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Animus Semper

HOMENAGEM COM MUITA VIDA

Homenagem ao Sr. Cónego Henrique Pires Marques

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NOTA: O Mário Pissarra diz-me para eu corrigir e cortar o texto à minha vontade. Como podia eu cortar um testemunho tão cheio de vida, daqueles que nos enchem de gozo espiritual, de ânimo, de um consolo especial por termos gente desta na nossa família? Obrigado, Mário, pelas tuas palavras. 

Obrigado, Cón. Henrique Pires Marques, pela sua vida no meio de nós! AH

 

Tive a honra e o privilégio de acompanhar o Pe. Henrique no início da sua entrada na eternidade. Privilégio e honra muito difícil e dolorosa. A última vez que estivemos juntos já não pudemos fazer o que tanto gostávamos: conversar. Tive a sensação que, ao manter a minha mão apertada e o movimento dos olhos, me havia reconhecido. Após as informações que recolhi junto do médico, fiquei com muitas dúvidas e com uma ténue esperança que, como disse o médico, «talvez o consigamos agarrar».

O meu primeiro contacto com o Sr. Pe Henrique foi por ouvir dizer. Na década de 60, quando era pároco de Martinchel e Assistente Diocesano da JAC (juventude agrária católica), uma das minhas irmãs participou nos encontros preparatórios para as Jornadas europeias que iriam decorrer em Estugarda, na Alemanha Federal.

Quando frequentava o Seminário de Alcains, fui com o Joaquim Silvério servir os padres da diocese no seu retiro anual no Seminário de Portalegre. Começou aí a nossa amizade e a minha admiração. No seu jeito muito peculiar e com o seu fino humor, perguntou-me: Porque usa o imperador do Japão suspensórios amarelos? Fiquei atrapalhado com a situação, mas isso foi apenas pretexto, como era seu hábito, para iniciar a conversa e me fazer uma série de perguntas sobre mim e sobre a Idanha. No ano seguinte, foi nomeado pároco da Idanha. Para mim, nunca deixou de ser o Sr. Pe. Henrique. Mesmo depois de ser cónego, nunca deixei de o tratar como sempre o tratei: era o meu pároco e com ele convivi durante longos anos enquanto seminarista. Foi nesta situação que conheci a restante família: irmão, cunhada e sobrinhos.

Quando terminei o curso de teologia, fui colocado em Abrantes. Uma das razões oficiais para vir para Abrantes foi: o Sr. Padre Henrique conhece-te muito bem e tu também o conheces bem. Aí o convívio foi mais próximo, pois vivi na casa paroquial dois anos. Empenhei-me fortemente na celebração das suas bodas de prata sacerdotais em Abrantes e estive presente na missa das bodas de oiro sacerdotais em Rossio ao Sul do Tejo (a sua família viveu aqui e aquela igreja matriz tinha um valor simbólico para ele). Foi nesse dia, durante a homilia, que pela primeira vez me pareceu que o seu enorme potencial discursivo começava a diminuir. Atribuí o facto ao envolvimento afectivo sempre perturbador e à recente perda do seu grande amigo, Pe. José Esteves.

A sua ida para Portalegre fez com que os nossos encontros e conversas fossem diminuindo. As vezes que o visitei foram sempre motivo de alegria para ambos. Em Portalegre, como depois em Tomar, continuava a perguntar-me por cada um dos membros da minha família que conhecia. Também me perguntava por pessoas de Abrantes e da Idanha. Pessoas simples e de quem foi sempre amigo.

Na sua despedida derradeira, gostei da atitude dos três sacerdotes presentes no velório ao preparar e rezar com os presentes as vésperas; gostei da iniciativa do Sr. Cónego António Assunção ao rezar o terço antes do início das cerimónias fúnebres; sendo embora um dia difícil para os párocos, gostei da presença de um número significativo de presbíteros e, sobretudo, gostei das palavras finais do Senhor Bispo sobre a vida do Sr. Pe. Henrique. Tiveram em mim um duplo eco: se por um lado, traduziam o sentir e pensar do presbitério diocesano (homem inteligente, culto, com grande capacidade discursiva, dedicado ao seu múnus e de trato afável) e das comunidades que serviu (gozou de grande estima e apreço dos paroquianos), por outro lado, ecoaram em mim como um repor da verdade e da justiça.

