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É CARNAVAL...

CARNAVAL DA MINHA FREGUESIA – VÁRZEA DOS CAVALEIROS

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COSTUMES CARATERÍSTICOS DO MEU TEMPO

 

No meu último texto, escrevi sobre alguns dos aspetos mais caraterísticos da etnografia da minha freguesia de VÁRZEA DOS CAVALEIROS do concelho da SERTÃ.

Vou, hoje, continuar, descrevendo certos costumes, mais ou menos interessantes, da época, já longínqua, da minha infância. Apenas dos que me recordo, como é óbvio.

 

HISTÓRIA

O CARNAVAL é uma festa de origem pagã: festins, músicas estridentes, danças, disfarces e licenciosidades formavam o fundo destes regozijos.

Na Gália, havia a chamada grande festa do Inverno, marcada pelo adeus à carne, que se iniciava por um grande período de abstinência e jejum, como o nome, em latim, o indica: “carnis levale”, que formou a palavra “CARNAVAL” – “carnis” em latim significa carne e “levale” significa retirar. Era o último dia, nessa época, em que se podia comer carne, seguindo-se, depois, um rigoroso jejum, com abstinência de alimentos de origem animal.

O modelo atual da festa do Carnaval surgiu no século onze, a partir da instauração  da SEMANA SANTA pela Igreja Católica, antecedida pela QUARESMA, com 40 dias de jejum ( a seguir ao Carnaval ).

O carnaval da antiguidade era marcado por festas, onde se comia, bebia e participava de alegres celebrações e busca contínua de prazeres. Durava 7 dias –entre 17 e 23 de Dezembro - nos quais até os escravos tinham liberdade para fazer o que quisessem; as restrições morais eram relaxadas. Já, nessa época, se nomeava o REI DO CARNAVAL, que comandava os cortejos pelas ruas. As fitas que amarravam os pés da estátua do deus SATURNO eram retiradas, como se a cidade o convidasse para participar nas folias. Mais tarde apareceram os bailes de máscaras e, nos cortejos, os carros alegóricos, em que se parodiavam as personalidades políticas ou outras.

A Igreja Católica aproveitou esses festejos e, no século XI como se disse, adaptou-os ao Seu Credo, aproveitando a lua cheia para a marcação do seu início. Assim, a PÁSCOA ocorre no primeiro Domingo após a indicada lua cheia que se verifica após o equinócio da primavera (hemisfério norte) ou do equinócio do outono (hemisfério sul), sendo a Sexta Feira de Paixão a que antecede o Domingo de Páscoa, ou seja decorrem 47 dias entre terça feira de Carnaval e o Domingo de Páscoa.

 

COSTUMES CARATERÍSTICOS

Não sendo o carnaval uma festa religiosa passava quase despercebida. No entanto, havia costumes interessantes, alguns dos quais ainda hoje perduram:

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- O ENFARINHAMENTO

As raparigas enchiam “taleigas” de farinha e, às escondidas, enfarinhavam os rapazes ou deitavam-lhe caldeiros de água e fugiam. Os rapazes participavam nestas brincadeiras e “punham-se a jeito”, com risos e perseguições pelas ruas. Para não serem apanhadas, as raparigas refugiavam-se em casa das vizinhas que, propositadamente, deixavam as portas abertas ou só no trinco. Se eram alcançadas ou se se deixavam apanhar, como num dos Cânticos dos Lusíadas, era a “luta” entre sexos, que se adivinhava.

 

- QUINTAS FEIRAS ANTERIORES AO CARNAVAL

Festejavam-se as 4 quintas-feiras, anteriores ao Carnaval: dos RAPAZES, das RAPARIGAS, dos COMPADRES e das COMADRES.

 

QUINTA FEIRA DOS RAPAZES

Era a primeira das 4 referidas 5.ªs feiras, festejada com petiscos e copos. Bem comidos e bebidos, os rapazes dirigiam-se à encosta do pinhal da Cabeça Gorda e, ali, passavam à divisão das partes do BURRO pelas raparigas da povoação, com ditos cómicos, referindo defeitos ou virtudes das mesmas.

