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Animus Semper

RESPIGOS

Um longo texto me chegou às mãos a falar do nosso professor, Doutor José Geraldes Freire, um dos homenageados deste ano em Castelo Branco. Vive dias difíceis na sua velhice em Coimbra, pelo que achei que valia a pena trazer este testemunho para aqui, com ele ainda vivo. Vai ser publicado aos pedacinhos...

Por coincidência, o testemunho é escrito por outro grande nome de que eu ouvia falar como grande figura da cultura e da poesia nos nossos seminários, mas que eu já não conheci. O Dias da Costa deixou rasto na apreciação da malta... E eu espero que este texto sirva para alguns de vocês (os mais velhos) nos falarem também deste antigo aluno. Será conversa como as cerejas? Assim o espero...

 

ANOS DA MOCIDADE DO DOUTOR FREIRE

jgfreire.gif1.  A velha amizade

Viver doze anos debaixo dos mesmos tectos, estudar doze anos em carteiras próximas, dormir doze anos nas mesmas camaratas, comer nos mesmos refeitórios, ouvir os mesmos discursos, ler os mesmos livros, rezar as mesmas orações, brincar nos mesmos recreios os mesmos jogos, participar do mesmo ambiente comum, respirar dos mesmos ares — é realmente sinónimo da mais viva e forte camaradagem.

Ε isso aconteceu — ao Freire e a mim. O ideal era o mesmo. O caminho a tomar era o mesmo.

Há assim desta espécie de amizades que não se escolheram, e nascem, dentro de convívios fechados, inalteráveis, e assim se formam, persistem, resistem e insistem — caldeadas que são, em tempos longos, graves esperas e anseios comuns!

2. Tempo que flui

Que fica de todo esse tempo? Que se poderá relatar dele? Histórias sem termo de um dia a dia monótono e ainda assim surpreendente, como sempre sementes novas a vir a terreno, e a caírem nele — prenhes de esperanças de vastas searas...

Tudo começara, naquele primeiro dia de entrada bisonha de um pequeno grupo de jovens, pelas portas do Seminário, na maior parte dos casos, sem saberem bem ao que iam: os pais assim o haviam disposto e aos filhos pertencia obedecer.

Tinham eles onze anos ou um pouco mais. Tudo se passava em Alcains, num edifício branco, construído, sobre um outeiro daquela terra, não longe das faldas da Gardunha, o ponto mais saliente das redondezas.

Depois, ali ficaram a marchar, dispostos em filas de dois, onde os mais pequenos seguiam à frente, num encaminhamento predeterminado, sequente.

Lá iam percorrendo os corredores que para eles eram forte novidade impressionante, em todo o seu comprimento... Ε por ali avançavam, rumo a todas as suas actividades quotidianas, dentro do grande edifício.

O seu caminho era o de um destino irremissível, como que à busca de si mesmos e do norte das suas vidas. Já se começavam a sentir outros. Já não eram somente os meninos das Escolas Primárias.

De todas as partes lhes chegavam vozes que os chamavam... Ε que grandes chamos (chamamentos?...) aqueles a que eles estavam afeitos! Quem os vinha acordar assim, nos estados adormecidos da sua ainda meninice?

Às vezes sentiam-se perdidos: — onde estavam? Aquilo era mesmo com eles? Os padres e os seus novos amigos tinham-lhes substituído, num pronto, a sua família. Os padres pretendiam ajudá-los a encontrarem-se...

Como sentiram, friorentamente, a vinda do primeiro inverno, sem, ao menos, a ajuda tépida de uma lareira! As frieiras deixavam as suas primeiras marcas nos dedos — uns dedos que, de um momento para o outro, se tomavam vermelhos, engrossavam e começavam a doer.

Era em vão que os escondiam nas mangas da pequena batina preta, preta, de um luto a que não estavam ainda acostumados...

(É certo que nem sempre andavam de preto: também vestiam um guarda-pó, de um pano às riscas, que lhes dava mais liberdade de movimentos — para os estudos e brincadeiras do recreio).

Mas essas frieiras e outros pequenos males de adaptação - que preço precário não eram eles para a paga do alargamento do horizonte que ali se lhes ia fazendo! — para a revelação da existência de outros mundos maiores que eles jamais podiam ter adivinhado!

A cada hora, uma notícia de imensidades até ali desconhecidas... Ε essas notícias também fazem crescer... As revelações alimentam como bons alimentos...  (CONTINUA)

 

ANTÓNIO JOSÉ DIAS DA COSTA

 

In HVMANITAS - Vol. L (1998) (Revista de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra)

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