O meu problema agora é: do muito que tenho para dizer e testemunhar sobre o Sr. Padre Henrique que escolher?

Era um homem de pensamento. Lia e preparava minuciosamente as suas intervenções. Nunca me esqueci quando uma vez cheguei à Idanha pela Páscoa e me contaram que havia feito umas palestras na casa do povo durante a quaresma. A pessoa que me falou era analfabeta, mas havia concluído que com aquele padre tinha percebido que a santidade era para todos e que não era assim tão difícil. Uma outra vez, um ateu confesso que assistiu à sua homilia num casamento na Sra. do Almurtão concluía: «só para ouvir este padre valeu a pena vir à Idanha», No Sr. Pe. Henrique, a dimensão doutrinária sobrepôs-se sempre à litúrgica. Todavia esta dimensão doutrinária nunca foi dogmática e foi sempre servido por um bom senso pastoral notável.

Era um homem de discurso refletido, sólido e cativante. Nem sempre é fácil ser profundo, claro e simples. O Pe. Henrique conseguia, facilmente, cativar a audiência com um vocabulário corrente, de modo direto, sem rodeios nem artifícios e sem transigir no rigor ou cair em facilitismos enganadores. Um belo dia, discutimos a noção de pessoa. Dizia-me ele: esta coisa de nascer pessoa tem que se lhe diga. Tornamo-nos pessoa! Como diz o povo: torna-te gente! Cresce e aparece! Ainda que o não formulasse, intuía-o: não podemos pensar o Deus criador do homem (ser capaz de amor e um ser de relação) a partir coisa (o Deus oleiro). Noutra ocasião, viu-me a ler um ensaio de cristologia hegeliana de Hans Küng. Era um livro volumoso com cerca de 850 páginas. Pediu-mo. Como era seu hábito, quando queria ler, refugiava-se nas escadas de acesso ao coro da Igreja de S. Vicente. Passados uns tempos, entregou-me o livro e disse: li-o quase todo. É pena no meu tempo não termos livros destes e eu não saber o suficiente de Hegel para poder aproveitar mais.

Tinha uma visão gloriosa do cristianismo. A sua pregação insistia muito mais no Cristo ressuscitado que no Cristo sofredor. O amor sobrepôs-se sempre ao castigo e à justiça. O pai misericordioso ofuscou sempre o justiceiro vingador ou o polícia guardião da moral. A sua vasta cultura, muito enriquecida sobretudo pelas leituras dos anos 60 e pelo Vaticano II, dava-lhe uma abertura de espírito excecional.

Foi um homem feliz na sua vida paroquial. Passou por Martinchel, Idanha-a-Nova e S. Vicente (Abrantes). Foi sempre estimado pelos paroquianos e deixou obra digna de registo. Sendo aparentemente um homem tímido, não deixava de ser enérgico. A sua mãe tinha o dom de perceber quando as coisas estavam a atingir o insuportável. Discretamente, a D. Paulina arrefecia os ânimos e o bom senso imperava. Ficou famosa a situação de, perante uma pessoa que passou a noite a enaltecer-se com os títulos nobiliárquicos da família, às tantas, o Sr. Pe. Henrique encerrou laconicamente a conversa: para mim, títulos nobiliárquicos e papel higiénico têm o mesmo valor!

Também o Sr. Pe. Henrique teve as suas tentações e provações, no sentido bíblico do termo. Creio que os seus tempos mais difíceis ocorreram quando foi para o Seminário de Portalegre. É um percurso invulgar e ao contrário do habitual. Normalmente começava-se pelos seminários e depois ia-se paroquiar. O Pe. Henrique é pároco durante muitos anos e depois é «encafuado» no seminário. A par de outros problemas que teve de enfrentar com o novo estilo de vida, senti que viveu o seu tempo de provação. Resistiu com estoico silêncio merecedor de admiração.

Não quero abusar da paciência dos colegas. Mas não posso deixar de estar grato pelo muito que devo ao Sr. Pe. Henrique Pires Marques. Carreou alguns materiais para a construção do homem que vou sendo. Se a construção não é de qualidade, a culpa não se deve à qualidade dos materiais que ele aportou, mas à inépcia do construtor.

Ao Pe. Henrique, o meu eterno Bem-Haja!

Mário Pissarra

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