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Animus Semper

FESTA DO SANTISSIMO SACRAMENTO

O Joaquim Nogueira com mais história regional. Mas não nos distraimos de Marvão! AH

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NA VÁRZEA DOS CAVALEIROS - SERTÃ

 

O  Padroeiro da freguesia de Várzea dos Cavaleiros é SÃO PEDRO. No dia litúrgico de São Pedro – 29 de Junho de cada ano – festeja-se o Padroeira da freguesia. É uma festa, exclusivamente religiosa, em que os habitantes da freguesia honram e veneram o seu Padroeiro. O Pároco celebra a Santa Missa e os fiéis enchem a Igreja.

Não vou descrever esta festa de carácter religioso mas antes a festa em honra e louvor do SANTISSIMO SACRAMENTO, que se celebra no terceiro Domingo de Maio de cada ano.

Vou relatar o que me foi contado e descrever o modo como vivi essa festa na minha infância e juventude, ou seja nas décadas de trinta a sessenta do século passado.

Começando pelo princípio, direi que a sua origem e razão de ser resulta de uma “promessa” que os habitantes da freguesia fizeram, há alguns séculos, ao Santíssimo Sacramento. Na verdade havia e há, naquela região, uma grande devoção ao Santíssimo, que era o poder a quem os cristãos recorriam – e ainda recorrem -, quando se sentiam ansiosos devido a qualquer enfermidade ou “desgraça” que os afligisse. Nessa altura, ainda não havia a devoção a Nossa Senhora de Fátima e era o S.Sacramento que se invocava, para evitar males ou para agradecer graças que tivessem sido concedidas.

Feitas as sementeiras do milho nas tapadas ( lotes ) que ladeavam a Ribeira da Tamolha, que corria, vagarosa, pelo meio das mais de 30 povoações que fazem parte da freguesia, semeados outros cereais, como trigo, centeio e cevada nas encostas, aconteceu uma desgraça. Na verdade, as tapadas com as mais diversas culturas, designadamente de milho e outros produtos hortícolas, como couves, nabos, feijão, cenoura ,etc. e as encostas com árvores de fruto, cereais, videiras, figueiras e assim por diante, foram “invadidas” por pragas de insetos que iam devastando o que os agricultores tinham semeado e cultivavam com tanto esmero e dedicação. Sem esquecer que eram esses produtos que serviam de base à sua alimentação e, sem eles, não sobreviveriam. Aflitos, entenderam que só o Santissimo  Sacramento lhes poderia valer. Vai daí, fizeram procissões, rezaram Missas e terços, mas, no princípio, sem grandes efeitos.

Até que, estando o povo da freguesia todo junto na Igreja, com a superintendência do Pároco, em frente do Sacrário, fizeram uma promessa, nos seguintes termos, como contam os antigos:

SANTÍSSIMO SACRAMENTO, NÓS POVO DESTA FREGUESIA DE VÁRZEA DOS CAVALEIROS, AQUI REUNIDOS, DECLARAMOS TER ABSOLUTA CONFIANÇA EM VÓS E, NESTA IGREJA, VOSSA CASA, JUNTO DO VOSSO SANTO CORPO E SANGUE, VOS PROMETEMOS, SOLENEMENTE, ORGANIZAR UMA FESTA EM VOSSO LOUVOR, NO MÊS DE MAIO DE CADA ANO, ATÉ À ETERNIDADE, SE AS PRAGAS, QUE ESTÃO DIZIMANDO AS NOSSAS CULTURAS, DESAPARECEREM”.

Certo é que, segundo a antiga tradição, os insetos, maus e devoradores, encaminharam-se, em correria, para a ribeira e desapareceram, tendo as culturas sido salvas. A população rejubilou, tendo-se acentuado a devoção ao Santíssimo Sacramento.

E, como o prometido é devido, desde então passou a celebrar-se, anualmente em Maio, a festa ao S. Sacramento.

Nos meados dVárzea1.jpego século passado, que é desde que me lembro, havia grandes preparativos para a festa.

Nomeava-se uma Comissão que ia ser a responsável pela execução dos festejos, que deviam corresponder à promessa feita.

Em Janeiro começavam os preparativos: As povoações – sós ou unidas – sabiam o que tinham a fazer.

A azáfama começava com a preparação das “FOGAÇAS” ( tabuleiros com varais compridos, com 2 ou 3 andares, onde eram depositados os produtos da terra, oferecidos pelos habitantes das povoações).

