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Animus Semper

DIVAGANDO PELAS NUVENS

O Pires da Costa vai-nos surpreendendo com os seus textos.Pires Costa.jpg

Hoje é nefelibata, mas a graciosidade da escrita leva-nos

até ao fim do texto. Vale a pena ler! AH

 

DIVAGANDO  PELAS   NUVENS

 

O céu espelha-se no mar e torna-o azul. A terra espelha-se nas nuvens e torna-as brancas, escuras e negras. As nuvens não passam de reflexos aparentes da terra. Nesta, até existem outras cores. Só que não se reflectem nas nuvens. Só as cores básicas da terra se reflectem nelas. As outras, não. Porque as outras cores da terra não são de todos. São apenas de alguns. E porque não são de todos e funcionam como propriedade particular, não podem reflectir-se nas nuvens, pois muitas delas foram usurpadas ou adquiridas sem justificação. A terra devia ser de todos e não só de alguns, mas não é assim. Por isso, as nuvens não têm mais que três espécies de cores.

Seja como for, mesmo tendo cores diferentes, limitam-se a desempenhar as funções naturais que lhes foram atribuídas, independentemente das cores que têm. São diferentes mas não são racistas. São todas nuvens e tratam-se como tal. Lá onde vivem, cruzam-se, abraçam-se, entreajudam-se, divertem-se e vivem em harmonia permanente. No reino da nebulosidade, não existe a palavra paz. Porque paz é o antónimo de guerra. E a paz foi inventada pelos homens para caracterizarem o tempo das tréguas, isto é, os intervalos das guerras em que passam a maior parte do tempo.

Os que por cá andamos sabemos  bem o que se passa. E porque existem as guerras? Pela simples razão de todos quererem ter mais que os outros.  Os que conseguem ter mais – e muitas vezes muito mais! – são os donos das outras cores da terra que não se reflectem nas nuvens. São os privilegiados. Os que  têm regalias especiais. Os que têm muito dinheiro, porque este é que dá o poder aos homens. Normalmente, diz-se que há os ricos e os pobres. Mas não é bem assim. Ficará melhor se dissermos que existem os ladrões e os honestos. E o mal disto tudo é que  os da maioria preferem ser ladrões, já que, lá no pensamento deles, os honestos não são honestos, são é parvos e estúpidos. É por isso que na terra há muitas confusões e  injustiças, que originam os conflitos entre os homens. Na terra há hipocrisia. Nas nuvens não. Na terra há a inveja. Nas nuvens não. Na terra há muitas traições. Nas nuvens não. Porque a hipocrisia e a inveja e as traições não se espelham nas nuvens. Estas são leais e não se ofendem umas às outras. Só se empurram. E nunca sabemos se é a sério ou a brincar. Isto é, se andam a trabalhar ou apenas a recrear.

Por paradoxal que pareça, a terra espelha-se nas nuvens, mas estas não são o espelho da terra. Há entre elas analogias ilusórias, como o espelho que reflecte a imagem ao contrário: a esquerda é a direita e a direita é a esquerda. Olhemos as nuvens atentamente. Na terra há montanhas? Nas nuvens também. Na terra há vales? Nas nuvens também. Na terra há figuras estranhas e disformes? Nas nuvens também. Há na terra configurações de beleza e harmonia? Nas nuvens também. Há contrastes nas formas da terra?  Nas nuvens também. Há na terra caricaturas de pessoas e pessoas que são caricaturas? Nas nuvens também.  Há monstros na terra que metem medo e nos causam horror? Nas nuvens também.

Só que nas nuvens quase tudo é em sentido figurado e criatividade do nosso olhar. Na terra, o que parece é; nas nuvens, nem tudo é o que parece. Bonda de provas.

As nuvens recebem o que a terra lhes dá. Vão acumulando e trabalhando as ofertas e, quando o entendem, devolvem-nas, distribuindo-as por diversos locais, apesar de o fazerem com critérios nem sempre compreensíveis pelos terrestres. Mas tudo o que recebem dão, sem exigirem nada em troca. São sérias, puramente generosas e gratas. E se nem sempre se aperfeiçoam muito na forma como devolvem o produto, podemos perguntar: não será isso consequência de nelas se espelhar a terra?  Por mim, não tenho dúvidas, até porque nada ganharia se as não tivesse.

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Chegado a este ponto, interrogo-me: - Será que andei nas nuvens enquanto escrevinhei esta despretensiosa crónica? Se assim foi, não me lamento. É bom divagar por ambientes diferentes. Como fazem as nuvens que, de vez em quando, desaparecem e demoram a regressar, prontas para novas tarefas. Além disso, como as coisas estão cá pelo planeta, bom é irmos, de vez em quando, até às nuvens para aliviarmos a alma. Até porque é preferível ir às nuvens do que aos arames, que é onde, quase doentiamente, os humanos se deslocam com uma rapidez incrível… Depois queixam -se que ficam presos pelos cabelos. Tenham-nos ou não tenham!

Como as nuvens vivem mais perto do céu, solicitemos-lhes que, assim como choram muitas lágrimas por nós, rezem também. Pode ser que se dê algum milagre. Se não der, resta-nos continuarmos a divagar «por este vale de lágrimas», como diz a oração.

Despeço-me e vou-me até às nuvens. Lá é que se está bem!...

               

 A. Pires da Costa