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Animus Semper

Eu pecador me confesso...

COM A EXUBERÂNCIA, A LEVEZA E A GRACIOSIDADE  DE UM ARTISTA

Escreve António Rodrigues, que para aqui vem pela primeira vez. AH

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Eu pecador me confesso...


Como sabem, todo o católico cumpridor tem que, de vez em quando e conforme o peso na sua consciência, ir à igreja confessar-se e comungar.
A minha primeira confissão não correu lá muito bem. Uns dias antes de tal acontecer, quando fazia alguma acção que eu pensava ser pecado, tomava nota no caderno das cópias e ditados da escola, para quando estivesse de joelhos, no confessionário, em frente ao confessor não me esquecesse de nenhum.
Porém, quando o Padre me pergunta se já alguma vez tinha pecado por pensamentos, actos e omissões, eu se já estava nervoso, pior fiquei com tal pergunta e não fui capaz de me lembrar de um pecado que fosse, embora a lista fosse enorme, apesar dos meus nove ou dez anos. Mas, com a ajuda do Sr. Padre, a pouco e pouco, fui recordando e confessando o que tinha escrito no caderninho.
- Então, meu rapaz, diz-me lá: Já alguma vez mentiste? Sim.
Já alguma vez roubaste? Uma laranja, de vez em quando, para comer. E és vaidoso? Bastante. Passo bastante tempo ao espelho a fazer a marrafinha; perco muito tempo a engraxar os pés, já que não uso sapatos e além disso, todos os dias faço mais um buraco nos joelhos das calças porque agora é a moda.
- E tens faltado ao respeito aos teus Pais ou a algum superior? Às vezes, Sr. Prior. E tens ajudado as velhinhas a atravessar as passadeiras? Isso não faço, não por culpa minha, mas como sabe, cá na terra, não faltam velhinhas, não há é passadeiras.
- Ouvi dizer que, há dias chamaste putas às espanholas que costumam vir cá à terra fazer contrabando, é verdade? - É sim, Sr, Padre, mas a professora já me castigou, com três reguadas porque esta cena aconteceu em frente à escola e elas aproveitaram para fazer queixas que eu as tinha ofendido. Mas eu só disse que cheirava a putas, quando elas passaram por mim porque cá na nossa terra quando alguém cheira bem fazemos esse comentário, mas sem intenção de ofender e olhe que o perfume que elas usam é muito bom porque, mal atravessam a fronteira, já o cheiro se nota cá na aldeia.
- Tens mais algum pecado a confessar? - Não Sr. Padre. Então reza cinco Pai Nossos e cinco Avé Marias e não voltes a pecar.
Confesso que, depois de ter cumprido a penitência fiquei bastante aliviado e sem aquela carga de pecados sobre as costas.
À noite, quando me deitei, depois de tirar os brinquedos, ou seja o pião, as caricas, os berlindes dos pirolitos e outros de dentro dos bolsos das calças e pô-los na boina basca que eu usava, dormi que nem um anjinho.

António Rodrigues

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