Eram os jovens, rapazes e raparigas, que, depois da ceia, se juntavam no local onde se fazia e enfeitava a designada fogaça. Descrevendo este primeiro trabalho, da conta dos rapazes, estes procuravam dois paus, compridos e redondos, que iam servir de suporte aos tabuleiros que iam construir. Os tabuleiros ( lembram-se da festa dos tabuleiros de Tomar? ) eram construídos, juntando tábuas em madeira de pinho, pregando-as ficando uma espécie de gavetas, que eram pregadas ao meio dos paus de pinho antes referidos. As gavetas ( tabuleiros ) eram pregadas, em cima umas das outras, começando por uma maior e as que encimavam iam diminuindo de tamanho. Normalmente, eram 2 ou três tabuleiros, encimados por um mais pequeno e, no cume, um pau com a bandeira do ou dos locais a que pertencia essa fogaça, escritos à mão nessa bandeira, v.g. RIBEIRAS FUNDEIRAS E CIMEIRAS, MOINHO DO CABO...

Construído o tabuleiro pelos rapazes, entrava em ação a força de trabalho das raparigas. Nesta fase, enfeitavam a fogaça, com papeis coloridos ( de várias cores ), enrolados em toda a construção e pendentes recortados, que ficavam muito lindos.

Não esqueciam a bandeira da ou das povoações a que pertencia aquela fogaça.

 Era nestes 2 ou três tabuleiros que eram colocados o milho, o trigo e o centeio oferecidos pelos habitantes. No meio dos cereais iam garrafas de azeite e pendurados nos tabuleiros presuntos ou bocados destes, chouriços de todas as qualidades e outras primícias valiosas, do melhor que cada família tinha e oferecia.

No tabuleiro superior, quadrado e mais pequeno que encimava o conjunto, era colocado um Várzea2.jpgbolo feito pelas jovens que se aprimoravam, pois este bolo seria disputado pelos rapazes, na licitação de que falarei mais adiante.

Esta fogaça pesada era transportada para a sede da freguesia por 4 rapazes que ofereciam os seus ombros colocados por baixo dos varais de que se falou. É óbvio que, com o peso, os rapazes e também as raparigas se revezavam e lá ia o conjunto, a rezar e a cantar, com brincadeiras próprias do dia, não esquecendo que tinham três/quatro kilómetros a percorrer.

Chegados ao limite da aldeia, tinham à sua espera a banda filarmónica da Sertã que, tocando marchas populares/religiosas, acompanhavam o grupo para o local onde eram colocadas as fogaças. O mesmo sucedia com as das outras povoações e era uma alegria! Mais de 20 e cada uma competia com as outras em beleza.

Celebrada a Missa da festa, organizava-se uma procissão, com o Pároco e as “forças vivas” da terra, com as fogaças a servir de emblema e centro da procissão, percorrendo as ruas da aldeia, dando uma grande volta.

Voltados ao recinto, iniciava-se o leilão dos produtos oferecidos pelas populações e era ver os rapazes a licitar os bolos feitos pelas suas, muitas vezes, noivas ou amigas, cada um querendo levar aquele que tinha sido feito pela sua querida. Os restantes géneros eram vendidos, em leilão, muitas vezes para abastecer os restaurantes de LISBOA e o produto da venda - com contas prestadas publicamente - revertia para as obras e assistência da paróquia.

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Entretanto, as famílias tinham levado fartos farnéis que iam comer e beber à sombra dos pinhais dos arredores. Estendia-se um cobertor no chão, depois uma toalha e os talheres e começava a “labuta”. Comia-se, bebia-se, cantava-se e, por vezes, organizavam-se bailaricos ao som de flautas ou concertinas que os rapazes levavam. Era, nessa altura, que se convidavam os amigos e os familiares das freguesias próximas – Ermida, Figueiredo, Marmeleiro e Sertã.

Esta a festa do SANTÍSSIMO SACRAMENTO da minha aldeia da VÁRZEA DOS CAVALEIROS, que recordo, com muita saudade, porque nela os habitantes demonstravam a sua amizade e, também e principalmente, como se podia viver com alegria sã e verdadeira, louvando a Deus e ajudando nas obras e assistência da freguesia.   Um abraço para todos.

 LISBOA, 18 DE Abril de 2 017.

J. NOGUEIRA