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Animus Semper

PÓS VERDADE

Pós verdade e factos alternativos (1)

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Quase todos os dias nos visitam as notícias da era da pós verdade e dos factos alternativos. Roubam-me, quase sempre, um sorriso irónico e trazem-me à memória dois episódios com filósofos belgas. Durante um dos Festivais do Imaginário de Abrantes, contava um deles que na gravação de um programa televisivo em França lhe pediram que referisse um pensador como uma das fontes da sua filosofia. Ele recusou-se a fazê-lo e a jovem, que cumpria ordens, ficou espantada e perguntou: porquê? Ele respondeu: porque não é verdade! Concluía o referido filósofo: isto da verdade ainda funciona! Numa outra ocasião conversando com um professor belga da Universidade Nova, acerca do relativismo reinante em todos os domínios da vida cultural e intelectual, confessava-me ele que, por vezes, sentia nostalgia do tempo em que se aderia a certas opiniões como se fossem a verdade. A certeza, ainda que subjectiva, dá-nos segurança e um certo conforto.

Todavia não posso esquecer as palavras de Nietzsche:

                       

“Há toda uma história de falsa bandeira, usada para manipular as mentes das pessoas! Nos indivíduos, a loucura é rara; mas em grupos, partidos, nações e épocas, é a regra.”

 

Obviamente que F. Nietzsche não conhecia o ditado português: «de poetas e loucos, todos temos um pouco». Como português, aceito o bom senso e a sabedoria do provérbio luso. A loucura no plano individual é a coisa mais bem distribuída do mundo, ao contrário do bom senso como afirma perentoriamente R. Descartes. Acontece, porém, que às vezes, os cinco salamins não são bem medidos e a loucura extravasa a medida tolerável. Quanto ao bom senso, ao ouvir certos discursos, ao ver certas decisões ou presenciar certos comportamentos, vou-me convencendo do erro colossal de Descartes. O bom senso é hoje um bem precioso e cada vez mais raro que, dentro de pouco tempo, só será predicável de santos e anónimos.

 

Qual é a admiração?

 

Mas devemos ficar admirados por se falar hoje tanto de pós verdade e factos alternativos? Não percebo o porquê desta admiração e de uma certa indignação por parte de alguns. Senão vejamos:

1.- Quem desconhece os fenómenos da contra-informação e as suas múltiplas utilizações, em situação de guerra, mas não só. Cresci quando existia um programa na rádio com o título: Rádio Moscovo não fala verdade. Ésquilo, esse mestre da tragédia grega, avisou-nos há 2500 anos: «na guerra, a primeira vítima é a verdade». A guerra só serve para justificar um comportamento constante ao longo da História para alcançar objectivos propostos. A mentira, a astúcia, o estratagema, a cilada, atração, etc., tecem mais a história pessoal e grupal do que ousamos admitir. (Quem tiver gosto e tempo pode documentar-se no livro acabado de sair em Portugal: Eric Frattini, Manipulação da verdade. Operações de Falsa Bandeira, Lisboa, Bertrand editora, 2017.)

2.- Quem estuda os discursos propagandístico e publicitário, soube desde sempre que a questão da verdade não é o mais importante. Crucial é alterar as crenças e levar à acção. No primeiro caso, aderir e/ou votar, no segundo, mudar de atitude / comprar. Desta vez a verdade é sacrificada à eficácia do discurso. Ainda que num contexto mais abrangente, o poeta algarvio António Aleixo intuiu a tirania da eficácia na quadra:

Para a mentira ser segura

E atingir profundidade

Tem de trazer à mistura

Qualquer coisa de verdade.

3.- A questão da manipulação desde sempre esteve presente nas discussões sobre a comunicação social. Se aceitamos que os media são o 4.º poder, então temos de aceitar que podem estar ao serviço da verdade, mas também manipular a informação. É bem conhecida a apetência dos grandes grupos económicos pelos meios de comunicação social. Se o segredo, esse eufemismo para esconder a verdade, é a alma do negócio, o quarto poder entra pela ocultação, a censura, a distorção, a selecção, etc., das informações e notícias. Não podemos esquecer a modelagem social que os meios de comunicação permitem. Alguém acredita que o interesse desses grupos económicos tem em lugar de relevo a verdade? O cristianismo revela um profundo conhecimento do Homem quando considera que pecam por acções e omissões.

4.- O pensamento político de Maquiavel defendeu a autonomia do político em relação à moral e à religião. A acção política visa a conquista e a manutenção do poder. O Príncipe agirá sempre em função destes objectivos. A questão do bem e do mal, da fé ou piedade do príncipe estão sempre submetidos aos interesses de conquista ou manutenção do poder. O discurso político assume de há muito que em política o que está em causa não é a verdade. Pretende modificar a realidade, através de programas políticos e para isso recorre a estratégicas várias para persuadir os cidadãos e os levar a aderir às mesmas. Nas sociedades pluralistas, a acção política continua a ser uma luta pela conquista e /ou manutenção do poder, mas agora mediada pelo programa. Numa república laica, para muitos, a moral é a lei. A censura moral é irrelevante, desde que não se tenha cometido nenhum ilícito legal. Mais: define mesmo em que condições será um crime mentir. Quem assim pensa que preocupação terá com a verdade? Nenhum! Porque na política o jogo é outro.

5.- Antes de Descartes fazer do «Eu penso, logo existo» a rocha firme e o ponto fixo em que assenta todo o conhecimento, Lutero tirou da cartola o "eu acredito e posso ler a Bíblia e interpretá-la. A minha relação com Deus é directa e não precisa de intermediários".

Mas o que é que isto tem a ver com a verdade? Aparentemente nada. Mas, de facto tem muito. A história do cristianismo é também a luta contra as heresias e a «fixação de verdades» ou dogmas. O que é uma heresia ou um herege? É o afastamento ou alguém que se afasta da verdade, isto é, da ortodoxia ou do dogma. A ortodoxia é a opinião recta/correcta/verdadeira - é uma das concepções de verdade entre os gregos. A heterodoxia é uma opinião que é outra, isto é, que se afasta da verdade. Caminho bem diferente seria seguir a concepção bíblica que remete para fidelidade.

Mário Pissarra

 

NOTA: Mais uma reflexão do Mário para nos ajudar a pensar. Por favor, não deixem de ler... Se repararam, este é o texto n.º 1. Virá um 2.º a enriquecer estas páginas. Em nome dee todos, o nosso "Bem-hajas, Mário"! AH

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