Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Animus Semper

MEMÓRIAS SOLTAS

NOTA: Começamos hoje a publicar os textos que compõem o número 2 do Opúsculo «OLÁ, PROFESSORES!», de homenagem a mais um grupo dos nossos antigos professores, livrinho que também veio imprimir uma nota muito especial ao nosso Encontro de Marvão. 

Começamos com o texto inicial, da autoria do João Lopes. Obrigado, João! AH

 

MEMÓRIAS   SOLTAS

IMG_2005.jpg

 

“ Que dúvida   Que dívida   Que dádiva

Que  duvidávida   afinal  a vida ”

 

(In Matura Idade “ Eco da Anterior”  - David Mourão-Ferreira  - 2º vol. Obra Poética, Bertrand, 1980, pág,143)

 

 A vida é para ser contada ensina-nos o mestre Garcia Márquez. Mas cada um conta à sua maneira, de um ponto de vista pessoal e subjetivo, a mesma experiência de vida partilhada com outros no mesmo tempo e espaço. É o que vou tentar fazer, selecionando a esmo recordações que guardo no coração. E não me perguntem porque estas e não outras. Não sei!

Desde eu - menino que sonhava ser seminarista. Para lá dos muros do seminário da Alcains, só entrevia alegria, jogos, professores eminentes, rapazes felizes e uma quinta com muita fruta. Um verdadeiro Bosco Deleitoso, guardado por uns molossos que afastavam quem era mau!

 

Assim, feita a quarta, outro rumo na vida não descortinava. Com muito espírito de sacrifício e fé em Deus, os meus pais decidiram arriscar. E pude entrar no seminário do Gavião num glorioso dia do ano da graça de 1953. De manhã, lá fomos os três rapazinhos de Alcains no comboio até à estação de Belver - Gavião. Daí até ao seminário, era um salto, numa camioneta que sufocava na subida da ladeira. O velho casarão, já conhecido do exame de admissão, desta vez não se mostrou tão imponente e esmagador!

 

Depois do almoço, subimos a escadaria do palacete e, por ordem alfabética, fomos chamados a contas. A mãe pagou as cinco notas de cem do trimestre e mais uns trocos para livros e material escolar. Na despedida é que o coração deu um pulo. ”Já se vai, mãe? –“ Sim, filho. Deixa lá, ficas bem entregue…” À noite, na cama, ainda com o cheirinho da mãe que a arranjara, apertam as saudades e correm as lágrimas debaixo dos lençóis do enxoval, comprado com tanto sacrifício. Outros, menos contidos, enchiam de soluços o frio da camarata. Até que a voz do prefeito ribombou com zombaria: “ Alto aí! Vou já buscar um lençol…Tanto pranto, para quê? Maricas ! ”. Era um homem pragmático que não poupava nos puxões de orelhas à menor transgressão do sacrossanto regulamento. E avisava: “ Lavar os dentes à noite, banho frio uma vez por semana, e ordem, muita ordem na forma. E bico calado!” Os cordeiros do Senhor deviam andar bem alinhados e em silêncio monacal!

 

A rotina escolar impunha-se com a solenidade de um ritual - estudar, rezar e brincar, que um homem, ou melhor, uma criança não é de pau. E lá vinha o recreio e os passeios pelos campos verdes e arejados do Gavião onde enchíamos os pulmões de liberdade. Às vezes, nas quintas, era-nos permitido o acesso à fruta. Famintos, excedíamo-nos na colheita, terminando a festa, com reprimendas e bofetadas do prefeito, envergonhado com tanta selvajaria.

 

O prof. de Latim fazia-nos decorar a gramática, recorrendo, se necessário, à sua cana de marmeleiro. Nunca apanhei, porque marrava, marrava até queimar a pestana. Percebia que, sem o domínio do Latim, nunca seria um homem, como me avisara o avô materno antigo aluno do colégio de São Fiel. De vez em quando, uma mosca mais gulosa poisava na esplêndida careca do bom do Padre e lá se ia o rigor das regras e exceções! Já o Francês era uma festa, uma cantoria. O Venerando Professor, que pela França se ficara depois da Guerra de 14-18, ensinava-nos a Língua de Flaubert a cantar! E com tanta delícia e proveito, que muitos ficaram, com essa frutífera aprendizagem, para toda a vida.

