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Animus Semper

REDES SOCIAIS

Mais uma reflexão pertinente e actual do António Colaço, que eu arrasto para o nosso blogue. É um texto publicado no "Expresso" em 5/08/2017. AH

 

REDES SOCIAIS.

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MAIS DO QUE UMA MODA 
UM MODO DE MUDAR

 

Pequena contextualização.Encontro-me de férias na vila de Mação,onde há cerca de quarenta anos fiz nascer um projecto editorial que acode pelo nome de “ânimo-para tornar os dias mais leves”, influenciado pela novidade gráfica do então “offset”.E assim nasceu a revista “ânimo” que depois da edição de dez números – já guardados religiosamente pelo meu amigo Pacheco Pereira, nos seus arquivos da Marmeleira – conheceu outras formas de sobrevivência, como a intervenção na imprensa regional e, por esta, no mundo das rádios livres e televisões regionais. Destes últimos meios de intervenção, a destacar o papel central de Abrantes no processo de legalização, já que aqui tiveram lugar os três maiores encontros de rádios que durante anos persistiram e conseguiram a almejada legalização contando no último desses históricos encontros com a presença de deputados da nação. Ainda no campo das chamadas televisões piratas, a ânimo, e todos quantos com ela colaboraram, foi objecto de um processo no DIAP por emissão clandestina no 25 de Abril de 1995, algures, em Campo de Ourique, Lisboa.Tudo isto para dizer que sempre se lançou mão das novas tecnologias, não em nome de um deslumbramento bacoco,mas porque sempre soube a pouco o que com elas podia fazer-se.
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Passo a falar na primeira pessoa porque nestes quase 40 anos que levo daquilo a que ousei apelidar de o ”animador de serviço”, o meu lema sempre foi o de que comunicar é preciso.Este breve e despretensioso puxar de galões vem a propósito da tão inesperada quanto dramática experiência vivida na passada semana com o chamado incêndio da Sertã em…Mação.Para abreviar, direi apenas que uma raiva incontida se apoderou de todos os maçanicos por percebermos que 2003 estava às portas e nada parecia fazer deter as chamas assassinas.
Confesso que só há pouco me dei conta das potencialidades do uso no Facebook das transmissões de vídeo em directo. Morando no centro histórico da vila, e não querendo passar pelo susto de ter que abandonar a casa, como no passado, percebi que nada melhor do que aproximar-me o mais possível da frente de fogo que mais rapidamente poderia entrar na vila tendo decidido partilhar essa informação,em directo, através dos meus amigos na dita rede social do Facebook, e assim, mais informados, melhor poderem precaver-se para o que desse e viesse.Só quem cá esteve sabe a dimensão dessa extenuante expectativa adiada, tantas foram as situações em que o fogo ora parecia controlado ora logo se reacendia. Não quero, por agora, entrar na polémica da gestão da ANPC segundo o princípio do “deixa arder” mas não posso deixar de expressar uma palavra de total solidariedade para com o presidente da Câmara Municipal de Mação, Vasco Estrela,que tudo fez para que as coisas tomassem outro rumo, deixando transparecer a falta de confiança em muitas das medidas tomadas, por quem, de todo, não conhece o concelho.

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Neste contexto, quero aqui reafirmar, o papel das chamadas redes sociais no tu cá tu lá com a tragédia que nos incendiou os dias. De facto, foi importante a informação que partilhamos uns com os outros e, por via da globalização, com todos os familiares espalhados pelo mundo.Demonstrámos que os telemóveis não servem só para mostrar as últimas fotos da namorada ou do cãozinho de estimação.Demonstrámos que sabemos ter opinião mesmo que alguns dos clássicos opinion makers sintam o chão a tremer porque deixaram de ser as vacas sagradas da opinião em Portugal.Acabaram-se os territórios.A sofrida partilha de alegrias e dores tornou-nos mais solidários. Mais virados para as soluções do que para os problemas.
E pelos vistos os nossos testemunhos deram jeito às agendas das televisões e rádios nacionais. Sei do que falo.
A partir do Mação incendiado consolidei mais a certeza de que não vivo para Facebookar, antes, Facebooko porque vivo!

 

António Colaço