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Animus Semper

PARA REFLECTIR

 Do Mário Pissarra, para nossa leitura e reflexão. AH

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Redes Sociais e descivilização

 

CITAÇÃO


"Sabemos que a circulação de opiniões e de comentários filtrados pela internet aumenta os ressentimentos. Mas seria muito redutor considerar as redes sociais como a força causadora, senão mesmo a criadora destes ressentimentos. Atribuir a culpa a algoritmos seria o mesmo que responsabilizar Goebels pela existência da rádio. Não devemos também esquecer que as redes sociais foram já consideradas geradoras de protestos democráticos (por exemplo, no contexto das primaveras árabes). É preferível, portanto, analisar as causas sociais da «descivilização».
As causas principais que conduziram as sociedades ocidentais a este «estado de desconforto» social, político e cultural são marcadas por grandes discrepâncias no que diz respeito ao modo de vida, à equidade e à desigualdade."
Olivier Nachtwey, «Descivilização. Sobre tendências regressivas nas sociedades ocidentais», in (2017). O Grande Retrocesso. Lisboa, Objectiva: 206.

 

EREDES1.jpgscreve o Mário: 

Todos sabemos que para viver em sociedade precisamos de nos socializar e civilizar, isto é, adquirir os padrões e modelos comportamentais, as regras e os costumes, etc. da sociedade em que nos inserimos. Como a sociedade é dinâmica, este processo nunca está terminado. Embora custe a muitos aceitar, não é certo que os adultos estão melhor socializados. Há mesmo fenómenos de incapacidade de adaptação às aceleradas mudanças dos tempos actuais. Nesta semana surgiram vozes a culpar as redes sociais pela descivilização. Já antes se haviam culpado os jornais, a rádio, a televisão, a Internet, etc.

Também nestas circunstâncias há dois argumentos recorrentes: o primeiro é a visão instrumental: o instrumento não é bom nem mau. Pode-se é fazer bom ou mau uso dele. Tem alguma força, pois é fácil deparar com diferentes formas de usar o facebook, por exemplo. O segundo argumento é: sendo uma ferramenta «democrática» (isto é, o seu uso está ao alcance de todos) põe em causa o que alguns pensavam uma coutada sua: os jornalistas, os intelectuais os «fazedores da opinião, os comentadores ... Para mim, o perigo vem de outro lado: as redes sociais não estarão a construir uma forma de ser, estar e pensar? Esta forma de ser, estar e pensar não comprometerá algumas das conquistas da modernidade? Domesticam o pensar ou fomentam formas de pensamento analítico e crítico?

Mário Pissarra

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