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Animus Semper

PALAVRA DO SR. BISPO

Sempre acutilante: «...é uma enorme pena que só se possa fazer uma cruzinha no boletim de voto.»

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AH! MEU POVO INGRATO QUE NÃO VOTAS EM MIM!...

 

Um amigo meu, que aliás já nos espera do outro lado da vida, dizia, com graça, que os políticos só falam verdade quando dizem mal uns dos outros. Claro que ninguém acredita nisso e só por graça o dirá. No entanto, tal dito não deixa de fazer fornicoques na massa cinzenta do nosso baú craniano, mesmo que esta coisa de pensar dê muito trabalho!... Oh, se não dá!.. O choque causado por aquela frase faz-nos travar de repente, leva-nos a querer discernir bem o que estará por detrás de tão sardónica afirmação. Acredito, na verdade, que muita gente, expedita na cultura do zapping, já não tenha classe para ouvir tanto palanfrório à mistura com tanta gritaria e tanta “mixórdia de temáticas”. De facto, isso chega, por vezes, a provocar o riso, ou o lamento, ou o aborrecimento como se perante discos riscados se estivesse. O areópago parlamentar e as campanhas eleitorais, se necessárias e boas, são, por vezes, uma escola de ensino superior para deseducar e levar o povo a pensar o que pensa sobre isso e a ter em má nota a classe política. E acaba por agir no quotidiano da sua vida como eles agem nessas altas tribunas, tribunas que deveriam ser modelo exemplar do debate civilizado e proveitoso, também educativo. Há muitas e honrosas exceções, a maior parte, pois sabe o valor da política e a responsabilidade que ela merece. Outros, porém, e são bastantes – o que leva a generalizar, mesmo que injustamente! -, não se respeitam, insultam-se, exploram o negativo, negam ou desvalorizam o positivo, gritam, enervam-se, tentam fazer-se valer humilhando e desacreditando os outros, dão cambalhotas para fazer crer que partiram do zero para fazer tudo quanto está bem feito, só o bem feito, nunca o mal nem as omissões. Não raro se percebe que falam mais voltados para os interesses próprios, ou partidários, do que para as necessidades do povo concreto. Falando cá com os meus botões, acho que não é curial, nem sadio, nem política. Não se harmoniza com a arte nobre que é a política. Para lá desta impressão que já vai fazendo parte dum certo caldo cultural, sabemos que os políticos são boas pessoas e pessoas boas. Tanto assim é que o próprio povo não acredita muito nessas zangas de poleiro cacarejado, pois crê que, depois de tanta aparência de quiproquós, eles vão tomar café, todos juntos, ali no próximo bar. E é bom que o façam, mesmo que de bico algo torcido. Além disso, todos eles estão desejosos de fazer o bem sem olhar a quem. Pena é que o malandro do povo não deixe que todos sejam bons e façam o bem que tanto desejam fazer. Negando-lhes o voto, as miríades e miríades de promessas ficarão goradas e sem cumprir, desgosto pesarosamente manifestado no discurso final da derrota, mesmo confessando que, ainda assim, ganharam, cresceram. Isto de não lhes ser permitido fazer o bem que sonharam transforma-se numa gigantesca injustiça e num astronómico prejuízo para toda a humanidade, sobretudo local! De facto, é uma enorme pena que só se possa fazer uma cruzinha no boletim de voto. Que tanta má sorte!...
Mas alguém, por ter sido julgado mais capaz, e ter merecido as preferências dos eleitores, sempre lá ficará para governar. E nós cá ficamos, com esse alguém, unidos de alma e coração, discordando dele, por certo, algumas vezes, o que é normal. Esperamos tão só que não sofra de grandes amnésias para que possa cumprir o que repetidamente prometeu. Estaremos com o eleito seja ele quem for, e rezamos para que não se sinta sozinho nem faça o que não deve, mas tenha a paz e a serenidade necessárias ao bom desempenho da sua missão, missão delegada. 
É São Paulo que manda rezar pelos governantes, pelos governantes e não só (Tim 2, 1-8). A Igreja sempre o fez. O Papa Francisco, há dias, acrescentou que «Não rezar pelos governantes é um pecado que deve ser confessado». Se achardes, diz o Papa, “se achardes, quando fizerdes o exame de consciência antes de vos confessar, que não rezastes pelos governantes, confessai-o. Porque o facto de não rezar pelos governantes é um pecado». Oh meu Deus, mais um a somar a tantos!... E deve-se rezar por eles para que eles entendam que o seu poder não é absoluto, é delegado. Foi «o povo, que lhes deu o poder, e Deus, do qual vem o poder através do povo». É deveras importante que o governante, para agir em prol do bem comum, saiba “pedir a graça de poder governar bem”.
Mas eu não sou crente, sou agnóstico, sou ateu, não rezo, dirá alguém querendo ser julgado como superior a tais ninharias. E o Papa responde: «Está bem, mas confronta-te: se não podes rezar, confronta-te com a tua consciência; confronta-te com os sábios; chama os sábios do teu povo e confronta-te com eles (…) se não puderes rezar, faz pelo menos isto, mas não permaneças sozinho com o pequeno grupo do teu partido. Não, isto é autorreferencial: sai, procura o conselho fora, na oração ou confrontando-te com quantos podem aconselhar-te». Esta “é a oração do governante», disse o Papa, sugerindo que peçamos ao Senhor “a graça de nos ensinar a rezar pelos nossos governantes» e «também a graça de que os governantes rezem» para que sirvam com sabedoria e amor o povo que lhes foi confiado.
Gosto da política, gosto e admiro os políticos, gosto da democracia e do debate sereno e calmo. Não gosto da gritaria, não admiro quem passa o tempo a dizer mal dos outros para se fazer valer como o melhor de todos. Mas siga a dança, que eu, respeitando a todos, saberei colocar na beirinha do prato, discreta mas decididamente, aquilo de que não gosto e até me faz algum mal. Também por isso, eu vou votar.

Antonino Dias 
29-09-2017