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Animus Semper

EXPOSIÇÃO 100 ANOS DE ARTE EM ABRANTES

Reportagem e análise

 

Mário.jpgQuem tem seguido o animus semper (que o bom e generoso A. Henriques anima e não se cansa de solicitar a participação de todos) e/ou o blogue do A. Colaço (Ânimo) foi vendo nascer a sua participação nesta exposição.

Eu, além destas fontes de informação, fui conhecendo a planificação das comemorações e acompanhando o nascimento desta exposição, pois conversei algumas vezes com a organizadora (Paula Dias, também ela artista e que numa das minhas aulas achou mais interessante fazer-me uma caricatura/desenho a ouvir-me; no fim da aula ofereceu essa relíquia que guardo com outras…), tinha uma visão diferente.

Todos sabemos que o Colaço é um homem de paixões. Esta foi a sua última paixão (conhecida) intensamente vivida. Como em todas as paixões intensas, o enfoque no objecto amado, desfoca-nos da realidade envolvente. A desfocagem da realidade envolvente chega ao ponto de não permitir ver o que nos cerca, mas é proporcional à intensidade, à dedicação, ao envolvimento e entrega à paixão.

O criador, ao criar a sua obra por quem se apaixona, cria um mundo. O seu mundo. Por vezes, a intensidade da vivência desse mundo, não torna fácil a comunicação com os outros (que também têm o seu mundo, embora vivido com menos intensidade emocional). Quando os mundos não têm uma nesga de intercepção, a comunicação é difícil, senão mesmo impossível. Nestas ocasiões fala connosco como se nós estivéssemos no seu mundo – é esse que o ocupa e preocupa -, mas nós não habitamos esse mundo e também temos, a cada momento, o nosso mundo (de ocupações e pre-ocupações e do qual cuidamos). A nossa relação com o nosso mundo é como a relação com quem amamos: ocupa-nos, preocupa-nos. Uma das formas mais relevantes do cuidado é o pensamento. Convido os que acompanharam ao longo dos anos o animus a reler a sua história através das paixões (e alguns ódios) vividas pelo seu autor. Não sei se acertadamente se não, sempre considerei que os melhores momentos para falar com o Colaço são no intervalo das suas paixões.

Abrantopia.jpgFui à inauguração da Exposição dos 100 anos de artes plásticas em Abrantes. Já conhecia a maior parte das obras expostas bem como os seus autores. Os 43 anos de vida em Abrantes e o hábito de visitar as exposições permitem-me conhecer (parcelarmente) a obra da trintena e meia de artistas representados. O critério de selecção era a relação com Abrantes e o ter participado em exposições. “Esta exposição proclama aqueles que através de uma linguagem plástica se expressam poeticamente e contribuem para o alargamento da visão da realidade que é sempre função da arte, escreve  acertadamente a Sra. Presidente da Câmara Municipal. Não presidiu nenhum critério de valor estético à escolha e organização deste evento. Antigos alunos representados: António Colaço e o João Quinto (sobrinho de Sr. Pe. Narciso Alves). O Colaço foi o único artista que criou uma obra alusiva ao centenário da cidade e se envolveu, além da Paula, na inauguração. Participou com a música e teve a colaboração do Grupo de Teatro da Palha de Abrantes.

Alegrias:

Tenho múltiplas razões para me alegrar e algumas para me entristecer com a inauguração desta exposição. Gostei muito da qualidade e do cuidado do excelente catálogo. Rejubilei por ver reconhecido e publicamente sublinhado o trabalho da responsável da Galeria Municipal pela Sra. Presidente da Câmara. Impressionou-me a qualidade dos trabalhos de alguns jovens artistas bem como o lugar reservado ao Mário Cordeiro, que apesar dos problemas de saúde e existenciais, continua a criar e a proporcionar-nos ocasiões de beneficiar com a qualidade das suas obras, sobretudo quando se mantém fiel a si mesmo.

Senti uma grande felicidade ao ver e acompanhar o Colaço numa nova paixão por Abrantes. Ao longo destes anos as relações do Colaço com Abrantes nem sempre têm sido fáceis. Foi giro vê-lo alimentar o sonho e a criação da obra: Abrantopias, arrumando numa ancestral cantareira as 100 tigelas em que ao longo dos 100 anos da cidade se deu continuidade a este tradicional doce conventual abrantino. Foi entusiasmante acompanhar as suas diligências na Pastelaria Pereira e o trabalho sobre as tigelas bem como a montagem da obra, garantidas por outras cumplicidades.

Desgostos:

Na inauguração da exposição houve algo que me desgostou profundamente e da qual quero dar público testemunho. A comunicação com o numeroso público foi desastrosa. Pedem-nos para nos desviarmos de um lugar e vamos para outro para descobrir que incomodávamos assim que a performance teve início. Uma boa leitura das condições ambientais (muito público – o que é sempre de louvar – e muito calor, aconselhariam discursos curtos. A Sra. Presidente que começou muito bem na introdução e na distribuição de méritos aos gráficos e à responsável pela Galeria, alongou-se em demasia, anunciando os próximos projectos do município nas artes plásticas. Uma maior sensibilidade e capacidade de leitura do feedback do público aconselhava um abreviar da intervenção.

Mas a cereja no topo do meu desagrado veio da apresentadora da exposição. Um exposição colectiva cujo critério é a pertença pelo nascimento ou pela vida a uma cidade nos últimos 100 anos, exclui, ipso facto, qualquer discutível critério de valor ou estético. Os convites, tanto quanto me é dado aperceber, não tinham por base qualquer critério estético de qualidade. A Sra. apresentadora tem todo o direito a ter os seus critérios estéticos e de valoração das (pretensas) obras de arte. Ninguém discute isso e todos sabemos que os juízos de gosto e estéticos são problemáticos. Mas isso não lhe dá o direito de fazer uma apresentação de alguns artistas, esquecendo os restantes, com um critério de um elitismo bacoco e desfasado no tempo e que pode ser critério de pertença ou de posse, mas nunca de criação ou valor estético. Desastroso o remoque perante a falta de silêncio do público. Sempre me incomodaram estes comportamentos, mas não se resolvem com a promessa de falar pouco ou estar a terminar para continuar a falar e muito menos com expressões: «já vão às tigeladas!...»

NOTA FINAL: Suspeito que o Colaço ficou um pouco desolado ou, porventura, até mesmo frustrado. Tanta paixão! Tanta entrega! Tanto empenho. E, aparentemente, nenhum reconhecimento público. É verdade que a exposição é colectiva, mas se fosse eu, sentir-me-ia, no mínimo, injustiçado …

O meu temor: que esta nova paixão reconciliadora do Colaço com Abrantes seja passageira. A minha esperança: que como nos ensinou F. Alberoni, o amor-paixão seja temperado com alguma racionalidade e permaneça como enamoramento.

Abrantes, 2016-09-11.

Mário Pissarra