Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Animus Semper

RESPIGOS 4

ANOS DA MOCIDADE DO DOUTOR FREIRE (CONTINUAÇÃO)

(Mais um respigo do texto do Dias da Costa: mais episódios simples da vida no seminário. Tudo a condizer com aquilo que todos nós vivenciámos...)

 

jgfreire.gif9. O único citadino

De entre os seus colegas, era o Freire o único que habitava a cidade.

Sua família, tendo deixado a terra natal, S. Miguel de Acha, tinha vindo a residir para Castelo Branco, para que assim pudessem ser ajudados os estudos dos seus irmãos mais novos que, então, frequentavam o Liceu.

O seu pai, entretanto, tinha ido a trabalhar como carpinteiro para Moçambique. Em Lourenço Marques, onde vivi alguns anos como professor, tive ocasião de ver o púlpito de Sé que ele, com a sua arte, havia fabricado. Quanto não trabalhara arduamente para ganhar o suficiente para a educação dos seus filhos! Ε foi assim, com o suor do seu rosto, que pôde conseguir formar um padre, três professoras e um médico.

Ao Freire, do facto de passar as férias na cidade — algum prestígio lhe adveio. O prestígio que o aldeão dá automaticamente ao citadino, vendo nele — o mais vivido, o dos horizontes maiores do que aqueles que uma aldeia disfruta. Era ele que assim respirava, sem dúvida, mais do que os seus companheiros, um outro ar menos comezinho, menos rústico, numa palavra — mais civilizado.

Ε foi assim, por exemplo, que, depois de termos passado pelo piano e pelo violino, sem ter feito qualquer aprendizagem de órgão, no Seminário, — de um momento para o outro, depois de umas férias grandes, apareceu a tocar esse instrumento. Ε ficou a revezar comigo e o Carlos — a acompanhar, na capela, os cânticos litúrgicos.

 

10. A vocação eclesiástica

Não é fácil ser padre e cumprir as suas obrigações.

O problema número um que, de ordinário, se punha a todos os que entravam no Seminário era realmente este: ter ou não ter vocação — dilema difícil, deveras hamletiano. Quantas dores de cabeça comporta a sua solução, para, afinal, ao fim e ao cabo, sair, quantas vezes, errada!

Mas, excepcionalmente — pelo menos, quanto me foi dado observar — para o Freire esse problema nunca se pôs! Ε foi, até contrariando o próprio pai, que ele avançou para o sacerdócio. Este o lamentou, um dia, nestes termos:

— Ai, filho desgraçado, que não serves para mais nada do que para padre!

Era o caso de uma vocação a toda a prova. Afirmo-o isentamente, eu que me situava nos antípodas — que, afinal, também contrariei o meu pai, mas em sentido contrário ao que acontecia com o Freire, pois o meu pai queria, à viva força, que eu fosse padre. Mas não fui.

 

11. Carteiras de Marvão

Depois da passagem pelo Seminário de Gavião, de que se omitem histórias, e onde se processaram os estudos do primeiro ano de Teologia, seguiu-se o Seminário de Marvão, numa pequena vila situada ao alto de uma serra do Alto Alentejo.

Os lugares das carteiras escolhiam-se, no princípio do ano. Escolher esse lugar, na sala de estudo, não era uma coisa somenos, mas antes fundamental. Era aí que se ia estudar e assistir às aulas, durante todo o ano. Neles se passava uma boa parte das horas do dia — funcionando eles assim como um poiso fixo, como uma abrigada para o infinito que com as nossas mentes quereríamos devassar, como um estádio aberto para as velocidades dos nossos espíritos, que por ali se iriam lançar em grande aventura...

A sala não tinha senão duas janelas-varandas, que se encontravam, na parte detrás das costas das carteiras.

O Freire escolheu a primeira carteira da frente. O seu horizonte, em frente, não era mais do que uma chapada branca de parede, em toda a extensão, e ao lado da mesa frontal dos professores que ali vinham dar as aulas. Ε isso a indicar — o propósito firme de não precisar jamais de outros horizontes que não fosse o seu, o interno, aquele que inviolavelmente guardava consigo...

Eu, porém, escolhi uma carteira do fundo da sala, para captar um ar mais fresco e para, se olhasse para trás, poder também e ainda obter um pouco de nesga de céu e de espaço livre—divisando mesmo algo de fora do Seminário — um largo de chafariz, onde inclusive vinham mulheres à fonte, entre elas a filha do cabo da Guarda Republicana-umajovem loura de cabelos compridos, corpo escultural.

Mas a escolha do local da minha carteira, ao fundo da sala, foi corrigida pelo director do Seminário - o P.e Brás Jorge. Ao regressar das férias tinham-me mudado a carteira, ficando a ocupar o lugar imediatamente atrás do Freire. Ε foi, nesse lugar e por essa circunstância, que pude, involuntariamente, acompanhar mais de perto a actividade do tempo de estudo do Freire.

Todos os dias, invariavelmente, no final do estudo das lições, fazia a sua escrita pessoal: e dessa actividade saía escorreito e pronto todo um género de longos poemas de verso livre, de tipo místico, feitos ao correr da pena...

Mostrou-me alguns deles. Deles eu lhes admirava assaz—o jacto, aliado à veemência e à fluência a toda a prova, num caminho longo; e admirava também, nesse não-se-quedar a curto prazo, nesse derrame na abundância, e nessa forte expansividade—o sempre conseguimento. Qualquer coisa que dizia muita energia...

Jamais, porventura, esses seus escritos serão publicados. Entretanto, como eu lhe disse uma vez—nada se faz por geração espontânea, não é em vão que se treina a caneta: ela faz a aprendizagem necessária para aquilo que sejam os voos sequentes.

(CONTINUA)

ANTÓNIO JOSÉ DIAS DA COSTA

 In HVMANITAS - Vol. L (1998) (Revista de Estudos Clássicos da Universidade de Coimbra)