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Animus Semper

As prendas azedas

Um Natal frio e sombrio

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“Vemos, ouvimos e lemos…não podemos ignorar”, cantavam assim os baladeiros dos anos 60, quando os crimes de guerra dos Estados Unidos avassalavam, criminosamente, o martirizado Vietnam. Passados estes longos anos, se o mundo não está melhor de saúde, o nosso país, nos últimos dias, também não se encontra sadio, devido às revelações da suposta corrupção na instituição “Raríssimas”, uma exímia instituição no trato e apoio a crianças com doenças raras. Acresce ainda o caso do hediondo rapto de crianças, pela igreja da IURD, de infantários portugueses, a caminho de uma problemática e obscura adoção no estrangeiro.

Vamos por partes. No primeiro caso, o chocante foi tomarmos conhecimento de que uma senhora, de provadas qualidades de investimento social, se deixou embriagar, quando milhões lhe começaram a passar pelas mãos, acumulando regalias com o dinheiro do Estado. Nadar em fausto e poder, tornou-se no seu novo modelo de vida. Outros também beneficiariam do bolo.

No segundo caso, a sua gravidade atingiu uma poderosa igreja brasileira, IURD, espalhada por largas dezenas de países. Como os seus “pastores” estavam impedidos de ter filhos biológicos, sempre que o desejassem, as crianças eram, ilegalmente, dadas para sua adoção. Durante longos sete anos, este esquema hediondo funcionou, sem que alguém tenha levantado uma voz denunciadora, em defesa das crianças violentadas, após escolhidas por fotografias.

Tudo isto aconteceu porque terão falhado os tribunais, a Segurança Social, a Misericórdia de Lisboa e o Estado, os quais, surdos e mudos, permitiram que as crianças fossem raptadas por criminosos ilegais, para fora do nosso país. Uma vergonha para todos.

Nesta altura de Natal, em que, na nossa cultura cristã, tanto se venera o presépio, pobre, humilde, apenas aquecido, simbolicamente, por dois animais, seria bom, quanto a nós, percebermos como toda esta cena pode encaixar na reflexão da nossa vida de cidadãos, crentes ou não.

Se refletirmos nestes casos esmagantes, que nos caíram em cima nesta quadra natalícia, facilmente podemos concluir que eles se encontram unidos pelo mesmo motivo. A riqueza desmesurada, muitas vezes, acaba por embriagar as pessoas e as instituições, julgando-se acima da lei. Só que, os resultados destes comportamentos acabam, quase sempre, por deixar grandes marcas de sofrimento, para as pessoas e para as instituições. Por outro lado, a descrença na sua obra, por melhor que seja, fica sempre desgastada socialmente.

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Sendo assim, neste Natal consumista, multicultural e muito neo-pagão, saibamos olhar mais fundo para a humildade do primitivo presépio de S. Francisco de Assis, para dele respigarmos alguns ensinamentos para a nossa conduta de vida. Sobretudo, para cuidarmos das nossas crianças, defendendo-as dos lobos matreiros e vorazes que se banqueteiam à custa das suas vidas, sobretudo, das mais carenciadas da nossa sociedade.

Não deixemos que o capital nos roube a primitiva e fecunda mensagem natalícia. A destruição do seu espírito poderá contribuir para arruinar o sentimento do nosso dever particular e coletivo, para com os mais carenciados da sociedade.

Sendo assim, tentemos não ser o centro do nosso pequeno mundo, para passarmos a viver, devotadamente, ao serviço desinteressado dos outros.

Para nos ajudar na concretização destes propósitos, não deixemos morrer um Natal de magia, em que tudo faz sentido, dando lugar apenas a uma quadra comercial insípida, massificante, onde somos abafados pelo excesso e pelo supérfluo. Como nos adverte o poeta Tolentino, “ o Natal não acontece para nos aprisionar no labirinto das frases feitas, na melopeia obsidiante dos símbolos ou nos passos perdidos das galerias do comércio”.

Não fiquemos assim, apenas por endereçarmos “e-mails” aos nossos amigos e conhecidos, com os rotineiros votos de um “Feliz Natal e um próspero Ano Novo”. Nós e os outros merecemos mais e melhor. Sejamos criativos.

 Tentemos pois afastar de nós um Natal frio e sombrio das crianças mais abandonadas das nossas relações. Pelo contrário, façamos com que as prendas azedas, com que fomos chocados pelas televisões, se transformem em doces relações interpessoais. Boas Festas para todos.

florentinobeirao@hotmail.com