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Animus Semper

FUNDÃO

Cá estou eu a voltar para trás... Na esperança de andar mais para a frente!

O Francisco Amaro postou este texto na sua página facebookiana e eu li. Não sei se a sua intenção era apenas celebrar a sua terra, ou se queria também dizer como mudam as coisas e nós com elas! O texto tem laivos de Eça de Queiróz.

Para mim, veio-me a nostalgia dos muitos dias que por ali deambulei em companhia de familiares que já se foram para bandas inóspitas, mas cuja amizade e trato simples sempre apreciei deveras. AH

 

FUNDÃO ( As cerejas ainda estavam em minoria )

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Ao sopé de uma das mais altas e formosas serranias de Portugal - embrechado sumptuoso de pomares, hortas, prados, soutos e olivedos, de veios de água cristalina e sombras paradisíacas - demora o Fundão, agregado de distinta perspectiva cruciforme, com seu discreto casario de ingénua traça manuelina e suas amplas e brasonadas construções setecentistas.
Zona de privilégio por graça da natureza e amoroso cultivo dos homens, famosas espécies florestais e pomíferas aqui arreigaram com as primeiras manhãs da independência, quando a então modesta aldeia entreluzia para a esperança de sua grandeza futura.
Concebia, entretanto, novos produtos a terra - vinhas, linhares, hortas, searas e sumagrais; borbulhavam pequenas indústrias promitentes - tecelagem, moenda, tinturaria e curtimentos, artefactos de vêrga, olaria e sericicultura; alargava-se o âmbito fecundo das transacções.
Do castanheiro e da pereira, árvores simbólicas da nossa moral compleição e do surto criador da terra, tomámos os elementos inconfundíveis de gloriosa heráldica; gente sóbria, leal, musculosa e audaz - "da rama do castanheiro" - arroteando fartas glebas de promissão e frutos pomposos - na "terra das boas peras".
A proclamar a nossa riqueza agrária, desdobrar-se-ia, com efeito, a fama tradicional dos pomares, soutos e hortas da Cova da Beira que, tendo como centro o Fundão, confirma uma das primeiras zonas culturais do país.
Para além da Gardunha, a sul e levante, caberia ainda ao nosso concelho a chã opulenta do Campo - farto celeiro municipal com grandes tractos de leguminosas, extensos olivedos e ricas manchas de sobreiros. E no rumo sudeste, em abruptas encostas de solo câmbrico, à beira do Zêzere, opulentos jazigos de volfrâmio e densas matas de pinheiros - subindo de frescas várzeas de milho e ladeando apertadas ravinas e barrocais, onde se acoitam as fecundas oliveiras ribeirinhas - anunciariam, por sua vez, uma das mais prometedoras riquezas da região.

( do livro "Fundão e arredores"/1940/Texto do Dr. José Monteiro )

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