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Animus Semper

HISTÓRIAS DE VIDA

História do meu Liceu

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No primeiro ano que leccionei no Liceu, tinha a maior parte das aulas no Anexo, hoje sede do PSD de Abrantes. Este Anexo deixou-me algumas recordações interessantes. As turmas do Anexo eram do curso geral e eu tinha todas as turmas, pois a Religião e Moral era apenas uma hora por semana. A contínua, assim se designavam na época, era a Dona Joaquina. Pelas conversas que ia mantendo com ela, já havia percebido que ela escutava o que se passava dentro das minhas aulas. Em vez de fazer renda ou bordar, como muitas faziam, ouvia. Não havia qualquer mal nisso e a exiguidade dos espaços era propícia para tal. 
Um belo dia, numa aula do 3.º ano (hoje 7.º), comecei por ler uma passagem do evangelho. Coloquei os alunos a trabalhar em grupo e o objectivo era dramatizarem o episódio. Indiquei o tempo para a tarefa e os alunos começaram a trabalhar. Passado pouco tempo, já a Dona Joaquina estava dentro da sala de aulas e em grande actividade. Discutia com os alunos e distribuía as tarefas nos grupos do fundo da sala. Não lhe disse nada na altura e ela esteve na aula até ao fim. Depois falei com ela e daí nasceu uma grande familiaridade e à vontade que durou até à nossa aposentação. Não acabou aí. Há tempos, falando sobre a família, no anfiteatro da Misericórdia de Abrantes, a Dona Joaquina pediu a palavra e começou: lembras-se do Liceu velho em que eu o ajudava a tomar conta dos alunos … Disse que sim e deixei-a feliz a levar a bicicleta das suas proezas…
Também numa outra ocasião, a Dona Joaquina veio chamar-me para ir ao Anexo. Pelo caminho conversei com ela. Um aluno, o Zé Silva, recusava-se a apagar o que tinha escrito no quadro. A professora recusava-se a entrar na sala enquanto ele não o limpasse. Perante o impasse e a barulheira no exíguo espaço ao cimo das escadas, mas muito apreciada pelos colegas, chamaram a direcção para pôr termo ao impasse. Afinal, o Zé Silva era o herói que ousava afrontar a jovem professora de inglês. Com a informação da Dona Joaquina e por ser da direcção da escola, cheguei, disse bom dia a todos, entrei na sala e apaguei o quadro. Saí, dirigi-me à professora e disse: já pode começar a aula, pois o quadro está limpo. Ela ficou surpreendida, mas sem palavras. Depois, disse ao Zé Silva: "no próximo intervalo vais ao gabinete da direcção que eu quero falar contigo". Tinha alguma confiança com o Zé, não por ser meu aluno, mas porque, uns dias antes, ele se tinha dirigido a mim dizendo: temos de tratar de problemas do partido! Fiquei surpreendido e disse-lhe que eu não tinha nenhum partido. Acto contínuo, saca de um Jornal - a Luta Popular, órgão informativo do MRPP, e mostra-me um barbudo numa fotografia. Devia ter algumas parecenças comigo, pois ele confundiu-o comigo. Não foi fácil convencê-lo que não era eu e, portanto, nada tinha a tratar comigo sobre o MRPP.
Dias depois, na conversa, soube a razão de ser daquela revolta e da frase que ele escreveu. Foi chamado ao quartel de Abrantes e teve um tratamento que alguns militares consideraram adequado à situação e ao seu envolvimento em actividades daquele partido. A sua revolta estava mais que justificada. Mas nem o quadro, nem a professora, nem eu sabíamos o porquê da sua rebeldia. Tudo se resolveu sem dramas nem, creio, ficaram sequelas …
Famoso no Anexo era também o Centro de Rádio do Liceu Nacional de Abrantes. Sobre isso falarei outro dia.
Mário Pissarra