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Animus Semper

EM HONRA DO P. LOBATO

Homenagem ao Sr. Pe. Lobato

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Fui ao funeral do Sr. Pe. Lobato. Além do Sr. Bispo e dos sacerdotes presentes, reconheci mais cinco antigos alunos dos seminários da diocese. Deslocaram-se também dois autocarros das comunidades que o Sr. Pe. Lobato serviu nas últimas décadas (Comenda, Atalaia, …)

O meu conhecimento do Sr. Padre Lobato vem-me de duas fontes: por ter sido meu professor de matemática no Gavião e pelo que fui ouvindo do seu condiscípulo, Sr. Cónego Henrique Pires Marques. Creio que este gostaria de estar presente, mas a sua saúde precária e falta de autonomia não lho permitiu.

Como professor de matemática, lembro-me de um episódio caricato. Num exercício, eu tinha o teste todo certo, excepto a resposta à pergunta: o que são ângulos complementares? Quando recebi o teste, fiquei fulo porque o professor mandou riscar essa definição. Percebi mal: riscar significava no seu «vocabulário» sublinhar. Para mim significou eliminar e, portanto, não é preciso saber. A última vez que falei com ele foi no nosso Encontro do Gavião. Num pequeno grupo recordámos-lhe que tinha sido nosso professor de matemática no Seminário de Gavião. Num misto do seu humor característico, de simplicidade e humildade retorquiu: «não sei que lembrança têm de mim como professor, mas eu não percebia lá grande coisa daquilo!»

Antes de se sumir na eternidade, o Sr. Pe. Lobato deve ter deixado muitos gestos de uma profunda humanidade e solidariedade. Foi dele que presenciei uma das maiores lições de humanidade, das muitas que recebi e de muitos, ao longo da minha vida. Um belo dia, o prefeito não podia acompanhar-nos no refeitório. Ele substituiu-o. Como se recordam, no refeitório havia um estrado ao cimo da sala onde comia o prefeito. Havia também um seminarista que servia o Sr. Padre e que tinha direito a comer o que sobrava. Era um servir desejado e apreciado! Ainda hoje me imagino de olhos esbugalhados de espanto ao ver recusar a travessa, oferecê-la ao que servia e, dirigindo-se a uma mesa, serve-se de uma fatia nada económica do detestado e detestável arroz-argamassa. Na altura, nã

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o sei o que terá turvado mais o meu olhar, se a inveja do felizardo, se o gesto de Sr. Pe. Lobato. O meu esgrilar da coriácea memória não me permite responder. Todavia, sempre que na escola se discutia se devia haver duas filas ( a dos professores e dos alunos) no bar e no refeitório, era certo e sabido, que a lição do Sr. Pe. Lobato invadia a minha consciência e se impunha com enorme pujança. Talvez, então como agora, já necessitávamos mais

de testemunhos e exemplo que de mestres.

No garimpo da memória que os nossos Encontros proporcionam, tive oportunidade de contar a alguns dos meus condiscípulos este episódio. Espanto: muitos como eu o haviam registado e conservado.

 

Mário Pissarra