantido: “a guerra acaba ainda hoje” (terminou em 11.11.1918). Lúcia relatou ainda uma visão onde aparecia S. José, o Menino Jesus e Nosso Senhor, “com barbas pequenas”. A suposta visão despediu-se, rogando às crianças que rezassem o terço e “não ofendam mais a Nosso Senhor”.

florentinobeirao@hotmail.com

Centenário das Aparições (2)

Outro belo texto do Florentino sobre os pastorinhos, a ilustrar "os contornos do seu ambiente geográfico, económico, familiar e sócio - religioso". Vale a pena ler... AH

 

Os pastorinhos e o seu meio ambiente

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Na última abordagem ao fenómeno das aparições de Fátima, tentámos contextualizar os primeiros traumáticos e complexos anos da implantação da República, após 1910.

Hoje, propomos uma abordagem sintética do tema das aparições, tentando caracterizar os três pastorinhos, indagando os contornos do seu ambiente geográfico, económico, familiar e sócio - religioso.

Os protagonistas dos acontecimentos das ditas visões sobrenaturais, ocorridas na Cova da Iria, entre maio e outubro de 1917, foram três primos, com idades muito próximas. Lúcia, de 10 anos (28.03.1907 - 13.02.2005), Francisco Marto (20.06.1908 - 04.04.1919), com nove anos e Jacinta Marto, a mais novinha, com apenas sete aninhos (19.03.1910 – 20. 02. 1920).

Ainda em tenra idade, em vez de frequentarem a escola primária, ocupavam-se do pastoreio de um pequeno rebanho de ovelhas de seus pais. A aldeia onde residiam situava-se num lugar chamado Aljustrel – na freguesia de Fátima, com 20 aldeolas à sua volta, no concelho de Ourém, diocese de Lisboa. Distava da Cova da Iria, lugar onde terá ocorrido o fenómeno das aparições, cerca de dois quilómetros. Em 1917, Aljustrel era um lugarejo perdido na Serra d´Aire, no centro do país, uma região serrana, com clima mediterrânico, com algumas pastagens, pinheiros e azinheiras, situado num planalto a 478 metros acima das águas do mar. Os seus habitantes reduziam-se a cerca de 25 famílias.

A subsistência dos agregados familiares das três crianças dependia, sobretudo, da agricultura e da pastorícia. Por esta razão, os pastorinhos, desde tenra idade, foram inseridos nas lides do campo, em apoio da subsistência familiar. Assim sendo, não admira que os três primos, em 1917, data das ditas aparições, ainda não tivessem frequentado a escola primária, situada em Fátima, a dois quilómetros das suas habitações, em Aljustrel. Refira-se que, das 36 crianças deste lugarejo, apenas oito frequentavam o ensino primário. O analfabetismo atingia então 88% da população portuguesa, onde se incluía Lúcia, Francisco e Jacinta.

Sobre este aspeto, relativamente à família dos pastorinhos, somente a mãe de Lúcia, Maria Rosa, tinha aprendido algumas letras com uma sua parente, Maria Isabel. Por esta razão, as crianças aprenderam a catequese e várias histórias de aparições de Nossa Senhora –  La Salette a dois pastorinhos, na Nazaré e em Lourdes – juntamente com a Bíblia e o aterrador e polémico livro da “Missão Abreviada”, pela boca da mãe de Lúcia, casada com António dos Santos, um alcoólico esbanjador, com quem teve sete filhos, sendo Lúcia a mais nova. Esta criança, dotada de uma excelente memória, de feições um pouco rudes, com carisma de líder, catequizada pela sua mãe, já aos seis anos sabia a doutrina necessária para poder fazer a primeira comunhão. O que não era muito habitual.

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 Note-se que Lúcia, em família, todos os dias, na sua casa, rezava o terço, dedicado aos familiares falecidos, a oração da manhã e às refeições. Uma prática quase geral nos lares mais religiosos. Lúcia conheceu também, através da sua mãe, uma velha história que remonta ao séc. XVII, relativa a uma aparição junto da sua aldeia, no lugar onde hoje se encontra a capela de Nossa Senhora da Ortiga, a uma pastora muda que, após a aparição, reza a tradição, começaria a falar. A devoção a Nossa Senhora do Rosário que Lúcia tinha, antes das aparições, foi-lhe também transmitida pelas sus irmãs mais velhas que se ocupavam de um altar dedicado a esta devoção à Virgem, na igreja paroquial de Fátima.

