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Animus Semper

Leituras de férias - 3

QUE BOM!Crianças de Hitler.jpg

 

Chegou hoje a primeira colaboração para esta rubrica que eu iniciei há dias. Acho que todos sentimos que isto é com todos, que o blogue é nosso e terá mais ou menos vida consoante tivermos mais ou menos participação.

Desta vez, é de Abrantes que nos chega mais esta preciosidade! Obrigado, Mário Pissarra. AH

 

Quando em Outubro de 1966 cheguei a Portalegre, tinha abandonado o seminário o Sr. P.e Milheiro. Pela mão de um colega mais velho fui introduzido no seu quarto onde havia muitos livros, sobretudo romances. Durante um mês, devorei 12 romances. Quando os professores se começaram a queixar de que eu não estudava e alguém apertou comigo, desculpei-me com o latim da filosofia e arrepiei caminho. Lembro-me especialmente de três títulos: A Ponte, O Exodus e a 25ª Hora. Foram a porta que se abriu para a literatura e a curiosidade sobre a II Guerra Mundial, o nazismo e o Holocausto. Interesse que ainda mantenho hoje. Foi sobretudo com a 25.ª Hora, cujo filme saiu em 1967 e também vi em Portalegre, que soube da existência de um programa da responsabilidade de Heinrich Himler chamado Lebensborn. Subordinado à filosofia do eugenismo rácico, visa apurar/purificar e garantir a sua preservação futura. São recolhidas crianças nos países ocupados, arrancadas às famílias, acolhidas por famílias germânicas e educadas em casas criadas para o efeito. É necessário garantir desde o início a sua germanização.

                Fui recolhendo informação dispersa em livros, reportagens e filmes. Sabia que a Noruega foi um lugar central neste programa. Há três meses saiu o primeiro livro em português sobre o tema e com um título sugestivo: As Crianças de Hitler. A questão que sempre se colocou foi: o que aconteceu a estas crianças após a queda de Hitler? Voltaram às famílias de origem? As famílias alemãs que lhes haviam dado o nome e lhes esconderam a verdade arriscaram a revelar a sua colaboração ativa com o nacional-socialismo? O caso tem contornos diferentes nos diferentes países ocupados, pois se nuns casos as crianças foram raptadas às famílias, noutros resultaram de amores ilícitos de quadros do nazismo. Na Noruega, por exemplo, a seguir à guerra, as mães foram consideradas prostitutas e colaboracionistas e as crianças tiveram de suportar esta má reputação pessoal e familiar.

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                O livro que recomendo para leitura de férias é da autoria de Ingrid von Oelhaven e Tim Tate. É a história de uma dessas crianças, que já tarde na sua vida, resolve descobrir a sua origem biológica. É uma labuta árdua, com mil e um percalços pelo caminho, pois muitos arquivos foram destruídos, mas com a ajuda de várias organizações e com a colaboração de muitos outros que partilharam histórias de vida semelhante, é levada a bom porto.  ´E uma investigação que nos prende à história e aos crimes horríveis e monstruosos alimentados por uma distopia genética. E em cada um dos que viveram esta triste aventura e tiveram ocasião de a poder fazer restará sempre a pergunta: quem sou? Como construíram a minha identidade? E como a desconstruíram?

Boa leitura e boas férias.

Mário Pissarra