Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Animus Semper

HISTÓRIAS DE VIDA

Pissarra.jpg

História do meu Liceu (4)

 

Certo dia fui chamado ao Conselho Directivo da Escola. Explicaram-me que havia uma queixa dos pais de um aluno contra um dos professores estagiários de Filosofia. Eu era o orientador desse núcleo de estágio. A acusação rezava o seguinte: o professor disse na aula de Filosofia que isso de ir à missa era um mito. E convenceu o meu filho disso e ele agora recusa-se a ir à missa.

De facto, o mito era matéria que constava no programa de Filosofia (Passagem do mito à razão). Já o professor ter dito aquilo e daquele modo, levantava-me muitas dúvidas. Falei com o José Andrade e ele negou o facto. Falei com um ou outro aluno da turma e ninguém me confirmou a versão apresentada na queixa. Pedi então ao C.D. que convocasse uma reunião com os pais do aluno, com o referido professor e eu também estaria presente. No início da reunião, mandei chamar o aluno. Ao ver-nos todos, ficou surpreendido. Eu li a queixa e perguntei ao rapaz se era verdade o que constava na queixa contra o professor de Filosofia. Ele baixou os olhos e disse: a minha mãe obrigava-me a ir à missa; eu não queria ir; então inventei essa história e funcionou pelo menos até agora!
Moral da história: o argumento da autoridade tem inúmeras versões; não é, em absoluto, verdade que os alunos não reconhecem a autoridade dos professores; por vezes, até lhe atribuem autoridade a mais.
A primeira vez que fui assistir às aulas do prof. Estagiário, José Andrade, foi à turma do José Luís Coelho e do João Bioucas. Aí sim, fiquei preocupado. O Andrade era de Vila Nova de Foz Côa e um dos seus apoios no discurso era: "com caraio"! A frequência do recurso ao apoio era tal que quase se tornava contínua. Nenhuma aluna ou aluno se incomodavam com a situação. Só eu! E que me conste nunca houve nenhuma queixa …

Noutra ocasião, fui chamado a uma sala de aulas pela Dra. Maria do Céu Aleixo, professora de Ciências. Foi ainda no Liceu Velho, junto ao castelo. A sala era no corredor em frente à sala dos professores. Dirigi-me à sala, mas ia apreensivo e preocupado. Naquela época, os incidentes com esta professora eram frequentes e o Conselho Directivo achou que todos os assuntos com a referida professora seriam da minha responsabilidade. Esta decisão surgiu após uma exposição em que os alunos haviam sabotado uma experiência no laboratório de ciências. Essa exposição ficou famosa entre os elementos do CD e era conhecida pela exposição das moscas mortas. De facto, a experiência era para provar que as moscas sobreviviam apesar de estarem isoladas porque haveria um processo que produziria oxigénio. Todavia, os alunos levantaram a campânula e as moscas morreram. 
Dirigi-me à sala, bati à porta e assim que abri, a professora ordena-me: deixe-se estar aí! E ali fiquei eu especado e ainda mais perplexo, pensando: o que irá acontecer agora? Acto contínuo, pega num livro e começou a questionar-me: O que vê aqui?, e nesta gravura?, e nesta página?, aqui em cima e ao fundo,…? Muito obrigado, pode ir-se embora! E eu, ó pernas para que te quero, pois vi logo o que se ia passar. Instalou-se de imediato a confusão com os alunos a reclamarem. Fora convocado, formalmente, como testemunha pela primeira vez e não foi em tribunal. A professora mostrou as mesmas imagens aos alunos e muitos começaram a reclamar que não viam, não distinguiam, etc. Quem melhor garantiria que a professora tinha razão que a autoridade de um elemento do Conselho Directivo? 
No corredor ainda ouvi as vozes da Fátima Belém, do Eusébio, do Poitier, do Simão…

Mário Pissarra