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Animus Semper

CACOCRACIA?

No reino da cacocracia

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Na minha reflexão pedonal, para não me esquecer de escolher o que considero melhor para a cidade e o concelho, fui mentalmente ter com aquela plêiade de escribas que nas redes sociais proclamam alto e bom som: os políticos são todos uns vigaristas, uns desonestos, uns incompetentes, uns corruptos etc. São todos iguais. Resumindo, somos governados pelos maus. Há muito que este tipo de discurso, a toda a hora repetido e ampliado nas redes sociais, me dá voltas aos humores. É para mim óbvio que é um discurso dicotómico, bipolar, esquizofrénico e maniqueísta. O mundo está dividido em dois: nós e os outros. Nós somos os bons, honestos, os sérios, os santos; os outros são os maus, os, malandros, os aldrabões, os aproveitadores, os oportunistas, os corruptos. Eu estou inequivocamente no pólo dos bons e os políticos no dos maus. Acontece, porém, que a realidade não é assim. Todas as pessoas praticam acções boas e más, não há só duas cores, e os bons e os maus existem em todas as profissões. A bondade e a maldade não são um monopólio de pessoas nem de grupos.
Enquanto caminhava procurei uma palavra que definisse este tipo de governo dos maus. Já conhecia a aristocracia – o governo dos excelentes, dos superiores, dos que possuem a arethé. Depois lembrei-me de cacofonia – som desagradável, mau- Mantive a raiz kakos (mau) e juntei kratos (poder) e inventei a palavra cacocracia. 
Ao chegar a casa consultei o dicionário: cacocracia e kakocracia. Informou-me laconicamente: a palavra não existente. A palavra não existe, mas o conceito está presente a cada passo nas redes sociais.

Como tinha acabado de ler um texto sobre o populismo:

“Todos os populistas contrapõem «o povo» a uma elite corrupta e interesseira, como fez Trump. Mas nem todos aqueles que criticam os poderosos são populistas. O que realmente distingue um populista – é esta a tese principal deste livro – é a sua reivindicação de que ele e só ele representa o verdadeiro povo. Como Trump explicou, porque ele controla agora o poder executivo, é o povo que controla o Governo. Fica implícito que toda a oposição é ilegítima – quem se oponha a Trump opõe-se ao povo. É um padrão profundamente autoritário, comum em líderes como Hugo Chávez, o o primeiro ministro húngaro autoproclamadamente iliberal, Viktor Orbán, e o Presidente turco Recep Tayryp Erdogan. Trump não podia ter tornado mais claro para o mundo o perigo que representa para a democracia.
Chávez gostava muito do slogan «Com Chávez, quem governa é o povo.» Ironicamente, esta identificação com o seu único e fiel representante significa que o populista não assume em última instância qualquer responsabilidade política. Trump pretende ser apenas o executor-chefe da vontade autêntica do povo. (…) A dissidência torna-se por definição não democrática. Todos os freios e contrapesos – que são completamente normais no sistema de separação de poderes numa democracia – são simplesmente obstáculos à realização da vontade do povo.”
Jean-Werner Müller (2017). O Que É O Populismo?. Lisboa, Texto: 9 – 10.

Ao terminar o meu passeio matinal de domingo não me saía da cabeça a pergunta: serão os defensores da tese da cacocracia populistas impotentes? Que eles não sujam as mãos em nada já há muito eu sabia. Que só mantêm as mãos limpas porque não fazem nada também já era uma certeza adquirida. A dúvida é se são populistas impotentes ou em potência.
Mário Pissarra