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Animus Semper

EXTRAÇÃO DE ÓLEO DE PALMA

 ANOS CINQUENTA – EM PAÍS AFRICANO

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 Era uma grande planície, onde estava instalado um campo de trabalhadores de uma empresa que, nessa localidade, tinha a sede das suas atividades industriais e comerciais.

Escrevi um campo de trabalhadores, porque, na verdade, a empresa era proprietária de outros  campos,  situados, alguns, a várias centenas de quilómetros.

Perguntar-se-á “que raio de empresa e a que se dedicava a mesma”?

 

As pessoas

Antes de desvendar esse segredo, permito-me “levantar o véu” e dizer que era dirigida, isto é, tinha como Diretor Geral um tal GEORGE, de nacionalidade belga. Homem de compleição atlética, alto, moreno, com uma farta, bem cuidada e negra cabeleira. Andava sempre impecável, camisa aos quadrados, de manga curta, calções cinzentos, muito usados nesse país tropical e, a coroar tal indumentária, um par de ténis leves e modernos, de classe.

Como Diretor de Recursos Humanos trabalhava LUÍS, de nacionalidade portuguesa, sempre bem vestido, de camisa branca e calça vincada, com sapatos pretos, bem engraxados. Perfeito contraste entre as indumentárias do Diretor Geral e a do Diretor de Recursos Humanos.

Não admira, porquanto é de conhecimento geral o “não te rales” dos belgas – como o George -  e o aprumo dos portugueses – como o Luís -, diga-se que apenas e só quando alcançam um certo grau na carreira profissional.

Trabalhava, ainda, nessa empresa, um outro profissional “de mão cheia”, - um tal JOÃO - angolano, de raça negra, mas evoluído, com costumes europeus, pois tirara o seu curso de técnico superior de engenharia elétrica e  mecânica, na Bélgica. Superentendia no Sector industrial – das 4 fábricas que a empresa tinha – e no Sector automóvel – da vintena de veículos que circulavam na concessão e da parte da energia elétrica (produzida pela empresa) e mecânica das várias instalações industriais que a empresa tinha em laboração.

Havia vários rios, mas, como não havia pontes, a travessia era feita em barcaças, pelo que, com as dificuldades da dita travessia, a empresa tinha dez barcos de transporte e barcaças, que eram atreladas aos barcos motorizados, os quais faziam a evacuação dos produtos das fábricas, no rio que ladeava as instalações. Este engenheiro mecânico vestia à moda europeia, com blusão moderno, às cores, e calção branco. No trabalho usava um fato de macaco, limpo, dando o exemplo às mais de duas dezenas de mecânicos e eletricistas autóctones, que dirigia.

Completava o quadro de pessoal superior FÁTIMA, jovem morena, belga, de cabelos e olhos castanhos, bem constituída, de porte altivo, para quem apetecia olhar. Assessorava o Diretor de Recursos Humanos  e era querida e admirada por todo o pessoal, não só pela sua graciosidade, mas também e principalmente pela sua competência  e bondade.

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A empresa

Esta empresa, instalada, desde o início do século passado, na parte sul de um dos maiores países africanos, dedicava-se à extração de óleo de palma e de palmiste. Estes produtos eram e são “tirados” do fruto de palma, que se desenvolvia através da formação de grandes cachos que se criavam “agarrados” aos troncos e ramos das palmeiras.

No pessoal, africanos dessa região, trabalhavam cerca de dois mil e quinhentos trabalhadores, sendo cerca de dois mil tarefeiros, com contratos precários, que cortavam os cachos das palmeiras, os conduziam aos postos de venda e eram pagos, de acordo com os kilos que entregassem aos trabalhadores, designados de “pointeurs”, na medida em que “apontavam” os quilos de fruto que os cortadores lhes entregavam.

Estes eram emIMG_0068.JPGpregados da empresa que rececionavam os frutos, os guardavam em contentores próprios, em folha de zinco, – situados no topo de quatro pilares em cimento - e os  entregavam a outros empregados que, em camiões, que entravam por baixo dos contentores afunilados, abrindo-se um portal, existente no cone inferior do contentor, para que o fruto, ali depositado, caísse, em catadupa, para a carroceria do camião, que o transportava  para as fábricas, no sentido de, ali, ser objeto de transformações variadas.

