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Animus Semper

O SEMINÁRIO  DE  MARVÃO

NOTA PRÉVIA: A pensar no Encontro de Marvão em 20 de Maio, andei a pesquisar na Internet tudo aquilo que podia enriquecer estas páginas. Um dia, dou com uma referência a um texto sobre o Seminário de Marvão, publicado na revista Ibn Marúan, de 1998, dirigida pelo professor doutor Jorge Oliveira, marvanense de Santo António das Areias, Professor de Arqueologia da Universidade de Évora, director das escavações na cidade da Ammaia, fundador e director da dita revista. E de quem era o texto? Do meu grande amigo, João Porfírio. Não parei até lhe pedir este achado, que, para mim, é a maior bomba que pude encontrar. 

Ao lado das pérolas do Fernando Leitão, temos agora este diamante. O texto é extenso e vai ser publicado em partes, para melhor ser saboreado. Obrigado, João, por quereres estar aqui. Como esta preciosidade é de 1998, não admira que algumas referências a jogadores e outras estejam desactualizadas. AH

 

Recordações de Vida

João 2.jpg

 

Texto de João Chamiço Porfírio

 

Quando, em Outubro de 1953, terminado o 6º ano no Seminário de Alcains, me apresentei em Marvão, para continuar os estudos, no Seminário então ali existente, estava bem longe de imaginar as condições que iria encontrar, e o que isso iria representar na minha vida futura.

Por impossibilidade de continuar a utilizar as instalações do antigo Seminário de Gavião, devolvidas ao seu proprietário, a família Pequito Rebelo, e perante atrasos na construção do novo Seminário de Portalegre, o saudoso D. Agostinho de Moura, então Bispo de Portalegre e Castelo Branco, viu-se na necessidade de, a partir de 1950 (creio não estar errado), utilizar os 4 edifícios generosamente postos à disposição da Diocese pelas entidades oficiais de Marvão.

A primeira impressão não digo que foi boa nem má. Foi estranha. Tinha estado 6 anos em dois seminários clássicos, Gavião e Alcains, que funcionavam num único edifício, não digo que com extraordinárias condições, mas que serviam perfeitamente à sua finalidade.

Ao chegar a Marvão, deparámo-nos com um Seminário totalmente diferente, diria quase anarquista, no seu aspecto logístico e no que daí decorria.

Num edifício contíguo à Igreja do Espírito Santo que funcionava como capela privativa e que, depois da saída do Seminário serviu de asilo dos jovens e casa paroquial, estavam as salas de aula e estudo, a cozinha, o refeitório, instalações sanitárias e quartos de alguns professores.

Numa casa situada quase em frente da antiga Estalagem Ninho de Águias, propriedade do Sr. Jeremias e que hoje, creio, funciona como anexo da Pousada de Santa Maria, estava instalada a camarata dos alunos mais velhos, os "teólogos".

Na Igreja de Santa Maria, que já há muito não estava ao culto, encontrava-se a camarata dos mais novos, os "filósofos". Na sacristia estava instalado o prefeito - sacerdote encarregado de acompanhar um grupo de seminaristas - o saudoso P. Augusto Dias Lopes.

Espaços próprios para recreio, lazer e actividades desportivas não havia. Melhor, eram extraordinariamente amplos. Espaços de recreio e lazer eram toda a vila e arredores.

Campo de futebol era o terreiro junto à muralha nascente. Por detrás duma das balizas, instalada em plena calçada, ficava a garagem do Sr. Joaquim Raposo. Detrás da outra ficava a pensão. Se do lado da garagem não surgiam problemas por inexistência de vidros, já do lado da pensão assim não era. A sua proprietária, mal nos sentia chegar, apressava-se a abrir todas as janelas. Não que fosse grande admiradora das nossas habilidades futebolísticas. Queria sim evitar os resultados desastrosos da pontaria de alguns que acertavam mais facilmente com a bola no buraco pequeno da janela do que no grande da baliza.

E quando por aselhice, entusiasmo, vento ou outro imponderável, a bola saltava a muralha, então era esperar que algum mais ágil e afoito descesse, pondo mão e pé nas saliências e reentrâncias da muralha e a fizesse regressar ao seu reduto natural. O pior era quando não ficava entre o primeiro e segundo muro. Normalmente, nesses casos, ultrapassava a estrada e ia por aí abaixo. Algumas vezes a fui buscar perto da ermida de S. Brás. Imagino o que seriam os senhores Pintos, Jardéis e Leandros a praticar as suas habilidades em terreno tal, onde, para além de dominar bola e adversários, era preciso também saber evitar as pedras mais ou menos salientes e utilizar os muros como tabela de progressão... Ou então os senhores Baías e Prudhomes a mergulhar nas pedras da calçada para deter o projéctil saído dos pés do adversário... Alguns testemunhos ainda posso apresentar espalhados por este corpinho rotundo, quase roliço, que agora possuo...

Apesar disso, que quantidades de adrenalina despendíamos em renhidas e sempre discutidas partidas... (CONTINUA)