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Animus Semper

PREFEITO PERFEITO

RIDENDO CASTIGAT MORES (ou o ano será melhor a brincar!...)

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Mais uma "curva" maravilhosa do Mário Pissarra a passar por aqui e a deliciar os bloguistas do ANIMUS SEMPER. Este Mário alinhava uma teia com tantos fios que ficamos deslumbrados. Só faltou a explicação da tal teoria da masturbação. AH

 

Ser popperiano sem conhecer Popper – em honra do Pe. Libânio

1 - Quando fui fazer o exame de admissão ao Gavião, estava lá o Sr. Pe. Libânio. Não nos deu aulas naquele período, mas acompanhava-nos nos passeios depois do jantar. Quando regressávamos da pequena volta, já ao lusco-fusco, serviam-nos chá e com bolos secos, o chá da noite. Seguia-se uma descansada e consolada noite. Os alunos mais velhos que nos acompanhavam chamavam ao senhor Pe. Libânio o «perfeito» (era assim que eu os ouvia!).

2 - Dessa ida para fazer o exame de admissão ao seminário retive mais alguns episódios. Na véspera, fui a Castelo Branco e vi pela primeira vez pinheiros bravos (junto à passagem de nível na estrada que vinha da Idanha) e vi também pela primeira vez o comboio. Aliás, foi para aprender a apanhar o comboio que eu, o Afonso e falecido António Manuel Catana fizemos a viagem.

Ao chegar ao Gavião, após inúmeras descobertas ao longo da viagem entre as quais a de ver pela primeira vez um castelo (o de Belver), todos queríamos mandar um postal à família a dizer que tínhamos chegado bem. Fomos aos correios comprar os postais. O “hoc opus hic labor est” (como diria o Mendeiros) veio depois. Não sei se o trabalho tinha busílis, mas lá que “a porca torcia o rabo” disso não há dúvida nenhuma. Onde se escrevia a direcção se só falava em endereço? Explicada a forma de endereçar o postal, foi ver os atentados à geometria: cada qual gatafunhava os dizeres nas mais diversas direcções em cujas paisagens os altos e baixos eram reis. Nem a prática dos cadernos de duas linhas nos dera habilidade que dispensasse as linhas!

 Melhor que esta ocupação do espaço disponível do postal só a leitura em voz alta do meu condiscípulo Cipriano. Eu explico. Um belo dia, na aula de português, o Sr. Pe. Manuel Justo mandou ler em voz alta um texto sobre o rio Douro. Num determinado local, dizia a descrição que o rio forma um S. O bom do Cipriano substituiu o S por «umas cúrvias». O Pe. Manuel dá dois passos atrás e exclama: com catorze! Manda ler outra vez e a cena repete-se com mais uma «cúrvias». Ficou-me desta ocorrência a conclusão: a “porra e o catano” da Idanha tinha uma versão eclesiástica numérica e seminarística culinária (o Pe. Eusébio incentivava-nos a substituir a habitual exclamação por: «arroz!»).

3 - Karl Raimund Popper (1902 – 1994) é um conceituado filósofo austríaco na teoria política e na teoria da ciência. Um dos núcleos duros do seu pensamento é o seguinte: perante um facto/acontecimento ou problema, inventamos teorias explicativas. Todas as teorias são aceitáveis até surgir uma melhor que a derrube. A ciência não prova nada, mas é um processo de eliminação de teorias. Nós não podemos dispensar as teorias explicativas. Podem ser as mais ingénuas e/ou abstrusas possíveis, mas nós não podemos passar sem uma teoria. Esta teoria que resumi e simplifiquei ficou conhecida com o nome de falsificacionismo. Em tempos sugeri que o nome mais adequado seria falsacionismo, pois não se trata de falsificar uma teoria, mas de a eliminar por ser falsa.

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4 - Pois é! E tudo isto porquê? É que quando cheguei a casa, após o exame de admissão no seminário do Gavião, inventei logo uma teoria para o «perfeito». Dizia admirado aos meus avós, pais e irmãos que lá no seminário havia um padre tão boa pessoa e tão santo que até lhe chamavam perfeito (o Pe. Libânio). Ninguém levantou nenhuma objecção ou apresentou teoria melhor e esta manteve-se até uma certa aula de português. É verdade que, quando voltei em Outubro, descobri que, afinal, não havia um, mas dois perfeitos. Melhor, pelo menos três porque entretanto o Sr. Pe. Libânio tinha saído para Pároco dos Montes da Senhora.

Quando percebi a diferença entre «prefeito» e «perfeito», ri-me, com gosto, de mim mesmo. Um bom exercício para a minha saúde mental que teimo em conservar. Mantenho este gosto e recordo-me de outros episódios semelhantes. Gostaria de ter guardado um texto que escrevi contra as teorias do Sr. Pe. Augusto e a que dei o sugestivo título: uma conferência hipotética de hipóteses. A dita manteve-se sempre hipotética, mas as hipóteses seriam para mim, ao longo da vida, abundante matéria para terapia pelo riso. Uma outra teoria ingénua e abstrusa foi elaborada conjuntamente com o Abílio Delgado. Começámos a contar os colegas cujo primeiro irmão era do sexo feminino. A amostra recolhida (não era nem numerosa nem significativa) mas corroborava a nossa teoria sobre a masturbação. Abstenho de a expor, não vá alguém necessitar de médico por tanto rir…

Comece o Novo Ano a rir e se for de ti /si próprio não se preocupe. Errar é humano! Mas não se esqueça. Abusar do erro tem outros mimosos qualificativos que convém evitar.

Abrantes, 31 de Dezembro de 2016-12-31

Mário Pissarra

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