 

O trabalho e os produtos

Designadamente, eram sujeitos a cozedura a vapor, fazendo-se a separação do fruto do cacho, sendo o fruto, depois , cozido, “malaxado”, transformando-se em massa para, finalmente, entrar nas centrifugadoras, perfuradas em toda a sua circunferência. Rodando a alta velocidade, a indicada massa era atirada para o bojo das centrifugadoras, saindo o óleo, pelos buracos, para pequenos tanques existentes na retaguarda e atirado, por uma bomba elétrica, para enormes tanques circulares, situados na parte superior da fábrica, onde permanecia a clarificar e a decantar, pelo menos, durante 24 horas.lodo de palma.jpg

Este óleo era transportado em barcos-tanque, exportado para os mercados europeus e aí transformado em sabão e outros produtos afins.

O produto, que ficava agarrado às centrifugadoras, era composto de fibra e de noz. Esta massa era retirada por operários especializados, com uma vara com a ponta aguda, e conduzida para uma levada de água corrente, por baixo das centrifugadoras, onde as nozes, de cor preta, mais pesadas, permaneciam e a fibra, mais leve, boiava e era conduzida para o exterior, pela corrente contínua de água, onde secava.

Posteriormente, esta fibra, seca, servia de “acendalha” das duas grandes caldeiras existentes e que, através de uma máquina a vapor, transmitia força motriz a uma longa linha que, com rodas e correias de transmissão, em couro, fazia rodar todo o equipamento, como as centrifugadoras, os “malaxeurs”, os “concasseurs”, os elevadores, etc.

Das caldeiras saía também o vapor necessário para a cozedura dos cachos e do fruto de palma, assim como para a cozedura das nozes, donde se extraía o palmiste.

Explico: as nozes do fruto de palma, que, como dito, eram de cor preta, ficavam no fundo da levada de água.  Um operário mudava o curso de água e as nozes entravam num poço fundo, donde eram levadas, por meio de um elevador de alcatruzes, para um secador, blindado, situado na altura. Estas nozes eram cozidas, “concassadas” numa máquina – “concasseur” -, separadas as cascas das amêndoas, em máquina própria e estas, dep12918600_187027748349768_1688145920_n.jpgois de secas a vapor, num grande depósito, também blindado, para, finalmente, serem ensacadas e , depois de transportadas, por via fluvial, exportadas para os circuitos comerciais europeus.

Aqui, destinavam-se e destinam-se ao fabrico de margarinas e sabonetes de luxo, concretamente, em Portugal, nas fábricas da FIMA - LEVER.

Esta a actividade principal de uma empresa, situada, “no fim do mundo”, concretamente numa zona de floresta virgem, num dos maiores países equatoriais de África.  Desenvolvia as suas atividades industriais e comerciais numa grande concessão, outorgada pelo governo belga, de cerca de 100 Kms de diâmetro.  

Muito haveria a dizer sobre o desenvolvimento que esta empresa proporcionou na região, tirando as populações do subdesenvolvimento.  

Infelizmente, com a independência, concedida pelo governo belga, houve um retrocesso e só agora, finalmente, se começa a ver uma “luz ao fundo do túnel”.   Ainda bem!

Lisboa, 6 de Dezembro de 2016   - J. NOGUEIRA

 

 

NOTA:  Não merecia que o A. Henriques desse o destaque que foi dado à minha primeira colaboração no ANIMUS SEMPER. Emocionou-me a junção que fez da entrevista que o Colaço me fez e ao Silvério, relacionada com o nosso encontro do Gavião.

É sempre bom recordar e tenho que considerar que, “em boa hora”, um grupo de antigos alunos, tendo o D. Marcelino como mentor, tiveram a iniciativa de formar a nossa Associação.  Houve muito entusiasmo e, quando eu cheguei, vindo do ex-Congo Belga, onde trabalhei durante 14 anos, fui recebido, com pompa e circunstância, num jantar, que, na altura, ficou célebre, em que o prato principal foi feijão frade e petingas.

Esse jantar foi confecionado pela mulher - MARIA CÂNDIDA - do falecido e muito amigo Rodrigues Jorge e teve lugar na casa deles. Isto em 1971.

A Associação continuou e felizmente que a geração seguinte lhe está a dar continuação, não se coibindo os mais antigos de dar a sua colaboração, sendo eu e o Heitor os mais visíveis, sendo certo que muitos outros, da nossa geração, não se fazem “canhotos” para estar presentes e dar colaboração nas iniciativas que a juventude (nós incluídos!) organiza.

Um abraço para todos. J. NOGUEIRA

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