Através de um funil para ampliar o som, um rapaz do grupo, em algazarra, gritava:

“Para a menina X, por ter os seios duros e pequenos, vai a pele do burro para os aquecer e proteger”.   “Para a menina Y, por ter uma farta e linda cabeleira, vai o rabo do burro para lhe sacudir as moscas”.  “Para a menina Z, por coxear, vai a perna direita do burro para contrabalançar com a  perna manca”.  “ Para a menina X1, por se julgar superior e mais bonita, vai a cabeça do burro, para se habituar a pensar como ela.  “Para a menina Y1, por estar sempre sisuda e triste, vai o zurrar do burro, para se alegrar e participar nas nossas brincadeiras”.  “Para a menina Z1, por ser reinadia e brincalhona, vão os penduricalhos do burro.

A divisão do burro continuava e todas as raparigas eram contempladas. Se alguma não o era ficava muito triste, pois todas gostavam de saber o que pensavam os rapazes. Fazendo grande algazarra, os rapazes gritavam, pelo funil, que se as raparigas não tinham ficado satisfeitas com a parte que lhes coubera, que fossem à taberna da freguesia, onde estavam as partes do burro que tinham sobrado. Certo é que cada uma pensava na parte que lhe fora atribuída.

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QUINTA FEIRA DAS RAPARIGAS

Na quinta feira dos rapazes, as raparigas reuniam-se em casa de uma delas, para ouvir e comentar a divisão do burro referida. Era uma gargalhada geral e as jovens deleitavam-se com as brincadeiras dos “seus rapazes”.

Era, também nessa casa que, na sua 5ª feira, se reuniam para beber aperitivos açucarados, com álcool e comer petiscos e doces.  Falavam dos seus namoricos, com confidências ditas pelas mais extrovertidas -  o que levava as mais tímidas a “abrirem-se” também - e era uma alegria e festa.

 

QUINTA FEIRA DOS COMPADRES

Na sua quinta feira, os compadres reuniam-se, em casa de um deles – em cada ano mudava a casa – e,aí, celebravam, petiscando e bebendo fruto da uva, em quantidade.

 

QUINTA FEIRA DAS COMADRES

Recordando o seu tempo de raparigas, as comadres faziam um lanche, com chá e torradas, reunindo-se em casa de uma delas para “tagarelar”sobre os maridos, filhos e netos, se já os havia.

 

ALMOÇO DE CARNAVAL

No dia de Carnaval havia rancho melhorado. Na verdade, tinham-se passado tempos difíceis e recordavam-se as situações de carência vividas durante a 2ª Grande Guerra, com “senhas” necessárias até para comprar pão. Felizmente, na minha povoação nunca faltou, pois a broa supria as dificuldades desses tempos.

Então, quando a crise foi passando, dizia-se  que “no Carnaval, se come uma talhada, comem-se duas, cada um come o que tem na vontade”.

Em casa de cada família fazia-se um bruto cozido, com todos os matadores, pois as carnes de porco e chouriços de todas as categorias não faltavam, uma vez que se engordavam 1 ou mais porcos por ano e a matança tinha sido pelo Natal. As carnes eram salgadas e guardadas nas salgadeiras. Também não faltavam as hortaliças frescas – couves, feijões, cabeças de nabo – cultivadas nas hortas. Igualmente, o vinho era das videiras dos “engados” e vinhas. Nada faltava e os “emigrantes” nas cidades não faltavam e aproveitavam para abraçar os Pais e outros familiares e para “tirar a barriga de misérias”.

Este o Carnaval da minha infância/juventude, que tantas recordações me deixou pelo convívio são e saudável desses tempos. Depois do Carnaval, vinha a QUARESMA, tempo de oração e penitência, que se iniciava com a QUARTA FEIRA DE CINZAS e terminava na PÁSCOA da Ressurreição, 47 dias depois.

Com um forte abraço, desejo a todos bom Carnaval e boa Páscoa.

Lisboa, 23 de Fevereiro de 2 017.     

J. NOGUEIRA

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