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Pós-verdade e factos alternativos (II)

Pós-verdade e factos alternativos (II)

                                                 NOTA: Filosofando com profundidade. Parem um pouco! AH

 

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1.- É minha intenção argumentar em defesa de:

a.- Um problema mal colocado é um pseudoproblema e, por isso, não tem solução.

b.- A discutida e controversa questão da pós verdade é um pseudoproblema e, por isso, não tem solução.

c.- os factos alternativos são outros factos, mas não alternativos. O mesmo facto pode ter múltiplas interpretações.

 

2.- Convite para uma leitura pouco ortodoxa da filosofia Ocidental.

a.- A nenhum grego passaria pela cabeça que o mundo poderia não existir. Ele está aí e, por conseguinte, é impossível duvidar da sua existência. Poder-se-á duvidar do que se diz acerca dele, mas nunca da sua existência.

b.- Com o advento do cristianismo, dado que tudo o que existe foi criado por Deus, o mundo podia não existir, pois é um ser contingente. O mundo precisa de Deus para existir, mas Deus não precisa do mundo (omnipotente, eterno e absoluto).

c.- Com Descartes, posso duvidar do mundo e de Deus, mas não posso duvidar do meu pensamento. Deus é a garantia do meu conhecimento, mas eu chego à demonstração de que Deus existe a partir da certeza do meu pensamento. O cogito é a única rocha firme e indubitável.

d.- Kant declara a incognoscibilidade da coisa em si. Alguns dos seus seguidores consideram a coisa em si supérflua ou não existente. O conhecimento e a verdade são construções do sujeito a partir das suas estruturas e do objecto. A verdade (universal, objectiva e necessária) fica limitada aos fenómenos e não poderá mais ser concebida como adequação ou correspondência, pois a realidade conhecida é sempre como ela é para nós e não como ela é em si.

e.- Hegel descobre a historicidade. Na realização do Espírito ao longo da História, a verdade vai-se revelando. Atalhando: a verdade é filha do seu tempo e abrem-se assim as portas aos mais variados relativismos historicistas.

  1. Nietzsche proclama a morte de Deus e coloca um louco ao meio dia de candeia na mão em busca do seu cadáver. A sua louca genialidade reveste esta proclamação com vestes dramáticas, pois faz de nós os seus assassinos. Como Deus era o fundamento de todos os valores, a Verdade fica também ela sem valor. Considera-a mesmo um estratagema contra a vida e a sua história é a de uma mentira. Para ele também não há factos, mas apenas interpretações.
  2. O trabalho de suspeição de Marx leva-o a concluir: o homem é um ser alienado; a realidade social determinou a sua consciência, mas esta está iludida. Só a desalienação poderá libertar o homem da ilusão. Freud mostrou que as forças inconscientes dominam mais o homem e que a consciência, a racionalidade são uma pequena parcela do nosso aparelho psíquico. O universo da verdade que só pode ser o da racionalidade é muito mais pequeno do que julgávamos.

h.- O homem que ocupa o centro na modernidade e, em certo sentido, ocupa o lugar de Deus, vê proclamada a sua morte com o estruturalismo.

i.- A pós-modernidade apressa-se a proclamar a morte das metanarrativas ou das ideologias totalizantes.

  1. Agora proclama-se a morte da verdade e anuncia-se a pós verdade. Percurso extravagante este: como se a história fosse necrologia.

 

3.- Como qualquer criança, fui educado para dizer a verdade e nunca mentir. Desiderato mais ouvido que observado. Até porque mentir era um pecado grave. Quando cheguei ao Seminário de Portalegre aprendi em Filosofia:

            a.- Verdade no plano moral - opõe-se à mentira. Mente-se quando o que se diz não corresponde à realidade e há intenção de enganar. Se não houver intenção de enganar, pode-se estar convicto da veracidade do que se afirma, mas estar errada a informação, pois não corresponde à realidade.