 

Com saudades, deixei o Gavião, que me deu asas para voar! Que dádiva, que dívida para com a divina Providência que, através de homens com virtudes e defeitos, desenhou o rumo do meu percurso vocacional.

Regressei com algum alvoroço à aridez da minha terra, tão diferente do verde dos pinheiros e das terras húmidas e férteis daquela parte do Alto Alentejo, onde passara dois anos de felicidade, aqui e ali ensombrada pelas lágrimas da distância e as dificuldades próprias de um curso marcadamente clerical.

 

Já vinha com o sangue vivo do turbilhão hormonal de um potro selvagem que dentro de mim cavalgava num trote desalmado. Adeus, a ideia romantizada de um Bosco delicioso! Algumas vezes, estive bem perto da porta da rua. A vigilância apertada do prefeito nada deixava escapar. O módulo educativo, de tão exigente, no capítulo da moral, alargara as possibilidades de “expulsão”, acabando por roçar os limites da pura Sorte e capricho do destino. Que desperdício! Jovens com tantas qualidades, de repente, sem saber bem porquê, lá iam na carroça com o malão, a trouxa e tudo!

 

Para domar o potro selvagem da idade, de gente normal, usavam e abusavam de retiros jesuíticos e de prédicas enfadonhas, na sua maioria focadas na temática do pecado, da morte e do inferno iminente, como se estivesse ali à esquina de um olhar impudico ou de um gesto duvidoso.

Apenas um caso para ilustrar o tipo de ambiente: depois do futebol, com as vestes desalinhadas ou em calções (a evolução era lenta!) ao subirmos para as camaratas, o prefeito fez-nos frente, gritando: “ Escondam-se!” Cada um procurou um refúgio adequado onde não fosse visto pelo salteador que se dizia rondar o seminário. Passado um tempo, saímos da toca e, perplexos, perguntámos pela razão do alarme.“ As lavandeiras, seus estúpidos”- esclareceu o senhor, avermelhado de indignação. Sim, as pernas dos eleitos do Senhor não podiam ser vistas pelos olhos de luxúria daquele rancho de raparigas!

 

Para desafogar os anseios da alma e da carne, lá tínhamos o desporto, a música e a oferta cultural, na área dos instrumentos, a escolher consoante o jeito e o gosto de cada um. E, digno de memória, o prato de feijão - frade da autoria do tio Manuel, devorado pela manhã com sardinhas fritas! Assim como não esqueço o atum com batatas do Gavião, iguaria dos anjos, deixo aqui registada a magia esotérica do divino feijão, que a muitos mantinha de pé para o dia inteiro. Lá no Céu onde está, bem-haja, ti Manuel!

 

Às vezes, em grupo, falávamos de política. Tinha 16 anos, e corria o ano de 1958 das eleições para a presidência. Aproxima-se um senhor padre com a funesta notícia de que o General ameaçava demitir o Dr. Salazar. E eu exclamei, entusiasmado: “ Pois, eu cá queria que o Delgado ganhasse!“ O quê, João, tu ?! “ Os olhos do padre fuzilaram –me e eu , engasgado, fingi um engano e desapareci, não fosse o caso dar para o torto e lá se ia o meu 5ª ano!

 

Não me conformava com o currículo. Tudo me parecia do avesso. Aviava-se a história por atacado. Três em um. Tínhamos a graça de um escritor que, em vez de nos dar Português, martelava a matemática! O Inglês de que tanto gostava, num curto ano, se despachava. E o ruído das obras impedia-me a concentração no calhamaço da Filosofia. Tudo parecia correr mal, apesar das notas não me envergonharem. Até o teatro! No último Carnaval, preparámos com esmero um drama religioso, bem ao gosto clerical. No ponto mais alto da “ação”, eis que o Estevinha me dirige a réplica (a mim que de abade fazia). Colocando a mão no traseiro, diz: “ Ó Abade, isto está mau!” Foi uma risada geral e lá se foi o “pathos” tão ansiosamente aguardado!

