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Animus Semper

Centenário das Aparições (2)

Outro belo texto do Florentino sobre os pastorinhos, a ilustrar "os contornos do seu ambiente geográfico, económico, familiar e sócio - religioso". Vale a pena ler... AH

 

Os pastorinhos e o seu meio ambiente

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Na última abordagem ao fenómeno das aparições de Fátima, tentámos contextualizar os primeiros traumáticos e complexos anos da implantação da República, após 1910.

Hoje, propomos uma abordagem sintética do tema das aparições, tentando caracterizar os três pastorinhos, indagando os contornos do seu ambiente geográfico, económico, familiar e sócio - religioso.

Os protagonistas dos acontecimentos das ditas visões sobrenaturais, ocorridas na Cova da Iria, entre maio e outubro de 1917, foram três primos, com idades muito próximas. Lúcia, de 10 anos (28.03.1907 - 13.02.2005), Francisco Marto (20.06.1908 - 04.04.1919), com nove anos e Jacinta Marto, a mais novinha, com apenas sete aninhos (19.03.1910 – 20. 02. 1920).

Ainda em tenra idade, em vez de frequentarem a escola primária, ocupavam-se do pastoreio de um pequeno rebanho de ovelhas de seus pais. A aldeia onde residiam situava-se num lugar chamado Aljustrel – na freguesia de Fátima, com 20 aldeolas à sua volta, no concelho de Ourém, diocese de Lisboa. Distava da Cova da Iria, lugar onde terá ocorrido o fenómeno das aparições, cerca de dois quilómetros. Em 1917, Aljustrel era um lugarejo perdido na Serra d´Aire, no centro do país, uma região serrana, com clima mediterrânico, com algumas pastagens, pinheiros e azinheiras, situado num planalto a 478 metros acima das águas do mar. Os seus habitantes reduziam-se a cerca de 25 famílias.

A subsistência dos agregados familiares das três crianças dependia, sobretudo, da agricultura e da pastorícia. Por esta razão, os pastorinhos, desde tenra idade, foram inseridos nas lides do campo, em apoio da subsistência familiar. Assim sendo, não admira que os três primos, em 1917, data das ditas aparições, ainda não tivessem frequentado a escola primária, situada em Fátima, a dois quilómetros das suas habitações, em Aljustrel. Refira-se que, das 36 crianças deste lugarejo, apenas oito frequentavam o ensino primário. O analfabetismo atingia então 88% da população portuguesa, onde se incluía Lúcia, Francisco e Jacinta.

Sobre este aspeto, relativamente à família dos pastorinhos, somente a mãe de Lúcia, Maria Rosa, tinha aprendido algumas letras com uma sua parente, Maria Isabel. Por esta razão, as crianças aprenderam a catequese e várias histórias de aparições de Nossa Senhora –  La Salette a dois pastorinhos, na Nazaré e em Lourdes – juntamente com a Bíblia e o aterrador e polémico livro da “Missão Abreviada”, pela boca da mãe de Lúcia, casada com António dos Santos, um alcoólico esbanjador, com quem teve sete filhos, sendo Lúcia a mais nova. Esta criança, dotada de uma excelente memória, de feições um pouco rudes, com carisma de líder, catequizada pela sua mãe, já aos seis anos sabia a doutrina necessária para poder fazer a primeira comunhão. O que não era muito habitual.

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 Note-se que Lúcia, em família, todos os dias, na sua casa, rezava o terço, dedicado aos familiares falecidos, a oração da manhã e às refeições. Uma prática quase geral nos lares mais religiosos. Lúcia conheceu também, através da sua mãe, uma velha história que remonta ao séc. XVII, relativa a uma aparição junto da sua aldeia, no lugar onde hoje se encontra a capela de Nossa Senhora da Ortiga, a uma pastora muda que, após a aparição, reza a tradição, começaria a falar. A devoção a Nossa Senhora do Rosário que Lúcia tinha, antes das aparições, foi-lhe também transmitida pelas sus irmãs mais velhas que se ocupavam de um altar dedicado a esta devoção à Virgem, na igreja paroquial de Fátima.

Francisco, por sua vez, caracterizava-se por ser uma criança submissa, afetuosa, passivo e obediente. Por sua vez, Jacinta, a mais novita, era dotada de uma grande sensibilidade, de lindas feições, com oscilações de humor e muito dependente da sua prima Lúcia. Os seus pais analfabetos eram pessoas também muito religiosas. A sua mãe, Olímpia, já com dois filhos de um primeiro casamento, após ter enviuvado, casaria com Pedro Manuel Marto. Deste segundo matrimónio, Olímpia teria ainda mais sete filhos, sendo Francisco e Jacinta os mais novos. Serão estas três crianças, criadas neste contexto geográfico, económico e sócio - religioso que se irão transformar em protagonistas do fenómeno da Cova da Iria, iniciado em 13 de maio de 1917, o qual abordaremos mais tarde.

florentinobeirao@hotmail.com