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Animus Semper

SEMINÁRIO DE MARVÃO - 3

João.jpgRecordações de Vida

 

Texto de João Chamiço Porfírio

 

(CONTINUAÇÃO DO TEXTO ANTERIOR)

Penso que a estadia do seminário em Marvão, tantas saudades desse tempo, foi benéfica tanto para a vila como para nós.

À vila, entre outras coisas, levou vida, levou animação, alegria - ai o dia de Carnaval, em que apresentámos a charanga formada com os instrumentos da antiga banda da vila, descendo do castelo, regidos pelo Marcelino, hoje D. António Marcelino, Bispo de Aveiro (já falecido), demos uma volta pelas ruas, prrum pum pum, prrum pum pum... Parecia que os que nos viam estavam a reviver as glórias passadas. O Seminário enchia a vila, já então com uma população bastante reduzida e fez com que as pessoas, pouco a pouco, deixassem de olhar para nós como bicho raro, sempre de negro vestido. Éramos verdadeiramente da sua família, ou até para alguns, a sua família. Marvão tornou-se mais conhecida. Já não era mais aquela vilazinha perdida junto à fronteira de Espanha. Era uma terra que tinha algo de que muitas mais importantes se não podiam vangloriar. Era um local onde vários jovens generosos se preparavam para o desempenho duma nobre missão. Era falada nas instâncias religiosas e, pelo menos nas terras donde tinham vindo seminaristas. Mesmo no aspecto religioso alguma coisa ficou, como era de esperar e pude verificar, uns anos mais tarde, quando por algum tempo ali fui pároco, numa experiência maravilhosa que, talvez ainda aqui venha a partilhar com quem tiver a paciência de me aturar e ler.

A nós, trouxe-nos a palpação da realidade da vida de muitos cidadãos deste país e não só. Foi um banho de inserção na realidade. Fez-nos aterrar das estratosferas filosófico - teológicas, pôr os pés no chão. Fez-nos ver e sentir que a vida não é nem pode ser feita de facilidades, mas que tem o lado difícil, da luta que, em boa parte, é o que lhe dá o verdadeiro gozo. Deu-nos uma capacidade diferente de olhar, de ver, de escutar, de falar, de aguentar, de lutar, de sobreviver. Não me lembro de ninguém que tenha abandonado o seminário pelas duras condições de vida ali experimentadas. Antes pelo contrário, talvez muitos de nós tenham, com maior facilidade, feito frente às contrariedades do dia a dia, depois de termos caldeado a nossa vontade e resistência nos anos de Marvão.

Mais ainda, em Marvão deixámos de ser os apartados, os diferentes, mesmo por uma causa boa. Éramos da vila, éramos da vida daquela gente. E que bons amigos lá nos ficaram desse tempo. Uns ainda por lá estão, outros já o Senhor chamou a si...

A partir de Marvão passámos a ter uma nova maneira de ver o mundo, de olhar, de ver, de ouvir, de sentir, de "leitura dos sinais dos tempos", larga como os horizontes que dali se disfrutam e que tem, forçosamente, de ser diferente daquela que nos é proporcionada pela vivência entre 4 paredes, por mais arejadas que sejam. Mesmo depois da transferência para o novo Seminário de Portalegre, essa influência continuou a notar-se e já não foi possível fazer-nos viver o Seminário e no Seminário como se continuou a fazer em muitos outros, durante muitos anos. O espírito de Marvão perdurou durante muito tempo nos seminários da Diocese.

Marvão deu-nos uma capacidade diferente de sentir com as pessoas os seus problemas, as suas conquistas, as suas dificuldades, as suas alegrias. O tal "flere cum flentibus, gaudere cum gaudentibus"... Proporcionou-nos uma capacidade diferente de aguentar, de lutar, de esperar, de sobreviver, de sorrir...

Foi uma lufada de ar fresco que entrou no seminário, nessa altura. Não sei se ainda perdura. Mas não tenho dúvida que consistiu na introdução duma grande componente de modernidade no clero da Diocese de Portalegre e Castelo Branco, muito importante para os anos que se seguiram - os anos do Concílio Vaticano II e principalmente os anos do Pós-Concílio.

FIM