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Animus Semper

ESPERANÇA PERDIDA?

Uma primeira colaboração do nosso amigo António Manuel Silva, que nos ajuda a reflectir e perpectivar a nossa visão do mundo. Obrigado!

 

Esperança perdida?

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Nos últimos séculos, com o desenvolvimento científico, tecnológico e económico, as sociedades ocidentais foram interiorizando a ideia de que o progresso era irreversível e permanente. Desde a Revolução Industrial até aos nossos dias, as excepções vieram confirmar a regra. Refiro-me às duas grandes guerras, em particular, e às grandes crises mais ou menos cíclicas. O Ocidente tem sabido quase sempre dar a volta por cima. Pelo menos aparentemente.
Os ocidentais têm vivido na esperança de poderem concretizar algumas aspirações que os tornariam felizes para sempre: a aspiração ao bem-estar material, a aspiração à igualdade individual e social (entre as pessoas, entre as Nações, entre os Estados) e a aspiração à paz mundial. E mais umas tantas que, a serem concretizadas, transformariam a Terra em Céu.
As duas guerras mundiais e os inúmeros conflitos armados que foram surgindo constituíram epifenómenos, nesta perspectiva. A implosão do mundo comunista, o fim da Guerra Fria e a queda do Muro de Berlim, o aparente reconhecimento da superioridade capitalista na sua versão liberal ou neoliberal, o desenvolvimento da medicina... Tudo parecia indiciar que era desta que se iriam concretizar as mais variadas utopias sonhadas por sociólogos, políticos e pensadores mais ou menos famosos. À pergunta formulada por KANT (filósofo alemão, 1724/1804), há duzentos anos: “ Que me é lícito esperar?”, poderíamos responder: “ Tudo!”
Temos vivido na esperança. Temos.
A falta de cura para velhas doenças, as novas epidemias que se anunciam inevitáveis e sem remédios, o terrorismo global no seu esplendor total (aquele terrorismo que Salazar e Marcello anunciavam em África, hoje, faz sorrir), a falência anunciada do Estado Providência, o desemprego, o fim previsto dos combustíveis fósseis e a delapidação acelerada dos recursos naturais, o aquecimento global enfim, tudo o mais que nos salta à vista vem contribuir para a morte da esperança. Está a acontecer o contrário do esperado.
A esperança está a ser substituída (se não o foi já completamente) pelo medo, e pela contestação. O medo vem acompanhado pela ansiedade, pela angústia e pela vertigem e pode trazer consequências políticas muito graves. A contestação deixou de ser individual. Nem sequer é já de grupo. Está a tornar-se global.
Devemos olhar para a contestação com inteligência. Contestação sempre existiu e tem ajudado ao progresso humano. De certa forma é a esperança ao contrário. É uma esperança que não vai no sentido imediato da continuidade e do prolongamento do idêntico, mas uma esperança que, pela rotura e pela negatividade, procura ancorar em algum sítio, no originário mais remoto, por vezes. A contestação é a esperança desesperada daqueles que já não encontram leis e motivações para estar na história a não ser pela total destruição, por todos os meios, da realidade presente. A contestação é a esperança exasperada daqueles que desejam queimar as distâncias que separam a sua vida da do país das maravilhas, essa “terra de todos e de ninguém”. (P.e Manuel ANTUNES, 1972)

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Será possível recuperar a esperança? Eu julgo que sim. Se alguma coisa a História e a Vida me têm ensinado é que o progresso não é linear e que o ser humano tem o destino de existir em várias dimensões. Como dizia PASCAL (matemático e filósofo francês, 1623/1662) “nós não somos anjos nem animais, somos homens” e, como tal, é nessa condição que a esperança nos habita. Nós estamos feitos para caminharmos entre o optimismo e o catastrofismo. Entre o bom e o mau. Entre o muito, o pouco e o quase nada. Treinemo-nos. E todos, mas todos mesmo, deveríamos ter presente a observação de Bruno BETTELHEIM (psicólogo e pedagogo austríaco, sobrevivente dos campos nazis de Dachau e Buchenwald, 1903/1990): “Sempre que os velhos não sabem para onde vão, sentem-se perdidos os jovens”
Meus amigos, são os jovens que dão a força e a dinâmica para a mudança mas são os “velhos” que devem traçar o rumo!
Outras conversas…
Vales, 10-Agosto-2016

António Manuel M. Silva