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Animus Semper

SEMINÁRIO DE MARVÃO - 2

Recordações de Vida

João 2.jpg

 

Texto de João Chamiço Porfírio

 

(CONTINUAÇÃO DO TEXTO ANTERIOR)

Como facilmente se depreende e imagina, as nossas condições de vida não eram, nem de longe, as melhores, como aliás não seriam para a maioria dos habitantes da Vila.

As condições de habitabilidade proporcionadas pela Igreja de Santa Maria, com a enorme altura da abóbada, estrutura e solo em alvenaria e granito, são bem fáceis de avaliar.

Às 6 da manhã, levantar, lavar a cara (alguns, no Inverno, só a aspergiam) com água fria, que outra não havia, fazer a barba... Às 6,30, rua abaixo, em passo de corrida para aquecer, com chuva, neve, gelo, vento ou os 4 simultaneamente, a caminho da Igreja para as orações da manhã, meditação e Missa.

Agradável...

E, sem dúvida, éramos os primeiros marvanenses a sair da cama.

Para aquecimento, umas braseirinhas de picão que davam maior calor psicológico do que propriamente físico...

Banhos só na casa principal. Às vezes, no Inverno, não havia porque a água congelara e se recusava a correr nos canos… Foi em Marvão que, pela primeira vez na vida, vi alguém ir à água com uma cesta, e com sucesso...

No entanto, nem tudo era desconforto e adversidade. A Alimentação, sem exageros nem gulodices, posso considerá-la geralmente boa para a época. Às vezes, no Inverno - ai o Inverno de Marvão! - tínhamos de pôr a fruta da sobremesa ao sol antes de a comer, principalmente laranjas e tangerinas, por não apetecer demasiadamente um gelado.

Os sacerdotes da equipa - Cónego Brás Jorge, Ps. Manuel Pinheiro, Augusto Dias Lopes, Sousa Ferreira e Dr. Manuel Rodrigues - souberam encaixar-se bem na situação, que também eles viviam, e faziam o possível para nos tornar a vida menos dura.

A simpatia, quase diria empatia, da população por nós, era geral e "aquecia".

O nosso "recreio" não era passado entre 4 muros, mas na vastidão enorme das vistas dos 900 metros de altitude com benéficas consequências na nossa formação.

Como a necessidade é mestra de engenhos, diz o povo e com razão, tínhamos os nossos esquemas para melhorar a situação e aguentar com cara alegre.

A mais pequena coisa servia para nos distrair e divertir. Ninguém poderá saber quantas das pedras existentes na encosta do lado do Salvador foram lançadas por nós do alto da muralha, em alegres concursos, a ver qual dava o maior salto ou chegava mais longe. Ou, de noite e com tempo seco, para admirar o extraordinário fogo de artifício proporcionado pelas inúmeras faíscas causadas pelas pedras a bater umas nas outras, encosta abaixo... Talvez o construtor do edifício da Câmara pudesse, esse sim, dizer quantas carradas mais teve de transportar para a obra...

E as trovoadas vistas de Marvão? Que espectáculo!

Que saudades dos relatos nocturnos dos torneios de hóquei em patins de Montreux, por alturas da Páscoa.... Tínhamos um grande amigo. O Sr. Custódio, que era o electricista da Câmara e morava numa das primeiras casas, quando se desce do Castelo, logo a seguir à cabina da luz, punha o seu aparelho de rádio na janela, com os registos no máximo, para nós podermos ouvir, dentro da igreja-camarata. Púnhamo-nos à janela, qual cacho de uvas bem apertado, a escutar em silêncio perfeito, não fosse o diabo tecê-las, e só nos deitávamos quando tudo terminava. E o bom do P. Augusto, bom amante do desporto, queixava-se aos seus colegas: "O Custódio não deixa sossegar ninguém. Põe o rádio em altos gritos. Ainda se os seminaristas pudessem ouvir..." Santa ingenuidade... E, se por acaso ele não ia para cima ao mesmo tempo que nós, ficávamos de ouvido na telefonia e olho na rua, até que se ouvia: "lá vem ele". Pernas a caminho da cama, e em menos de 3 segundos toda a minha gente ressonava a bom ressonar.

(CONTINUA)