            b.- Verdade no plano ontológico – referente ao ser. O conhecimento depende da realidade e será verdadeiro se corresponder, se se adequar, se estiver de acordo com a realidade. O ser é verdadeiro, bom e belo. A verdade pré-existe ao conhecimento e existe independentemente de ser ou não conhecida. O homem através da inteligência descobre a verdade.

            c.- Verdade no plano gnosiológico – refere-se ao conhecimento. Aqui a realidade é se pode ser pressuposta, mas a realidade para o homem é a que ele conhece. A questão central passa a ser a do critério de verdade: o que permite distinguir um conhecimento verdadeiro de um falso. Também em Portalegre vi numa das primeiras teses de gnosiologia que o consenso universal não era critério de verdade. Outros se seguiram como o de Cartesius: a evidência racional.

 

4.- Voltemos a Nietzsche, esse genial mestre da suspeita. Ao defender que não há factos, mas só interpretações, abriu as portas ao perspectivismo. Não há verdade, mas apenas interpretações diferentes da realidade. No extremo, a verdade, que não o é, coincide com a perpectiva de cada um. Se acrescentarmos a sua inovadora metodologia – a genealogia – o abismo cresce: «como é que a verdade se transformou e impôs como um valor?» – questiona-se. A sua resposta é demolidora: a história de uma grande mentira. O trabalho de sapa posterior de todos os desconstrutivistas só aprofundou o abismo no que toca à verdade. Merecem atenção especial os trabalhos de M. Foucault ao relacionar a verdade e os seus dispositivos ao poder. O óbvio: a proclamação nietzschiana da morte de Deus, fundamento de todos os valores, acarreta consigo o horizonte do niilismo e, por conseguinte, a morte do valor verdade, enquanto aguardamos a transmutação dos valores cujo profeta é o filósofo músico e dionisíaco. Será que chegaram com a «trampetada» da pós-verdade? Quem filosofa à martelada, como Nietzsche o assumiu só pode estilhaçar ou pulverizar a verdade, reduzindo-nos a náufragos desorientados.

 

5.- A questão da verdade sofre uma alteração profunda a partir de Kant. Já não é uma visão intelectual adequada à realidade mas uma construção do sujeito. A psicologia, a história, a sociologia, a linguagem vieram de múltiplas formas reclamar a sua participação nessa construção. A crise dos fundamentos da ciência no início do século XX levaram à queda dos absolutos e das verdades absolutas. Aliás, bem vistas as coisas, a ciência reclamou para o conhecimento e as suas verdades os atributo de Deus: eternas, absolutas, imutáveis. A história da ciência acabaria por lhe matar estas aspirações.

 

6.- Se juntarmos a tudo isto o complexo de culpa que o colonialismo deixou no Ocidente, temos o clima para falar em pós-verdade e factos alternativos. O colonialismo faz-se em nome da superioridade da cultura ocidental. O multiculturalismo afirma a igualdade das culturas. A verdade é diferente de cultura para cultura. O pasto para o rastilho relativista era abundante. É mais uma acha para a fogueira que queima a ideia de verdade já de si abalada nas sociedades pluralistas e democráticas. Nestas sociedades, por definição, não existe a verdade, mas as verdades.

 

7.- Atalhando: se as diferentes esferas da realidade são autónomas (política, arte, moral, direito, etc.), se as verdades e os factos são construções, se só existem interpretações, se existem diferentes jogos de linguagem, é natural que a verdade se restrinja a certos domínios da realidade. Por exemplo: as promessas, as interrogações, os programas, os desejos, os pedidos, … são verdadeira (o)s?

 

8.- Conclusão: os factos alternativos e a pós-verdade não são um problema, mas um pseudoproblema e portanto não tem solução. Dá-se esse nome a estratégias de manipulação ao serviço de outros interesses e não da verdade. Os políticos, como os outros homens, mentem, mas a acção política não é o campo da acção humana avaliada em função da verdade. A linguagem política não é descritiva. Os políticos querem fazer coisas com palavras e não descrever o que existe.

Mário Pissarra