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Animus Semper

DUAS CARTAS A SALAZAR

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Queria assinalar o 1º aniversário  de "animus semper", uma porta sempre aberta para um encontro de amigos, enviando esta despretensiosa crónica que fui recolher a um passado longínquo. Parabéns ao blogue e aos seus timoneiros, com um abraço amigo. 

Fernando Leitão (na  foto, de boné em Marvão)

 

A HISTÓRIA DE DUAS CARTAS A SALAZAR

 

    O meu pai, alfaiate e sacristão, era grande admirador deste governante. No atelier da alfaiataria, em local de destaque, descobria-se a sua figura. Não foi fácil removê-la com a argumentação dos filhos. Legionário, muitas vezes se ausentava de noite, vestindo a farda e empunhando a arma, pendurada na porta do quarto, para responder a rumores de revolta.

   Um dos cinco filhos, órfãos de mãe na meninice, o José, de saudosa memória, por temperamento aventureiro, lá conseguira carta de chamada para Angola, para Vila Salazar, agora cidade N’dalatando, onde permaneceu até pouco antes do 25 de Abril, para rumar ao Brasil, cidade Gaúcha, do Estado de Paraná, com carta de chamada de um tio que deixara as Moitas (Proença-a-Nova). Na qualidade de mancebo apresentou-se, em Luanda, para a inspecção militar, tendo ficado apurado. Esta situação era preocupante para o nosso pai porque deixaria de contar com os seus angolares, com que custeava as despesas dos estudos nos seminários dos filhos Fernando e Alberto. Foi por esta situação a golpear-lhe a cabeça que decidiu escrever ao Salazar, expondo esta aflição. Ao fim de duas semanas, o Presidente da Junta de Freguesia de Cernache, na altura o Sr. José Fernandes, chamava o meu pai para lhe mostrar o ofício da Presidência do Conselho para, por ele, serem confirmadas as suas alegações.

    Chegou o dia da apresentação no aquartelamento de Luanda para cumprir o serviço militar e ao meu irmão foi dada a boa notícia de que estava livre.

    Se a primeira carta foi redigida pelo meu pai, a segunda foi por mim esboçada. O médico de Oleiros, na altura, Dr. Brandão, figura controversa, mas muito humano, procurou-me para me disponibilizar a escrever ao Salazar, expondo a situação de um jovem oleirense, mobilizado para o Ultramar e que era quem cuidava de sua mãe, deficiente profunda. Fui da ideia de que eu compilaria a argumentação, mas seria o próprio a escrevê-la e assiná-la com seu punho. Convocado para um encontro na Casa Paroquial, foi grande a comoção quando me disse:” escreva a dizer que eu quero ir para o Ultramar defender a Pátria como os outros jovens, mas peço que recolham a minha mãe e ma devolvam, no meu regresso, como a deixei, cuidando dela com o mesmo carinho que sempre lhe dispensei”. Decorrido poucos dias, deslocava-se a Oleiros um piquete do aquartelamento militar de Castelo Branco para “in loco” averiguar da veracidade da exposição. O rapaz não foi para o Ultramar e sua mãe continuou a receber deste seu filho dedicado toda a atenção, a que o Exército se escusou, pela responsabilidade a que se obrigaria.

 

Fernando Cardoso Leitão Miranda

NOTAS: - um bom processo de celebrar o 1.º aniversário. Parabéns, Fernando!

              - Obrigado pelos PARABÉNS endereçados ao blogue. Vamos em frente.