Francisco, por sua vez, caracterizava-se por ser uma criança submissa, afetuosa, passivo e obediente. Por sua vez, Jacinta, a mais novita, era dotada de uma grande sensibilidade, de lindas feições, com oscilações de humor e muito dependente da sua prima Lúcia. Os seus pais analfabetos eram pessoas também muito religiosas. A sua mãe, Olímpia, já com dois filhos de um primeiro casamento, após ter enviuvado, casaria com Pedro Manuel Marto. Deste segundo matrimónio, Olímpia teria ainda mais sete filhos, sendo Francisco e Jacinta os mais novos. Serão estas três crianças, criadas neste contexto geográfico, económico e sócio - religioso que se irão transformar em protagonistas do fenómeno da Cova da Iria, iniciado em 13 de maio de 1917, o qual abordaremos mais tarde.

florentinobeirao@hotmail.com

Centenário das Aparições (1)

 

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As mil e uma faces de Fátima

 

A cerca de dois meses das solenes comemorações do fenómeno das aparições de Fátima, tudo se prepara para que nada falte nesse dia festivo. Com a presença do popular Papa Francisco - o 4.º papa em Fátima - peregrino entre os peregrinos, de vários chefes de Estado convidados pelo sempre irrequieto Presidente da República Marcelo Rebelo de Sousa, tudo se conjuga para ser um acontecimento político-religioso de alto-relevo nacional e internacional.

Artigos de revista, jornais, livros, para quem tenha estado atento, não têm faltado para, antecipadamente, se ir preparando o dia 12 e 13 de maio na Cova da Iria.

A nível da movimentação de massas - o turismo religioso - encontra-se em alta. As espectativas não podiam ser melhores. Oito mil milhões de visitantes assegurados. Hotéis há muito esgotados. Autocarros já todos alugados. Mais quatro modernos hotéis construídos. Controlo de fronteiras. Segurança reforçada com milhares de agentes. Milhões já gastos para melhorar as infraestruturas de Fátima. Um sem número de câmaras de vigilância.

Mas, com um Papa tão afetivo e amigo do povo fiel, todos os cuidados são poucos. O protocolo poderá certamente ser alterado pelo Sumo Pontífice.

O fenómeno das aparições - de mil e uma faces - e o seu posterior desenvolvimento, em contínua construção, continuará a ser polémico e multifacetado. Há quem nele acredite. Quem não lhe dê crédito. Quem tenha dúvidas. Mesmo para os católicos, não sendo dogma de fé, há total liberdade de se aceitar ou não. Seja como for, ao longo destes cem anos, Fátima tornou-se tão marcante na nossa história recente, com tantas implicações religiosas, políticas, sociais e de mentalidades, que ninguém poderá ficar indiferente.

Será dentro desta perspetiva que tentaremos contribuir, em próximas abordagens, com algumas breves reflexões, a nível histórico, político-social e religioso, sobre o nascimento e construção do incontornável fenómeno. Numa primeira incursão ao tema, tentaremos contextualizar o fenómeno de Fátima nos seus antecedentes, a partir da revolução da República, ocorrida em 05.10.1910.

Saídos de uma monarquia sem soluções políticas, com um enorme défice financeiro, campeando nela a corrupção, existindo um poderoso e tentacular poder da Igreja na sociedade, com escândalos atrás de escândalos financeiros na sociedade, aparecia agora um regime republicano com idealistas promessas de transformar Portugal numa Pátria moderna, iluminada, laicizada, jacobina, impondo ideologicamente os princípios da Revolução e da República Francesa – liberdade, igualdade e fraternidade – bebidos no Iluminismo do séc. XVIII.

Para conseguir tais propósitos, logo que foi instaurado o novo regime, uma das primeiras medidas a serem adotadas em Abril de 1911, foi a célebre lei da Separação da Igreja do Estado assinada pelo maçónico Afonso Costa, ministro da Justiça. Estavam criadas todas as condições para estalar uma violenta “guerra religiosa”.

O confronto com a Igreja estava lançado. Deste modo, o clero tornava-se o alvo estratégico preferencial, o bode expiatório, para se lhe serem imputados todos os males da Pátria. Com cerca de 90% de católicos no país, o desafio, perante a opinião pública, era muito desproporcionado nesta guerrilha, pela conquista e manutenção do poder.

O grande objetivo republicano consistia agora em retirar ao clero as redes políticas regionais, onde imperava o seu poder, e colocar no seu lugar administradores políticos anticlericais maçónicos, com total fidelidade aos novos senhores. A secularização do casamento e a legalização do divórcio foram outras tantas machadadas nas práticas religiosas do país. Na mesma linha, legislou-se contra os ancestrais costumes, secularizando-se os cemitérios, abolindo-se os feriados religiosos e as procissões fora da igreja. Os próprios bispos seriam afastados das suas dioceses, se criticassem o novo poder. Não esquecendo ainda a expulsão desastrosa dos jesuítas, os grandes obreiros e promotores da educação no país.

Um pequeno grupo de “iluminados“ revolucionários urbanos queriam com estas medidas impor a uma população rural católica e analfabeta, rapidamente e em força, a sua ideologia, contrária os seus ancestrais costumes sociais e religiosos. Perante este vendaval, até alguns republicanos mais moderados, como Manuel de Arriaga, levantaram a sua voz para acalmar os seus correligionários mais radicais, mas sem grandes resultados. É que a “formiga branca”, grupos extremistas, continuavam a desenvolver a sua forte oposição aos católicos.

florentinobeirao@hotmail.com 

 

NOTA: Em boa hora, cheia de oportunidade, o Florentino começa hoje a reflectir connosco sobre o fenómeno "Fátima". Obrigado. AH