 

Não, nem tudo se perdeu. E nesta evocação de memórias tão descosidas, é justo que lembre a influência salvadora do Padre Chaves, nosso vice-reitor. Devo-lhe a devoção a Nossa Senhora e ao Santíssimo, que me transmitiu com tanta autenticidade, marcando-me para sempre. Que dádiva! E Deus entrou definitivamente na equação da minha pobre vida, balançada entre a fidelidade e a traição.

Munido desta crença ou convicção, atravessei o limiar do seminário de Portalegre, sabendo que talvez Deus me quisesse, apesar das sombras que sobre a minha real vontade ainda pairavam. Não se decide tomar um compromisso para a vida, com 16 ou 17 anos, se bem que tais dúvidas não se pudessem explicitar sob pena de ser inscrito na lista dos suspeitos, a despachar numa ocasião mais propícia e menos penosa para consciência dos decisores que presumem ler os decretos divinos.

 

Na altura, não era esse o problema. Acometido por uma curiosidade intelectual, quase sem limites, estudava e lia tudo quanto à mão me chegasse. Tinha ali a oportunidade de, pelo saber, superar a minha condição social de filho de gente pobre e quase irrelevante. Deslumbrava-me a Biblioteca e um corpo docente de nível superior. Que dádiva! Que dívida! Tinha paixão pela História da Filosofia! Reclamava os textos de Kant, Hegel, Heidegger, Sartre, Camus… e só me davam resumos filtrados pela doutrina católica. Muito me ajudou o saudoso P. Pinheiro com quem mantinha colóquios reconfortantes. Homem humilde e de muita ciência, apesar de não ostentar o título de doutor. Chorei com Camilo, espantei-me com Dostoievski, Bernanos e outros que o bom do P. Milheiro nos emprestava.

 

Discutia com outro Milheiro, o Joaquim, um colega só um ano mais novo e que fazia sonetos à Antero de Quental. A sua saída, por causa da prima, causou-me um abalo profundo. Por que associar sacerdócio e celibato? Timidamente, coloquei a questão na aula de Moral e vi-me outra vez fuzilado por um sarabanda de argumentos do mestre dos mestres que quase tudo controlava com o fulgor da sua inteligência.

 

Abandonava, então, os calhamaços da BAC e procurava respirar nas obras de K. Rahner, Haring, Congar, que almas generosas de profs e colegas (Obrigado, Assis) me emprestavam. Em pleno concílio, preferia-se a segurança bafienta da teologia de Trento às aventuras do NOVO ESPÍRITO que invadia a Igreja. Oficialmente, era assim; em surdina, falava-se de tudo com a complacência tácita dos mestres, que já perscrutavam os sinais dos tempos. Fazia palestras em que era ouvido com orgulho e compreensão por todos, inclusive o Senhor Bispo que, com graça, me chamava o “filósofo”. Como se isto não fosse já muito, acompanhávamos as irmãs do Graal até à Urra em espírito de missão. E as palestras de Maria de Lurdes Pintassilgo e da Doutora Manuela  Silva?

 

Como apontamento final, para devidamente aquilatarmos do grau de humanismo que tonificava a atmosfera do nosso querido seminário (caso único de Portugal, assim o creio!) a cortesia e a nobreza do Reitor, o P. Brás Jorge. No refeitório, atento  às reações dos alunos, descia da sua mesa e vinha perguntar-nos se tudo estava bem. “ Ótimo! Divino, Senhor REITOR ! Este empadão está de comer e chorar por mais!

 

Santo Deus! Tanta dívida! Tanta dádiva! E já tão pouca dúvida!

 

 João Lopes

1 comentário

Comentar post