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Animus Semper

CIÊNCIA QUE NÃO VEM NOS LIVROS

A minha versão do episódio: “Ciência que não vem nos livros”.

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Com citação de George Sand e tudo, o Fernando Leitão volta à carga com um delicioso episódio (um que são dois!, diria o saudoso P. Reis - um dia ainda conto...) AH

 

“A memória é o perfume da alma”

                                                        George Sand

 

  1. Antecedentes

Ao deixarmos a vetustez das muralhas de Marvão, que foi, num triénio, nosso espaço de estudo, oração, reflexão e diversão, rumámos à cidade de Portalegre, onde nos aguardava o novo Seminário, oferecendo-nos outras comodidades, tendo-me sido atribuído um quarto com vistas para a Igreja de Bonfim, aonde ia dominicalmente com o Pe Augusto, para solenizar a Eucaristia com cânticos.

casota.jpgNa altura, era ecónomo o Cónego Mendes que nos regalou com ementas (sopa e dois pratos) a que os nossos estômagos não estavam habituados. Mas a regalia não durou muito tempo porque dessa administração resultou um grande rombo no orçamento. Antes de proceder à alteração gastronómica, quis ouvir a rapaziada e questionava-nos se optávamos por “dois pratos fracos ou por um forte”. Venceu esta segunda hipótese que, com o andar dos tempos, se foi deteriorando, assumindo-se, por vezes, intenção de fazer levantamento de rancho. Remediávamos o vazio estomacal com um “bifinho” no restaurante “Escondidinho”.

 

  1. Assalto à casota do cão

O caseiro da nossa Quinta, o Sr. Domingos, queixava-se de que a fruta desaparecia toda, culpando-nos de a surripiarmos, quando, o que na altura se dizia, eram os soldados que por ali passavam, indo ou vindo dos quartéis, que a saboreavam. Para pôr cobro a tal desmando, arranjou um corpulento cão, posto de sentinela e desafiava-nos “ Vocês que estudam tanto em livros, venham lá agora à fruta”.casota1.jpg

Foi num dia em que o jantar tinha sido intragável, que a malta exteriorizou o seu descontentamento, fazendo depois uma espera ao cão que, quando viu o aglomerado de vestes negras, se terá assustado, refugiando-se no fundo da casota. Havia ali tábuas, martelo e pregos e assim tapámos o bocal de seu esconderijo sem qualquer protesto do canino, deixando uma mensagem para o caseiro: ”Ciência que não vem nos livros”. Na altura pensou-se em redigi-la também em latim e grego, mas não confirmo a sua concretização.

 

O cão, segundo versão do A. Henriques, estaria de guarda a uma nogueira, mas o autor confesso do seu aprisionamento, é de opinião diferente. Ele estaria num alpendre, depósito de alfaias agrícolas e dali fazia a guarda das árvores frutícolas e de toda a quinta.

Ao romper da manhã do dia seguinte, quando ia dar a ração aos animais, o Sr. Domingos não conformado com tal desacato, recolheu com cuidado o papel da mensagem para o mostrar ao Vice-Reitor, confiando que ele nos pusesse na linha. Não tenho ideia de termos sido molestados por esta nossa atitude.

Mas como os anos já me pesam e muitos registos do passado já se vão perdendo, espero que quem fez parte do grupo de assaltantes e colaboradores no aprisionamento do cão e ainda por cá ande, complete este pedaço de história.

Fernando Leitão Miranda

 

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