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Animus Semper

OS MORTOS NÃO TÊM PARTIDO 

Possivelmente, muitos de nós alinham com esta reflexão, tal não é a confrangedora falta de sensata compreensão do momento e de sentido do bem comum... Mas só nos conseguimos entender quando fazemos um minuto de silêncio pelos mortos? AH

                

 OS MORTOS NÃO TÊM PARTIDO Pires Costa.jpg

       É deveras confrangedor o que, no campo político, se tem passado neste país, desde o pavoroso incêndio ocorrido na zona centro, Pedrógão Grande, Figueiró dos Vinhos, Castanheira de Pêra, Mação, Oleiros, em áreas diversas como em Trás-os-Montes, Beira Alta, enfim, um nunca mais acabar de calamidades por quase todo o país.

        Mas o assunto não dá para grandes delongas, já que todos os meios de comunicação social têm sido duma enorme prodigalidade em notícias e relatos de acontecimentos.

         Como é possível, em circunstâncias tão dramáticas como as que o país tem vivido com  o flagelo dos fogos que, ininterruptamente, têm consumido áreas florestais, casas, culturas e outros bens de variada natureza, dir-se-ia cegamente, causando prejuízos e traumas pessoais em quantidade inimaginável, que ainda haja políticos que tentem fazer aproveitamento destes acontecimentos tão tristes para todos e  angustiantes para os que foram atingidos directamente, e tantos foram?

           Desde a trovoada seca, do que muita gente nunca ouvira falar, passando pelo anúncio de suicídios, dando a impressão que não chegariam já as sessenta e tal mortes e que seria  conveniente mais alguns para que o drama fosse ainda maior, culminando tudo  com a  exigência da lista dos falecidos para se saber se foram 64 ou 65, atribuição de culpas de tudo e de nada aos outros e apresentando-se como os únicos defensores do povo, tudo serviu para aproveitamento de luta política, execranda batalha de quem nada sabe de política, transformando tudo o que lhes vem à mão, para não dizer cabeça, para tentar arranjar mais uns votos, partindo do princípio de que os portugueses são todos estúpidos e comem toda a palha que lhes deitam na manjedoura.

         Um partido pediu a criação duma comissão independente para apuramento de tudo o que se havia passado. O erro está na adjetivação da comissão: em vez de independente, deveriam pedir competente e fora do parlamento, porque das comissões parlamentares estamos todos fartos. Agora estamos no ponto de uns dizerem que já começaram os trabalhos mais urgentes e possíveis de reconstruções e recuperações diversas. Outros apregoam que nada foi feito até agora. Torna-se difícil viver num país com tais intérpretes da política, onde toda a virtude está num lado e os defeitos no outro. Humildade precisa-se!

         Duma certeza temos nós: tudo o que sirva para a ilusória convicção de obter votos no futuro será aproveitado, tudo desavergonhadamente e por cima dos cadáveres das vítimas da cruel tragédia.

       Senhores políticos do meu país, se não sabem, ficam a saber que os mortos não votam nem têm partido. Respeitem-nos! A eles e às suas famílias enlutadas e traumatizadas.

        Sei que muito se tem falado, escrito e comentado acerca deste assunto. Alguém poderá, e com razão, perguntar o porquê desta abordagem. A justificação fica definida nas palavras com que vou terminar. Triste justificação, mas cheia de verdade.

         Não citei nomes nem partidos propositadamente. É que, para mal dos nossos pecados, se a atual oposição estivesse no governo e este na oposição, a coisas passar-se-iam da mesma maneira. Não sou eu que o digo. A conclusão é tirada da prática habitual dos chamados partidos democráticos. A democracia não  pode ser apenas isto, até porque se a prática continuar nesta linha, qualquer dia a corda pode esticar demasiado…

         Infelizmente, todos proclamam que temos uma democracia, mas alguns comportam-se como se vivêssemos numa ditadura.

        E é assim que elas se arranjam!...

        Uma coisa todos já sabemos: enquanto for verão e o tempo o der, a calamidade dos fogos continuará a fustigar o país, mais a norte do que a sul, já que aqui há menos para queimar e é mais fácil apagá-los, o que não interessa aos criminosos. Uns, poucos ou nenhuns, iniciados pelas já célebres trovoadas secas, outros, a grande maioria, pelos diversos e grandes  interesses económicos que estão por detrás de quase todas estas calamidades. E que se servem de todos os meios para atingir os seus fins. Apelos para quê? Os tais interesses não têm consciência nem alma. 

A maldade, a ambição e os negócios escuros, normalmente, atuam e abrigam-se debaixo de toldos de difícil identificação. Cabe aqui às forças políticas ( aqui e agora) e policiais desenvolverem meios capazes de  os descobrir. Falem, gritem, insultem-se, acusem-se, inventem os disparates que quiserem. Mas há alturas em que a falácia deve parar. Solidarizem-se nas horas difíceis do país em que todas as divergências têm de ser postas de lado. Assumam-se como homens e deixem-se de palermices que só os fazem cair no ridículo. Por uma vez na vida sejam dignos dos cargos que desempenham. Deixem-se de zurrar, que para isso já existem outros seres da natureza que o fazem com mais nível e dignidade.  Respeitem os mortos, bem como o luto e a dor dos seus familiares. Ajam com respeito, dignidade, eficácia e dignidade espiritual, se souberem o que isso é. Deixem-se de fanfarronices e não aticem fogos estéreis de palavras ocas e enganadoras. Isso sim, será política a valer. Sigam por este caminho e o país ficar-vos-á grato. Atuem mais e falem menos. Já chega!

        E, para terminar, já só cá faltava esta que está a ser altamente divulgada pelos órgãos da comunicação: Os partidos digladiam-se, em jeito de campanha eleitoral, com acusações de que a distribuição dos recursos, produto dos vários donativos,  está a ser condicionada pela cor política das Câmaras, Juntas de Freguesia, ou dos próprios beneficiários.

      Recuso-me a acreditar. Mas, a ser verdade, dir-se-ia que o ridículo bateu no fundo. O pior é que toda esta baralhada partidária parece não ter fundo. Calem-se por uns tempos e o povo que vos elegeu ficar-vos-á grato.  

 

Pires da Costa