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Animus Semper

O NATAL NA HISTÓRIA

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Comunicação do Florentino em Proença-a-Nova. Um resumo que vale a pena ler. Os cones iluminados de hoje são outra coisa!!! Obrigado, amigo, por nos ajudares a olhar para o Natal! AH

 

Do Natal pagão ao cristão

 

“Como todo o mundo é composto de mudança”, lá canta o nosso maior poeta, a celebração do Natal, ao longo dos tempos, não foge à regra.

Tudo terá começado durante a fase final do Império Romano, quando o imperador Aureliano, pretendendo manter e reforçar, no ano de 274 (séc. III),a unidade política no seu tão vasto Império, decretou que, por todo o território se fizessem fogueiras religiosas, em honra do deus Sol (Natale Solis Invictus). A data escolhida foi o período do solstício do Inverno, finais de Dezembro.

A escolha desta data terá tido muito a ver com o facto de, a partir desta altura do ano, os dias começarem a crescer, com a presença mais prolongada do sol. A população, ligada às fainas agrícolas, depois da natureza definhar, devido aos rigores do finais do Outono, procurava, através destas festas religiosas, manifestar a sua alegria, à volta dos Madeiros (fogueiras) comunitárias, acesas, para, através do seu calor e da sua luz, prestarem o devido culto ao deus Sol. As nossas fogueiras, geralmente acesas na Noite de Natal nas nossas comunidades beirãs, poderão ser ainda uma manifestação desta primitiva Festa pagã romana.

Como se tratava de uma festa em honra do deus sol, os primitivos cristãos, como não desejavam participar neste ritual pagão, por contrapondo, foram criando uma festa semelhante, embora dedicada a Cristo, “luz que ilumina todo o homem” (jo.cap. VIII, 12). Aliás, esta prática foi muito habitual nos primeiros tempos do cristianismo. Batizar muitos dos costumes e práticas dos povos pagãos que se iam convertendo ao cristianismo era uma estratégia adotada na missionação primitiva.

Para os primeiros cristãos, Cristo era a Luz que veio a este mundo, para iluminar os povos pagãos que viviam nas trevas da idolatria.

Toda esta Festa cristã irá conhecer maior esplendor em Roma, após a Paz de Constantino, no séc. IV, quando concedeu a liberdade à Igreja e a elegeu como fomentadora da unidade do Império. Note-se que a Festa do Natal cristão já era celebrada antes na Gália e na Península Ibérica.

A partir desta altura, Constantino e a sua mãe Helena decidem, no suposto lugar onde Jesus terá nascido, em Belém, construir uma grandiosa Basílica, hoje sob a responsabilidade da Igreja Ortodoxa. Num fresco deste templo já aparece, pela primeira vez, uma estrela e a luz inseridas na representação do nascimento de Jesus.

Toda esta simbologia é repescada do Evangelho da Infância de Jesus, apenas relatado em Mateus e Lucas que utilizaram um género literário denominado de “homologese” que não pretendia ser um relato jornalístico ou histórico. Apenas fazer uma pedagogia catequética, destinada a ensinar determinadas realidades salvíficas.

É o estilo denominado pelos biblistas de Midrash hegádico “em que se misturam tipologias (factos e pessoas do Antigo Testamento encontrando a sua correspondência em factos e pessoas do Novo Testamento, bem como aparições de anjos, e sonhos, para fazer avançar a narração e para explicitar determinadas catequeses cristológicas”.

Chegados à Idade Média, tempo da cristandade, o Nascimento de Cristo, inspirado nos evangelhos da Infância, irá conhecer agora uma nova implantação e desenvolvimento, com o primeiro presépio ao vivo, com a inspiração mística de S. Francisco de Assis, em Gréccio, na Itália, na Noite de Natal, em 1223. Com esta iniciativa natalícia, este santo desejou reviver o Nascimento de Jesus com os seus vizinhos, em comunidade cristã, exaltando o valor da irmã pobreza, da humildade e da ligação à natureza, em contraponto com a Igreja do seu tempo. Meditar ao vivo a Infância de Cristo e os seus ensinamentos, era o seu grande propósito catequético e místico. Os seguidores da Ordem franciscana, na peugada do seu fundador, acabariam por repetir o modelo primitivo franciscano, por todo o mundo católico, estendendo-se pelas novas terras que Portugal e Espanha iam descobrindo, a partir do séc. XV.

Chegado aos tempos da Reforma Protestante e do Concílio de Trento, no séc. XVI, o Natal, bem como a religiosidade medieval que o envolvia, sofreu, por parte dos protestantes e dos católicos, algumas alterações.

No mundo das Igrejas protestantes, de um modo radical, são rejeitadas as tradicionais imagens do presépio, uma vez que colocavam as imagens em questão. Apenas aceitavam a imagem da Cruz de Cristo nas suas igrejas. Deste modo, o Natal começava a ser vivido pelos luteranos, já não com as imagens tradicionais colocadas no presépio. No seu lugar, começa-se então a ver, em vez do tradicional presépio, uma árvore de Natal iluminada – o verde pinheiro - hoje vulgarizado por todo o lado. Quanto aos católicos, não só se mantém o tradicional presépio franciscano, mas conhecerá uma maior grandiosidade, embelezado com artísticas e múltiplas figuras famosas de barro, de famosos artistas. Os mosteiros chegaram a fazer disputa para apresentarem aos fiéis o presépio mais belo e grandioso.

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O apogeu destes presépios coincidiu com os anos do reinado de D. João V, séc. XVII-XVIII, quando o ouro do Brasil chegava a Lisboa, em grandes quantidades.

Assim chegámos ao Natal Moderno ou neo – pagão de hoje, o qual se vai alastrando por todo o lado. Uma altura do ano, sobretudo mais consumista, construído e apregoado pelas grandes multinacionais, a pressionarem, por largos meses, os consumidores para gastarem o mais possível. Um Natal capitalista em que, a primitiva mensagem de humildade, comunhão e vida simples se vai evaporando neste mundo ocidental, cada vez mais individualista e materialista.
Resta, a cada um, escolher e viver o seu Natal em comunhão, de acordo com os seus valores. Não com uma visão pessimista, mas com discernimento, fazendo as suas escolhas.

Umas Festas Felizes, para todos os nossos companheiros de viagem, neste nosso Animus Semper.

Florentino Beirão